ELEIÇÕES 2022: MOVIMENTO 65

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terça-feira, 18 de julho de 2017

As trapaças jurídicas que impediriam o Lula-2018

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Um Tribunal crescentemente encantado com o Moro...
Leandro Paulsen (E), Victor Luiz dos Santos Laus (C) e João Pedro Gebran Neto (D): ofertarão ao Moro o que a Globo já lhe concedeu ?
Como se sabe, o Lula virou o Imparcial Moro de Curitiba pelo avesso e usou a condenação política para se lançar candidato em 2018.

A Casa Branca, a Casa Grande e seus devotados colonistas (o Ataulpho Merval já não parece assim tão confiante) se dedicarão, agora, a montar as arapucas em que a vitoriosa candidatura de 2018 possa afundar.

Diante dessas ameaças, o ansioso blogueiro consultou o nunca assaz louvado Oráculo de Delfos, hoje localizado em Maringá, onde contempla a biografia do pai do Moro e dos Barros.
- Caríssimo Oráculo, qual a primeira arapuca que podem montar para o Lula 2018?
- O presidente do Tribunal Regional, o TRF-4, que vai julgar o Moro e o Lula deu declaraçõesinequívocas de que pretende apressar o julgamento, o que, em teoria (em teoria!!!) significa impedir a candidatura do Lula. O Presidente disse ao jornal nacional e à Fel-lha vai julgar (o Moro) com tempo suficiente para impedir a eleição do Lula.

- Mas, Oráculo, ele pode fazer isso?
- Muito estranho, ansioso blogueiro. Sua Excelência não conhece ainda o recurso dos advogados do Lula. Não pôde ler o que dizem os advogados do Lula. Além disso, Sua Excelência não pauta o julgamento. E nem julga!

- Estranho!
- Muito, ansioso blogueiro. Muito!

- Mas, que outro precipício se pode colocar à frente da vitoriosa candidatura?
- O TRF-4 tem três desembargadores. Pelo andar da carruagem – e não foi esse TRF-4 que disse que a Lava Jato é um fato novo e portanto exige um Direito novo?

- Sim, eles disseram isso, de forma dallagnóica!
- Sim e, portanto, disseram que o Moro pode tudo!

- Sim, Oráculo, mas esse poder ilimitado já a Globo lhe tinha concedido…
- De volta à arapuca, quer dizer, ao obstáculo. Digamos que se estabeleça na cabeça desses três jovens e brilhantes desembargadores o consenso, o entendimento uniforme de que é preciso impedir o Lula de ser candidato. O Brasil exige! Reclama!

- E, aí, se os três decidirem que o Lula não pode ser candidato?
- Se for decisão unanime, os advogados de Lula não podem recorrer mais! Caput.

- Que perigo!
- Perigo pra quem, cara pálida? Para a Justiça vigente será um ato de redenção, a travessia do Mar Vermelho!

- É verdade, Oráculo. Como se os Três Reis Magos levassem incenso, mirra e ouro ao berço de Curitiba…
- De Maringá…

- Tanto faz, Oráculo...
- Veja bem que aí no TRF-4 um dos mais brilhantes desembargadores é justamente o Dr. Gebran. Em muitas decisões referentes ao Dr. Moro, o Dr. Gebran confirmou o que já disse, em recente passado: que a cada dia desenvolve crescente amizade pelo Dr Moro

- Amigo do Imparcial de Curitiba!
- Imparcialíssimo!

- Mas, são amigos, Moro e Gebran?
-É o que se entende da declaração inequívoca do Dr. Gebran.

- Mas ele não pode se considerar suspeito para julgar o crescente amigo?
- Isso é tão provável quanto o Ministro Gilmar se considerar suspeito para julgar o Aécio Neves.

- O Mineirinho
- Esse mesmo.

- Quer dizer que se for uma condenação unânime no TRF-4 os advogados de Lula não podem entrar com embargos infringentes e tentar evitar uma condenação definitiva em segundo grau...
- Esquece. O Nelson Rodrigues dizia que a unanimidade é burra. No caso, para ser gentil, a unanimidade é uma infâmia!

