ELEIÇÕES 2022: MOVIMENTO 65

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CAMPANHA MOVIMENTO 65

quinta-feira, 6 de abril de 2023

ESPORTE Renildo Calheiros defende fortalecimento do esporte no Brasil - Por: Christiane Peres - PCdoB na Câmara

 

Em audiência com a ministra da área, Ana Moser, deputado afirma que é preciso buscar mais recursos para o esporte e soluções criativas para implementação de políticas públicas para a área

“Não seja uma ministra que aceita cortes de recursos na área de esportes. Lute pela ampliação deles, porque eles são poucos. O esporte, assim como a cultura, é dessas áreas que precisa de mais investimentos, pois só assim conseguiremos fortalecer o esporte no Brasil e proporcionar que mais pessoas tenham acesso a ele. E a senhora terá nesta comissão aliados importantes.” Esse foi o tom da fala do deputado Renildo Calheiros (PCdoB-PE) durante audiência com a ministra do Esporte, Ana Moser.

No encontro, realizado nesta quarta-feira (29), Renildo defendeu o fortalecimento da área e afirmou que será preciso criar soluções criativas para a implementação de políticas públicas para a área.

“Em todo governo, as áreas sempre têm divergência com a Fazenda, porque quem está na Fazenda tem um olhar diferente de quem implementa políticas públicas. Quem está na Fazenda pensa primeiro nas contas. Então, sugiro. Não é uma insubordinação, mas não seja uma ministra que aceita corte de recursos na área de esportes. Lute pela ampliação dos recursos, porque eles são muito poucos. E muitas coisas, com criatividade, pode ser buscada. Há uma interface grande entre esporte e saúde; há vários programas que podem ser propostos em parceria com o Ministério da Educação; com outras Pastas que tenham mais estrutura”, afirmou.

Para Renildo, quem executa política pública precisa olhar para todos, pois “quanto mais pessoas tiverem acesso ao esporte, maior a possibilidade de surgir atletas de alto rendimento”. “É quando você amplia a participação da base que surgem mais talentos e possibilidades”, destacou.

O parlamentar celebrou a retomada da Pasta, então extinta por Bolsonaro sob a premissa de redução de gastos. “Fiz crítica ao governo passado por diminuir o Ministério do Esporte. Foi uma bobeira. Disseram que era para diminuir despesas. Mas não há novas despesas, porque redistribui as caixinhas. Mas qual é a diferença? O status político. Quando você tem uma ministra da Cultura, uma ministra dos Esportes, você dá autoridade, status político, fortalece a área e cria condições daquela Pasta buscar um resultado melhor. É isso que precisamos”, disse.

Em sua fala, Ana Moser afirmou que o objetivo do Ministério é ampliar a prática esportiva no país. Segundo ela, embora a prática esportiva seja um direito constitucional, não existem sequer estatísticas confiáveis sobre a atividade física para a população em geral.

Como forma de alcançar a meta de tornar a população mais ativa, a ministra relatou que a Pasta está construindo uma política pública integrada com outros ministérios, principalmente Educação e Saúde.

O Ministério do Esporte também irá buscar integrar ações da União, estados e municípios para que as propostas cheguem de fato à população. “É uma janela de oportunidade para a gente incorporar metas do Esporte dentro dos planos de Educação e de Saúde”, disse Ana Moser. Segundo ela, dessa forma será possível contornar a falta de recursos próprios do Esporte. De acordo com a ministra, hoje o Brasil aplica somente 0,04% do PIB em políticas esportivas. Na Europa, por exemplo, ela ressaltou que a proporção é dez vezes maior.

O presidente da Comissão do Esporte, deputado Luiz Lima (PL-RJ), se comprometeu a trabalhar junto à Comissão Mista de Orçamento para melhorar a situação Ministério do Esporte. “Essa comissão vai ter uma interferência com o relator do Orçamento, a partir de agosto, para que a gente melhore as condições, não só orçamentárias do Ministério, como políticas”, afirmou.

Fonte: Portal VEMELHO

MOVIMENTOS : Coletivo de Mulheres denuncia rotina de assédio sexual na Petrobras - por André Cintra

Internamente, empresa recebeu 81 denúncias de assédio entre 2019 e 2022, os anos do governo Bolsonaro.

O Coletivo de Mulheres da FUP (Federação Única dos Petroleiros) lidera uma campanha de combate ao assédio sexual dentro da Petrobras. Conforme lideranças da categoria, a prática virou uma rotina para trabalhadoras em diversas unidades da empresa, sobretudo para aquelas que estão embarcadas em plataformas. Um grupo de WhatsApp formado por mulheres petroleiras compilou 53 casos de assédio.

Apenas no mês de março, houve denúncias de casos de machismo e assédio na Replan (Refinaria Planalto de Paulínia), no estado de São Paulo, além de acusações similares na Regap (Refinaria Gabriel Passos) e na Termelétrica de Ibirité, ambas em Minas Gerais. Segundo o Coletivo de Mulheres, mesmo com a mudança do governo Jair Bolsonaro (PL) para o governo Lula (PT), a direção da empresa tem sido negligente.

Para a coordenadora do Coletivo de Mulheres, Patrícia Jesus Silva – que também é diretora da FUP e do Sindicato dos Petroleiros do Espírito Santo (Sindipetro-ES) –, a Petrobras precisa agir. Em fevereiro, o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, recebeu uma carta da categoria, que reivindicava a recriação das comissões de diversidade e combate às opressões. Até o momento, porém, não houve respostas.

“O Coletivo de Mulheres da FUP vem cobrando efetividade no combate aos assédios e abusos há tempos, inclusive em carta entregue a Jean Paul Prates, na primeira reunião que tivemos com ele”, lembra Patrícia Jesus Silva. A demanda chegou à Folha de S.Paulo e teria constrangido a direção da Petrobras.

Na visão da petroleira Bárbara Bezerra, diretora do Sindipetro-NF, a rotina de assédio tem inibido trabalhadoras a relatar o que sofrem. “Quando uma mulher denuncia um abuso, seja físico ou emocional, ela tende a ser desacreditada pelas pessoas a sua volta. Eu mesma já passei por situações do tipo dentro da plataforma e a primeira pergunta que fizeram é se eu estava ‘paquerando’ alguém”, diz. “É um desrespeito absurdo. Só queremos trabalhar em paz.”

Coordenador-geral, Deyvid Bacelar também exige que a Petrobras pare de ignorar as denúncias. “A empresa é responsável por dar fim a esse tipo de comportamento, punindo os agressores de forma incisiva, para que essas agressões sejam extirpadas da companhia”, afirma Deyvid.

À GloboNews, Jean Paul Prates declarou que a Petrobras tomará novas medidas de combate ao assédio. Ele disse estar ciente de diversos relatos: “Mulheres, em diferentes momentos da história da companhia, viveram situações de assédio, constrangimento e violências por gênero”, admitiu o presidente da empresa. “Em breve divulgaremos a nossa força de trabalho com novas medidas de fortalecimento da prevenção e combate ao assédio.”

Internamente, a Petrobras recebeu 81 denúncias de 2019 a 2022, os anos do governo Bolsonaro. “A nova gestão da companhia reitera que não tolera qualquer tipo de assédio e violência contra mulher, comprometendo-se a criar um ambiente de confiança para que todas as ocorrências sejam denunciadas”, diz, em nota, a Petrobras.

Um dos casos recentes ocorreu no Cenpes (Centro de Pesquisas da Petrobras), no Rio de Janeiro, onde quatro funcionárias de uma empresa terceirizada de serviços de limpeza denunciaram assédio. Uma delas foi estuprada. “Esses ocorridos são de conhecimento da Petrobras, tendo em vista que as trabalhadoras realizaram denúncia formal nos canais de denúncia da empresa e na delegacia”, diz o Sindipetro-RJ.

O estuprador, porém, não foi sequer afastado e manteve contato com a vítima. “Não teve assistência social, psicológica – e não teve proteção de emprego das vítimas”, afirma Natália Russo, diretora do Sindipetro-RJ. “Uma delas chegou a pedir demissão porque não aguentou a pressão de ficar convivendo com o abusador.”