- Que outra acusação de que o Lula é ladrão pode ser apressada para impedir a candidatura em 2018? A do sítio do filho do Jacó Bittar?
- Não, essa ainda nem começou. A mais próxima é a suposta sede do Instituto Lula que nunca foi do Instituto Lula.

- O Moro pode tratar disso a jato, para dar a segunda condenação?
- Muito pouco provável. Dificilmente daria tempo de impedir a candidatura do Lula – caso a primeira, do triplex, seja neutralizada.

- Mas, e se o TRF-4 não chegar a uma decisão unânime?
- Aí cabem embargos infringentes e, com isso, permitir o registro da candidatura.

- Mas, num tribunal acima do TRF-4 - que parece irreversivelmente encantado com o Dr. Moro - mais acima, não há esperança para a candidatura do Lula em 2018?
- Há. O Superior Tribunal de Justiça já decidiu que, para fins de cumprimento de pena, é preciso esperar até que se tenham exauridas todas as possibilidades da defesa.

- Isso é uma boa notícia para a candidatura Lula 2018!
- É e não é. Porque se o STJ assim julgar vai ser uma hecatombe. O Sistema Jurídico, apoiado no jornal nacional, será capaz de incendiar o Oceano Atlântico!

Pano rápido!
Em tempo: respeitada revista alemã concorda: Moro não tem provas contra Lula
PHA
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Moro admite que inventou acusação e forçou a barra para julgar Lula, diz defesa

Foto: Paulo Pinto/Agência PT
Jornal GGN - A defesa de Lula superou o teor hermético da sentença de Sergio Moro sobre o caso triplex e expôs, com base nas palavras do juiz, os abusos cometidos no processo. Nesta terça (18), em nota à imprensa, a defesa apontou que Moro praticamente admitiu que forçou a barra para ser o juiz da causa, não usou a denúncia do Ministério Público Federal para julgar Lula, tendo criado uma acusação própria, e ainda evidenciou que a condenação foi baseada em uma delação informal não corroborada por provas documentais.
 
Em despacho feito pela manhã, Moro havia rebatido os embargos de declaração da defesa de Lula reforçando alguns pontos de sua sentença de maneira mais contundente. Por exemplo, afirmou que o ex-presidente foi condenado não porque seria o titular oculto do triplex - algo que a Lava Jato não pôde provar - mas sim porque o valor das obras feitas no apartamento teria sido "abatido" de um caixa virtual que Leo Pinheiro afirma ter mantido em nome do PT, onde chegou a acumular R$ 16 milhões.
 
O trecho expõe a fragilidade da sentença de Moro de duas formas: primeiro, ao destacar que houve alteração da denúncia original, que dizia que Lula "efetivamente" recebeu o triplex como pagamento de propina da OAS, fruto de 3 contratos da Petrobras; segundo, pela inexistência de provas nos autos do caixa com R$ 16 milhões ao PT, usado para condenar Lula.
 
"A falta de correlação entre a sentença e a acusação revela a nulidade da decisão, uma vez que o juiz decidiu algo diferente da versão apresentada pelo órgão acusador, sobre a qual o acusado se defendeu ao longo da ação", disparou a defesa de Lula.
 
"Não há na sentença proferida em 12/07 ou na decisão proferida nesta data qualquer prova desse afirmado abatimento, simplesmente porque ele não ocorreu, ao menos para beneficiar o ex-Presidente Lula", acrescentou.
 
Em outra passagem, Moro escreveu: “Este juízo jamais afirmou, na sentença ou em lugar algum, que os valores obtidos pela Construtora OAS nos contratos com a Petrobras foram usados para pagamento da vantagem indevida para o ex-Presidente."
 
Para a defesa de Lula, isso confirma que o processo jamais deveria ter tramitado na Vara Federal de Curitiba, já que não tem qualquer relação com a Petrobras segundo a narrativa apresentada pelos procuradores.
 
A defesa ainda rebateu a comparação que Moro fez entre Lula e Eduardo Cunha, taxando-a de "descabida e reveladora de falta de critérios objetivos." 
 