Diante dessa acusação específica, a Petrobras reconhece que pode ter errado. “O grupo de trabalho vai rever os procedimentos internos de tratamento das denúncias. Se forem identificadas falhas, vai determinar revisão desses respectivos processos”, diz, em nota, a empresa. Mas, para o Coletivo de Mulheres da FUP, revisões sem a participação dos sindicatos não são legítimas. Até quando a Petrobras vai se esconder?

Com informações da FUP

E Portal VERMELHO

MP Eleitoral deve pedir condenação de Bolsonaro por ataques às urnas - por Iram Alfaia

Corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Benedito Gonçalves (Fotos: Antônio Augusto/Secom/TSE).

O ex-presidente é acusado no TSE pelos ataques, sem provas, às urnas eletrônicas e o sistema eleitoral brasileiro numa reunião com embaixadores estrangeiros.

Nas alegações finais, o Ministério Público Eleitoral (MPE) deve pedir a condenação de Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelo crime de abuso de poder político. O ex-presidente é acusado pelos ataques, sem provas, às urnas eletrônicas, ao sistema eleitoral brasileiro e uso indevido dos meios de comunicação numa reunião, em julho do ano passado, com embaixadores estrangeiros.

A fase de coletas de provas foi encerrada pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral, Benedito Gonçalves. Na segunda-feira (10), a defesa do ex-presidente terá de apresentar suas alegações finais e, na terça-feira (11), o MPE terá dois dias para elaborar seu parecer.

A pedido do PDT, autor da ação, o corregedor incluiu nos autos a chamada minuta do golpe encontrada na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres.

Leia mais: Maioria dos brasileiros quer Bolsonaro inelegível em ação no TSE

Pelo documento golpista, o ex-presidente decretaria Estado de Defesa no TSE, anularia a eleição presidencial e afastaria os ministros da corte eleitoral.

Segundo apurou O Globo, O MPE prepara um duro parecer em sua manifestação final no processo. A reportagem ouviu três ministros da corte que conversaram reservadamente com os procuradores e a expectativa é que o parecer seja pela condenação de Bolsonaro que deve ficar oito anos inelegível.

“Ministros do TSE lembram que o vice-procurador-geral Eleitoral, Paulo Gonet, já havia apontado ilícito no encontro do ex-presidente com os diplomatas ainda no ano passado”, diz a reportagem.

No parlamento, a expectativa também é pela condenação do ex-presidente. “URGENTE! O ladrão de joias também desviou dinheiro público para fazer campanha eleitoral. Reportagem do UOL mostra que Bolsonaro gastou 754 mil reais no cartão corporativo para pagar lanches de seus aspones em atos de campanha. Agora é com o TSE. BOLSONARO INELEGÍVEL JÁ!”, escreveu no Twitter o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP).

O senador Humberto Costa (PT-PE) diz que com “uma falcatrua nova descoberta a cada dia, Bolsonaro está mais enrolado do que nunca”. “Pela vontade da maioria dos brasileiros, a Justiça deve condená-lo e torná-lo inelegível. A democracia não pode conviver com um tirano que sempre tentou derrubá-la”, afirmou.

MPF

Em janeiro, um grupo de procuradores do Ministério Público Federal (MPF) pediu ao procurador-geral da República, Augusto Aras, que investigue Bolsonaro por incitação ao crime.

 De acordo com o grupo, “a insistência do ex-presidente em apontar supostas fraudes nas urnas que o elegeram se estendeu ao longo dos últimos anos, em lives realizadas semanalmente para seus eleitores e seguidores em redes sociais”.

“Parece haver indícios fortes de que, na madrugada de 10/01/2023 para 11/01/2023, o ex presidente da República Jair Messias Bolsonaro, (…), praticou, valendo-se de sua influência sobre relevante parcela da população, crime de incitação tipificado tanto no caput quanto no parágrafo único do art. 286 do Código Penal, ao, em tese, realizar postagem, em seu perfil na rede social Facebook, de vídeo desinformativo sobre a integridade das instituições judiciárias e sobre a higidez dos processos democráticos brasileiros”, diz o documento.

Fonte: Portal VERMELHO

domingo, 2 de abril de 2023

O caráter dos que lutaram contra a ditadura - por Urariano Mota

Em trechos do seu romance “A mais longa duração da juventude”, Urariano Mota reflete sobre o caráter dos lutadores contra a ditadura brasileira.

Eu estava refletindo há pouco e vi que o admirador reflete o seu caráter nas pessoas que ele admira. O caráter dos ídolos está no admirador. Ainda que este não realize os grandes feitos dos seus ídolos, essa admiração revela o homem que os admira. Assim, quem eleva Mussolini ao posto de grande homem, é fascista ou simpatizante de fascismo. Na sua admiração se revela. Quem admira Marx é uma pessoa comunista ou de esquerda ou democrata. E quem admira Machado de Assis e seu dicionarista José Carlos Ruy, assim como eles gostaria muito, se Deus fosse camarada, de fazer obra semelhante. E quem, numa escala miserável e medíocre, admira Bolsonaro, assim como o criminoso revela a própria ignorância e fascismo.

Essas reflexões me vêm a propósito do caráter dos lutadores contra a ditadura brasileira. E para não me alongar, destaco trechos do meu romance “A mais longa duração da juventude”, cujo título é uma promessa que espero ter, numa felicidade, quem sabe talvez, realizado. Aos trechos:

“Selene continua:

– Mas o que são as dificuldades para a vitória do socialismo, companheiro?

– Fale baixo, companheira – Célio sussurra, entredentes, atrás.

Selene o encara, na iminência de lhe enviar um raio. Mas sufoca a fulminação, e sem lhe responder continua num tom menor:

– O que são nossas dificuldades frente ao heroísmo do vietcongue?

Então eu, como um pequeno-burguês convertido ao novo evangelho, à pregação apaixonante da revolução pergunto já conquistado:

– O que posso fazer?

Selene me olha e responde rápido:

– Me pague uma sopa.

Peço e pago uma. E mais uma cerveja para nós. Mas ao chamar o garçom, Célio intervém:

– Eu troco minha cerveja por uma sopa. Pode ser?

– Claro, pode – e me digo: ‘foi-se embora meu cinema de sábado’.

Ao chegar a sopa, densa, de macarrão e carne, Selene a aplaude. O garçom sorri para a mocinha esfomeada. Ela também sorri para o garçom. Então, com a colher que vai ao prato e volta em brevíssimos intervalos de tempo, ela nos fala, deliciada:

– Sem sopa não há revolução…   

Então a advogada Gardênia anotará da entrevista com Vargas: ‘Ele era um tipo romântico, ingênuo’. O que isso queria dizer? Ali na sala está corporificado para ela: de braços abertos, Vargas protege a companheira e a filha. No diário da advogada: ‘eu conversei com ele que fugisse, ao que ele se negou dizendo que isso não faria, porque zelava pela segurança da filha e da esposa’. E Vargas, na defesa sem armas, na imaginada que pode dar às pessoas do seu extremado carinho, registra o diário da advogada: ‘Eu pedi que ele deixasse a criancinha sob meus cuidados. Ele me falou que não ia levar Nelinha para uma aventura, porque ela era uma pessoa frágil, e seria também assassinada. Aí era pior, porque a menina ficaria órfã, sem ninguém’.

Nesse ponto flagramos a pessoa, a coragem e terror de Vargas: a consciência de que será morto. Mas não só morto a tiro, de bala. Morto depois de intensa tortura e sofrimento. Aqui entra o ponto nevrálgico, ele sabe que não demora ser brutalizado, se continuar no Recife. Mas não deseja que a sua mulher o acompanhe, na hipótese de fuga ou adiamento da execução. Se ele é o condenado, por que atrair, dividir o inferno com quem ama?

– Fuja, fuja, Vargas. O momento de escapar é agora – fala a advogada.