Para o advogado Cristiano Zanin, autor da nota, Moro "coloca-se acima da lei em relação à parte e aos seus defensores, que foram tratados sem a devida urbanidade em diversas
oportunidades pelo juiz, como está registrado nos áudios oficiais, nos áudios registrados pela defesa de forma lícita e ostensiva e também pela imprensa."
 
 
Abaixo, a nota completa da defea, assinada por Cristiano Zanin Martins.
 
1 - A defesa do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorrerá da
decisão que foi proferida hoje (18/07) pelo juízo da 13ª Vara Federal
Criminal de Curitiba no julgamento dos embargos de declaração
apresentados em 14/07 nos autos da Ação Penal n.
504651294.2016.4.04.7000/PR, da qual ainda aguarda ser intimada.
 
 2- Sem prejuízo disso, com base nas informações já disponíveis, a
defesa esclarece que:
 
 2.1 – Fica claro que o juízo de Curitiba forçou sua atuação no
caso, como sempre foi dito pela defesa, pois o processo, além de
veicular acusação absurda, jamais teve qualquer relação efetiva com
a Petrobras. O seguinte trecho da decisão não permite qualquer
dúvida: “Este juízo jamais afirmou, na sentença ou em lugar algum,
que os valores obtidos pela Construtora OAS nos contratos com a
Petrobras foram usados para pagamento da vantagem indevida para o
ex-Presidente”.  A decisão proferida hoje, portanto, confirma que o
processo jamais deveria ter tramitado perante o juízo da 13a. Vara
Federal Criminal de Curitiba, que não tem qualquer relação com a
narrativa apresentada pela acusação.
 
 2.2. O juiz deixa claro que criou uma acusação própria, diferente
daquela apresentada em 16/09/2016 pelo Ministério Público Federal.
Segundo o MPF, Lula teria “efetivamente recebido” o apartamento
tríplex, comprado com recursos provenientes de 3 contratos firmados
entre a Construtora OAS e a Petrobras. A decisão hoje proferida, no
entanto, afasta qualquer relação de recursos provenientes da Petrobras
e afirma que “a corrupção perfectibilizou-se com o abatimento do
preço  do apartamento e do custo da reforma da conta geral de propinas,
não sendo necessário para tanto a transferência da titularidade
formal do imóvel”.  A falta de correlação entre a sentença e a
acusação revela a nulidade da decisão, uma vez que o juiz decidiu
algo diferente da versão apresentada pelo órgão acusador, sobre a
qual o acusado se defendeu ao longo da ação.
 
 2.3. – Diante do questionamento da defesa, o juiz agora afirma que o
suposto ato de corrupção que motivou a condenação de Lula teria
ocorrido “com o abatimento do preço  do apartamento e do custo da
reforma da conta geral de propinas”. Não há na sentença proferida
em 12/07 ou na decisão proferida nesta data qualquer prova desse
afirmado abatimento, simplesmente porque ele não ocorreu, ao menos para
beneficiar o ex-Presidente Lula. O esclarecimento hoje prestado pelo
juiz deixa ainda mais evidente a ilegalidade da condenação de Lula,
que está 100% baseada no depoimento de Leo Pinheiro, que nessa
condição depôs sem o compromisso de dizer a verdade e, ainda,
pressionado pelas negociações com o MPF objetivando destravar um
acordo de delação com o objetivo de tirá-lo da prisão. Além de ser
réu na ação e candidato a delator, Leo Pinheiro está condenado a 23
anos de prisão apenas em uma ação penal, e sua palavra não merece
qualquer credibilidade, especialmente em tais circunstâncias.
 
 2.4. Leia-se e releia-se os autos e não há um documento, um
depoimento, além da palavra de Leo Pinheiro, que faça referência a
esse afirmado “abatimento do preço do apartamento e do custo da
reforma da conta geral de propinas”. Se a palavra de delator não é
confiável para motivar uma condenação, como diz a lei e foi
recentemente reafirmado pelo Tribunal Regional Federal da 4a. Região, o
que dizer da palavra de um corréu que depõe sem o compromisso de dizer
a verdade e quando negocia sua delação com o órgão acusador.
 