Mas ele, o homem ‘romântico ingênuo’, não quer. À distância podemos ver a lógica fria do heroísmo em lugar do romântico, penso. A advogada Gardênia lhe atribui a qualidade de romântico porque ele defende de modo absoluto a integridade física da companheira. Um caso de paixão de enamorado, talvez. E acrescenta o ingênuo, porque ele se nega a receber o oferecimento prático do mundo real, a saber: fugir, salvar-se, para depois em segurança avaliar o estrago que deixa. Mas não estamos preparados para ver a grandeza no instante em que ocorre. Ou melhor, só vemos o grande quando ele nos impacta de modo bárbaro. Por exemplo, Gregório Bezerra sendo espancado a golpes de ferro na cabeça pelas ruas do Recife. Na sua altiva resistência vemos. Mas não enxergamos que o heroísmo vem antes da tragédia. Na decisão que antecede o desfecho não vemos a grandeza. O próprio Vargas, naquela hora em que abre os braços no apartamento de Gardênia, nada vê de excepcional. Ele apenas age para defender pessoas do seu amor, age apenas por justiça. Não levará para a desgraça a companheira querida e sua Krupskaia. Não permitirá que corram riscos maiores que viver com um ‘terrorista’. E ameniza a própria bravura com uma fórmula prosaica:

– Talvez eles nem me peguem agora. É tempo de eu vender livros pedidos pelas escolas. Com o dinheiro da comissão, eu fujo. Entendeu, doutora? Mas fique com os meus documentos. Se a situação apertar, já estão com a senhora

Aperta a mão da advogada e sai. Desce pelas escadas para melhor refletir, como se no tempo entre o quarto andar e o térreo houvesse um acréscimo de vida. E vem parando nos trechos intermediários, a retardar a sua hora, até alcançar a portaria e sair para a Rua Sete de Setembro. Agora, é o mundo real sem mais discussão filosófica. E o real são ele, Daniel e Fleury…….

O horror das mortes em 1973 é o retrato do seu último instante físico. Não é justo resumir uma vida humana assim. Sobre um animal sentimos a brutalidade: ‘O novilho continuava lutando. A cabeça ficou pelada e vermelha, com veias brancas, e se manteve na posição em que os açougueiros a deixaram. A pele pendia dos dois lados. O novilho não parou de lutar. Depois, outro açougueiro o agarrou por uma pata, quebrou-a e cortou-a. A barriga e as pernas restantes ainda estremeciam. Cortaram também as patas restantes e as jogaram onde jogavam as patas dos novilhos de um dos proprietários. Depois arrastaram a rês para o guincho e lá a crucificaram; já não havia movimento’. Se essa infâmia narrada magistral por Tolstói nos fere quando pensamos no gado, o que diremos de pessoas no matadouro?

Penso em Vargas e seu sacrifício, o heroísmo que ninguém notou. Morto como mais um boi, gado abatido qualquer. Se não lhe comemos a carne, comemos a sua grandeza, porque o defecamos em nova brutalidade. Onde está Vargas, onde buscar Vargas? Ele está na sala da advogada Gardênia, quando ela lhe propõe a fuga, que corra e suma antes de ser morto, e ele se nega porque Nelinha era muito frágil? Ele está no ônibus, quando luta febril ao vislumbrar a sua última hora, da qual possui a certeza, e para ela caminha ainda assim? ‘Nelinha está salva’, ele se fala. ‘Ela continuará a viver. Ela e a minha filhinha continuam. Venham, malditos’. E nisso, ao expressar também a crueza do seu isolamento, pois não estava ‘organizado’, sem vínculo direto com organização clandestina, onde buscar o terrorista Vargas? Desta maneira ele ficou adiante, conforme o viu a advogada Gardênia:

‘Vargas, que eu conhecia muito, estava também numa mesa, estava com uma zorba azul-clara, e tinha uma perfuração de bala na testa e outra no peito. E uma mancha profunda no pescoço, de um lado só, como se fosse corda, e com os olhos abertos e a língua fora da boca’. Vargas teria sido puxado por corda para o matadouro? Aos bois partem o rabo, rompem a cartilagem, para assim ele arremeter para o lugar onde o sangram. A homens arrastam? Nos laudos da ditadura, não há uma narração da dor. Mentirosos, chegam a ocultar a causa mortis, ao esconder lesões, ao eufemizar a barbárie. Tudo que falam é uma adaptação do cadáver à fraude da repressão política. É nessas circunstâncias que cresce o valor do depoimento da advogada, que testemunhou e preencheu as lacunas, o vácuo dos laudos tanatoscópicos:

‘Soledad estava com os olhos muito abertos, com expressão muito grande de terror. A boca estava entreaberta e o que mais me impressionou foi o sangue coagulado em grande quantidade. Eu tenho a impressão que ela foi morta e ficou algum tempo deitada e a trouxeram, e o sangue quando coagulou ficou preso nas pernas, porque era uma quantidade grande. E o feto estava lá nos pés dela, não posso saber como foi parar ali, ou se foi ali mesmo no necrotério que ele caiu, que ele nasceu, naquele horror’.

Leia também: Uma condenação da tortura e morte na ditadura

Fonte: Portal VERMELHO

59 anos depois, narrativa do Golpe de 64 segue em disputa - por André Cintra

 

Enterro do estudante Edson Luis, assassinado pelos militares. Foto: Arquivo Nacional/Correio da manhã.


39% dos brasileiros dizem não confiar nos militares, conforme pesquisa divulgada em fevereiro.

O Largo General Osório, na região da Santa Ifigênia, no Centro de São Paulo, abrigou um dos principais órgãos da repressão na ditadura militar brasileira (1964-1985). Ali funcionou o temido Deops-SP (Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo), ou apenas Dops, palco de prisões, torturas e assassinatos à margem da lei.

Seu chefe mais conhecido foi Sérgio Paranhos Fleury, delegado da Polícia Civil e torturador profissional. As execuções de Carlos Marighella e Carlos Lamarca, bem como a Chacina da Lapa – que provocou a morte de três dirigentes nacionais do PCdoB –, contaram com sua participação. Em 1º de maio de 1979, Fleury morreu afogado no mar de Ilhabela, após cair de uma lancha.

Quem visita hoje o número 66 do Largo General Osório não encontra mais uma instituição militar ou policial – mas, sim, o Memorial da Resistência. A história do que ocorreu em seus porões é contada agora pelo ponto de vista das vítimas, não dos algozes – o que garante um raro e pujante exemplo de ressignificação histórica, em favor da democracia.

O Forte de Copacabana, instalado na ponta de uma das praias mais famosas do mundo, na zona sul do Rio de Janeiro, não teve sorte igual. Foi lá que, em julho de 1922, a Revolta dos 18 do Forte desnudou de vez as contradições da República Velha e viu emergir o movimento tenentista.

Num ano já marcado pela Semana de Arte Moderna (em fevereiro) e pela fundação do Partido Comunista do Brasil (em março), a insurreição dos tenentes cariocas comprovava a crescente inquietação no País. Novas revoltas tenentistas sobrevieram, incluindo a épica Coluna Prestes. A agitação culminou na Revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, com o apoio dos tenentistas.

Mas quem vai hoje ao Forte de Copacabana, a despeito da vista e do ambiente agradáveis, precisa ter coragem. O Museu Histórico do Exército, construído em suas dependências, espalha relatos laudatórios – e algumas mentiras – sobre o Exército brasileiro.

Dois episódios sobressaem na narrativa militar: a Guerra do Paraguai e o Golpe de 64. Em primeiro lugar, a caserna não usa tais nomenclaturas. O maior conflito armado na América do Sul é chamado internamente de Guerra da Tríplice Aliança, enquanto o golpe de Estado que derrubou o presidente João Goulart não passa de um “movimento revolucionário” ou simplesmente “revolução”.