 2.5. Mesmo que fosse possível desconsiderar todos os elementos que
comprometem a isenção do depoimento de Leo Pinheiro e a ilegalidade da
sua utilização para basear uma sentença condenatória, a versão por
ele apresentada é incompatível com outros depoimentos coletados no
curso da ação. Por exemplo, Leo Pinheiro afirma que conversou sobre o
afirmado abatimento de valores com os Srs. João Vaccari Neto e Paulo
Okamotto, em 2009. O MPF não quis ouvir a versão de Vaccari, pois não
o arrolou como testemunha nem mesmo nas diligencias complementares (CPP,
art. 402). Okamotto, por seu turno, negou a conversa em 2009, assim como
outras supostas conversas narradas por Pinheiro, admitindo que apenas
conversou com ele em 2014. Sobre a utilização de recursos indevidos no
empreendimento Solaris ou, ainda, na reforma da unidade 164-A, o
depoimento de Pinheiro ainda é incompatível com diversos outros que
constam nos autos, inclusive com o do ex-presidente da OAS
Empreendimentos, proprietária do imóvel, o também correu Fabio
Yonamine.
 
 2.6. – A descabida comparação feita na decisão proferida hoje
entre a situação de ex-diretores da Petrobras que confessaram a
prática de atos ilícitos e o ex-Presidente Lula: (i) reforça a
intenção permanente do juiz Moro de agredir a honra e a imagem de Lula
e sua consequente – e inescondível – parcialidade; (ii) mostra que
o juiz Moro não sabe distinguir situações que são diferenciadas
pelos fatos: depois de uma devassa, nenhuma investigação identificou
qualquer conta de Lula com valores ilícitos, seja no Brasil ou no
exterior. Diante do teor da sentença e da decisão ora proferida, a
única referência à atuação da Petrobras na ação, que parece ter
agradado ao magistrado, foi quando um dos advogados da petroleira
pretendeu   interferir na nossa atuação profissional enquanto
advogados de Lula, fato que mereceu o repudio de diversos juristas e
defensores da advocacia independente e que não se curva ao arbítrio.
 
 2.7. Também se mostra descabida e reveladora de falta de critérios
objetivos a referência feita na decisão hoje proferida ao ex-deputado
Eduardo Cunha. A discussão sobre a titularidade de contas no exterior
não existe em relação a Lula, mostrando a impossibilidade de ser
estabelecido qualquer paralelo entre os casos.
 
 2.8 – O reconhecimento do juiz de que “jamais” afirmou que
“valores obtidos pela Construtora OAS nos contratos com a Petrobras
foram usados para pagamento da vantagem indevida para o
ex-Presidente”, mostra o desacerto de sua decisão que admitiu a
petrolífera como assistente de acusação no processo, com custos
diretos para os acionistas e, indiretos para os brasileiros, por se
tratar de sociedade de economia mista. Mostra, ainda, manifesto
equívoco ao condenar Lula a reparar “danos mínimos” ao reconhecer
que o ex-Presidente não foi beneficiado com valores provenientes dos 3
contratos envolvendo a petrolífera que estão indicados na denúncia.
 
 2.9 - Moro reforça sua animosidade para julgar Lula – situação
incompatível com a imparcialidade e com a igualmente necessária
aparência de imparcialidade – ao confirmar trechos da sentença (104
parágrafos) que revelam ter ele ficado profundamente afetado com o fato
de Lula haver se utilizado dos meios legais para questionar atos ilegais
praticados pelo magistrado e por outros membros da Lava Jato no curso da
ação, um deles reconhecido expressamente pelo STF no julgamento da
Reclamação 23.457. Coloca-se acima da lei em relação à parte e aos
seus defensores, que foram tratados sem a devida urbanidade em diversas
oportunidades pelo juiz, como está registrado nos áudios oficiais, nos
áudios registrados pela defesa de forma lícita e ostensiva e também
pela imprensa.
 