No caso da guerra, tudo teria começado devido à tirania do presidente paraguaio, o marechal-ditador Francisco Solano López, que ousara invadir o Mato Grosso. Pouco se fala sobre os antecedentes desse suposto estopim, como a manobra golpista que, com o apoio do Brasil, defenestrou Bernardo Prudencio Berro (aliado de Lopez) da presidência do Uruguai. O fato de o Paraguai ser, à época, um “emergente” econômico sem saída para o mar sequer é citado.

Tampouco se mencionam os crimes de guerra cometidos pelo Exército brasileiro contra o povo, em especial o genocídio sem precedentes na região. A Tríplice Aliança matou cerca de 280 mil paraguaios, muito notadamente os homens – a população masculina do Paraguai quase foi reduzida a pó. Havia localidades no país com 20 mulheres para cada homem.

Sobre o Golpe de 64, os guias do museu no Forte de Copacabana não se avexam de repetir ladainhas de 59 anos atrás, como a suposta ameaça comunista representada pelo governo João Goulart – a “república sindicalista de Jango”. Quem conhece o bê-á-bá do movimento comunista no Brasil sabe que o início dos anos 1960 foi um período de intensas divergências internas, tensões e cisões.

O museu frisa que a quartelada teve o apoio dos empresários, da mídia, do Congresso, do STF (Supremo Tribunal Federal), etc. Mas omite que, quando esse apoio se esvaiu, as Forças Armadas ignoraram a opinião pública e apelaram a atos institucionais, censura, cassações, fechamento do Congresso, intervenções no Judiciário, prisões, mortes, etc., etc., etc.

Cinquenta e nove anos depois, a narrativa do Golpe de 64 segue em disputa. O legado da ditadura é criminoso, e não heroico. É um legado de medo e terror que a cúpula das Três Forças teima vergonhosamente em negar, destruindo e ocultando documentos, falseando a História e protegendo torturadores. Os quatro anos de governo Jair Bolsonaro (PL) representaram uma espécie de recaída moral de parte dos militares, que passaram a celebrar o Golpe de 1964 não como protocolo – mas como uma inspiração.

As ameaças autoritárias de Bolsonaro, a ocupação dos quarteis e de rodovias por bolsonaristas extremados, o golpe frustrado de 8 de janeiro – nada disso teria ocorrido sem a complacência desses setores das Forças Armadas. A população – que tinha uma visão indulgente dos militares – agora se divide: 39% dos brasileiros dizem não confiar neles, conforme pesquisa AtlasIntel divulgada em 1º de fevereiro passado.

Daí a sensatez do comandante do Exército, Tomás Paiva, que ameaçou de punição todo e qualquer militar da ativa que comemorasse nesta sexta-feira (31) a passagem dos 50 anos do Golpe de 64. Daí o acerto do governo Lula em recriar a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, que foi esvaziada e depois extinta por Bolsonaro. A ditadura acabou formalmente há 38 anos, mas sua memória segue viva e assustadora, dentro e fora das Forças Armadas.

Fonte: Portal VERMELHO

O caráter dos que lutaram contra a ditadura - por Urariano Mota


A ministra do Esporte, Ana Moser, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante apresentação da Taça da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2023. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou, nesta quinta-feira (30), em Brasília, que o governo federal está à disposição da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para somar esforços pela candidatura do Brasil à sede da Copa do Mundo feminina de futebol, em 2027.

A declaração foi dada durante evento no Palácio da Alvorada, para apresentação da taça da Copa do Mundo 2023, a ser realizada na Austrália e na Nova Zelândia. O troféu está percorrendo os 32 países que vão disputar o torneio, entre 20 de julho e 20 de agosto. A seleção feminina do Brasil busca um título inédito.  

“O governo, através da Presidência, através do Ministério do Esporte e através do Itamaraty, estará à disposição da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para fazer o necessário para que a gente consiga trazer, em 2027, a Copa do Mundo Feminina para o Brasil”, afirmou Lula.

“Será um evento motivador da construção de uma consciência política junto ao povo brasileiro, para que entenda a participação da mulher efetivamente em todos os cantos que ela puder participar, onde quiser, do jeito que quiser”, acrescentou.

Lula também destacou as condições de infraestrutura que o país dispõe atualmente, melhores do que as de 2014, quando o país sediou a Copa do Mundo masculina. “Agora, você tem quase tudo pronto. Tem uma obra de infraestrutura urbana melhor do que a gente tinha em 2014. Tem estádios muito bons”.  

Estratégia Nacional

Durante o evento, Lula também assinou o decreto que cria a Estratégia Nacional para o desenvolvimento do futebol feminino no país. O programa, sob responsabilidade do Ministério do Esporte, prevê medidas de promoção do desenvolvimento do futebol profissional e amador no país, ampliação dos investimentos e formação técnica para meninas e mulheres no mercado da bola. 

“A estratégia é uma iniciativa transversal, que aborda princípios da agenda social deste governo: a equidade de gênero, o combate ao racismo e a redução das desigualdades. Essa abrangente agenda encontra no esporte, e em particular neste Ministério do Esporte, uma ferramenta importante. No caso do futebol feminino, a gente conta sempre com a parceria da CBF e das federações estaduais”, afirmou a ministra do Esporte, Ana Moser.

Entre as ações, o programa pretende fomentar a participação das mulheres em posições de gestão, na arbitragem e na direção técnica de equipes, além da instalação de centros de treinamento específico para as mulheres, com metodologias próprias e diretrizes pedagógicas adaptadas às necessidades femininas. O decreto determina que, em 120 dias, seja elaborado um diagnóstico da situação atual do futebol feminino no país e um plano de ações até 2025 para a implantação da estratégia.

“O futebol feminino em si traz um histórico de muitas dificuldades, de preconceitos, invisibilidade, que impõe barreiras que persistem em afastar as mulheres da prática do esporte, seja por lazer e mesmo em âmbito profissional”, observou a ministra. 

A Estratégia Nacional inclui ainda, segundo ela explicou, a “promoção de uma cultura competitiva sadia, evolução da consciência, autoestima e integração social” das mulheres. Também pretende desenvolver mecanismos efetivos de “desmobilização de comportamentos intolerantes e violentos contra meninas e mulheres nos estádios de futebol ou fora deles”. 

“A CBF está muito feliz com projetos que possam estar cada vez mais inserindo a mulher no esporte, principalmente no futebol, e sempre vai ser parceira, procurando se alinhar para aquilo que possa fortalecer o futebol feminino, não só para as atletas, mas para toda cadeia do futebol feminino”, afirmou o presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues.

Edição: Kleber Sampaio

Portal VERMELHO


Caso das joias: Bolsonaro vai depor na Polícia Federal em 5 de abril - Por ANDRÉ CINTRA

Foto reprodução

A Polícia Federal (PF) investiga se Jair Bolsonaro (PL) cometeu crime de peculato ao se apropriar ilegalmente das joias doadas ao governo brasileiro. Se for condenado, o ex-presidente pode pegar de dois a 12 anos de prisão, além de ter de pagar multa.

O peculato ocorre quando um funcionário público está encarregado de administrar um bem (dinheiro público ou objeto móvel apreciável), mas o subtrai ou desvia, mediante abuso de confiança, para proveito próprio ou alheio. No caso de Bolsonaro, as joias – que foram oferecido - as por autoridades da Arábia Saudita – não foram declaradas formalmente, a exemplo de outros presentes de luxo.

Segundo o Blog da Andreia Sadi (G1), a PF “deve ouvir Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid (ex-ajudante de ordens da Presidência), o ex-chefe da Receita Julio Cesar Vieira Gomes e outras sete pessoas ao mesmo tempo – em salas separadas –, no inquérito que investiga o caso. O depoimento foi marcado para 5 de abril, às 14h30”.

No final de 2022, pouco antes de encerrar o mandato no Planalto,  Bolsonaro ordenou sua equipe a tentar liberar um kit de joias avaliado em R$ 16,5 milhões. O conjunto foi apreendido pela Receita Federal em 2029, após o desembarque da comitiva brasileira que fora à Arábia Saudita. Bolsonaro também se apropriou de um relógio da Chopard e outro Rolex que não foram declarados.

Fonte: Portal VERMELHO