 Cristiano Zanin Martins

Réu no STF por incitação ao estupro, consulta pública do Senado sugere anistia a Bolsonaro


O deputado se tornou réu depois de declarar que não estupraria a deputada Maria do Rosário pois ela seria “muito feia”. Agora, uma ideia legislativa de anistia ao parlamentar recebeu tantos apoios que se tornou uma consulta pública no site do Senado e, dependendo do número de votos, pode virar matéria a ser analisada no Congresso. Saiba como votar.
Por Redação 
O portal e-Cidadania, atrelado ao site do Senado Federal, é uma ferramenta de aproximação entre a sociedade civil e os parlamentares. Através dela, é possível que cidadãos comuns deem ideias legislativas que, dependendo do número de apoios, podem se tornar consultas públicas. Essas consultas podem influenciar diretamente a decisão de deputados e senadores e é uma maneira de fazer pressão para que determinado assunto seja discutido ou mesmo votado pelos congressistas.
Uma sugestão legislativa que recebeu mais de 20 mil apoios e se tornou uma enquete de consulta pública no site do Senado é a que sugere anistia ao deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) pelo episódio, em 2014, em que afirmou que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ele a considera “muito feia”. A declaração fez com que Bolsonaro se tornasse réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por incitação ao estupro. Caso o STF julgue que, de fato, o parlamentar fez apologia ao crime, ele pode perder o seu mandato. Em março deste ano, o STF rejeitou o recurso da defesa e o manteve réu.
“A ação penal no STF contra o Excelentíssimo Jair Bolsonaro (caso Maria do Rosário) configura-se uma covardia institucional contra o Deputado. À uma, ele tem imunidade parlamentar civil e penal por palavras e opiniões. À duas, ele usou uma figura de linguagem, sendo um adepto da Lei e da Ordem”, diz o texto que justifica a consulta.
Até a publicação desta nota, a opção “não” a anistia à Bolsonaro estava vencendo, com 123.661 votos, contra 105.198 votos favoráveis à anistia. Caso a consulta pública seja fechado com uma maioria apoiando a anistia, a sugestão pode ir para análise da Comissão de Direitos Humanos do Senado e ser votada pelos parlamentares.
Para votar na consulta pública, clique aqui.
Fonte: Portal Vermelho

"O Brasil está à deriva, sem qualquer debate consistente"

 
Wilson Dias/ Agência Brasil


Atribuir o elevado desemprego no Brasil à legislação trabalhista é a mais recente falácia da turma que vendeu o impeachment de Dilma Rousseff como solução para a crise, afirma o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho. Uma das principais lideranças do PSB, ele defende a necessidade de o Estado voltar a induzir o desenvolvimento nacional.

“Não há nenhuma experiência no mundo de saída da crise sem investimentos públicos”, observa Coutinho, para quem é indispensável a união das esquerdas em 2018 para enfrentar a ofensiva neoliberal.

CartaCapital: O senhor se surpreendeu com a condenação de Lula a nove anos e seis meses de prisão?

Ricardo Coutinho: Não, acredito que o ex-presidente já havia sido condenado. Minha expectativa, frustrada, era a da apresentação de provas. Não se viu isso, mas sim uma convicção que, penso eu, não deveria existir dentro do Estado de Direito.

CC: O senhor participou da reinauguração popular das obras de transposição do Rio São Francisco ao lado de Lula e Dilma. Pretende dividir o palanque com o ex-presidente em 2018?

RC: A reinauguração popular foi um ato de justiça. O ex-presidente Lula pagou 16% da obra do São Francisco, a Dilma pagou 70%, ou seja, 86% dela estava paga até abril de 2016. Agora, pagaram-se mais 10%. Ao mesmo tempo, Lula teve um papel importante ao ter a coragem de fazer [a transposição] e desfazer acertos políticos seculares que existiam e existem ainda, principalmente dentro do Semiárido nordestino.

Como governador, participei do ato oficial da chegada das águas com Michel Temer, mas me ressenti da ausência do povo e também da dureza de alguns discursos que ignoravam a história. Essa obra começa com Lula e Dilma.

CC: E quanto a 2018?

RC: Sobre 2018, não dá para se expressar por um único caminho, alijando possíveis apoiadores nesse processo. A correlação de forças está muito desigual. Então, é preciso conduzir isso com cuidado. Digo isso com relação ao PT e ao PDT de Ciro Gomes. As esquerdas precisam convergir por uma questão de sobrevivência, inteligência e compromisso com este País.

O Brasil está à deriva, sem qualquer debate consistente. Infelizmente, a maior parte do Congresso está dedicada à aprovação de reformas para atender interesses econômicos. Ao mesmo tempo, vendeu-se para o povo a ideia de que o País voltaria a crescer com o impeachment de Dilma.

O desemprego diminuiria, a corrupção seria debelada. Isso era uma profunda ilusão, um jogo de retórica para se tomar o poder, derrubando as regras do jogo democrático. O Brasil afundou-se ainda mais na crise. O desemprego atinge 14 milhões de trabalhadores.

CC: Dos milhões de empregos perdidos de 2014 para cá, dois terços concentram-se no Nordeste. Por que a região tem sido mais impactada?

RC: O Nordeste foi a região que mais se desenvolveu nos últimos anos, palco de grandes projetos estruturantes, que só pararam agora, no atual governo. Durante os anos Lula, a “região-problema” passou a trazer soluções. Antes, no segundo mês da seca já havia invasões de feiras e supermercados pela população.

Agora, estamos na pior seca do século e não houve qualquer saque, pois se criou uma rede de proteção social. Criou-se, por exemplo, o Programa de Aquisição de Alimentos, que agora está morrendo, estrangulado pelo governo federal. Com a crise, a mudança de visão e de trato político, a região está sofrendo o impacto.

CC: Enquanto a Câmara analisa a denúncia contra Michel Temer, o Senado aprovou na terça-feira 11 a reforma trabalhista que altera profundamente a CLT. O senhor acha que era o momento adequado de puxar um debate de um tema tão sensível para a população?

RC: A imagem que tenho é a de um grupo de hienas diante de uma presa com certa fragilidade. Se Aproveita-se e retira-se tudo. É isso que está acontecendo. A falta de crescimento não se dá por causa da legislação trabalhista, isso é mais um engodo.

A economia continua a patinar, porque não há capital disponível, uma vez que o Estado se encolheu. Não há nenhuma experiência no mundo de saída da crise, de uma recessão, sem investimentos públicos.

CC: Que país que está sendo gestado por esse conjunto de iniciativas do governo Temer, que vão do congelamento dos gastos públicos por 20 anos às excludentes reformas trabalhista e da Previdência?

RC: Um país bem menor, menos competitivo, que não consegue se impor perante outros parceiros mundiais. Isso está sendo feito em função da grave omissão do Congresso. Também há essa confusão que paralisa o Brasil e faz com que as atenções da população estejam voltadas para um caso novelesco, ao mesmo tempo que se muda a legislação trabalhista.

A questão não era a retomada o crescimento. Na verdade, aproveitou-se de um momento de fragilidade, de falta de organização dos trabalhadores, para retirar direitos.

CC: Muitos parlamentares nordestinos, mesmo alguns que integram a base de Temer, votaram contra a reforma trabalhista. Por que esse tema é mais sensível para o Nordeste?

RC: Há 40 anos, a leitura política do Nordeste revelava oligarquias que controlavam os estados com profundo viés conservador. Isso foi mudando paulatinamente. O Nordeste, apesar de sua multiplicidade partidária e governamental, tem gerado uma cobrança maior sobre seus representantes. Engana-se quem diz que no Nordeste não se sabe votar. Pelo contrário, lá o voto é muito mais qualificado.

CC: O nordestino não tolera o representante que trai seus interesses?

RC: Ele tem tido mais capacidade de acompanhar. Isso é bom para a democracia. Acredito que isso ficará cada vez mais explícito. Com a transposição do São Francisco, houve no Semiárido o mais duro golpe contra o coronelismo e as oligarquias, pois a água sempre foi o principal instrumento de dominação. 


 Fonte: Carta Capital

Em depacho, Moro reforça contradições da condenação contra Lul



Ao analisar os embargos de declaração da defesa do ex-presidente - recurso que solicita ao juiz a revisão de pontos da sentença que não tenha sido bem fundamentados -, Moro negou que tenha havido "omissão, obscuridade ou contradição" em sua sentença. 

Ao responder os pontos elencados pela defesa, Moro tentou justificar, por exemplo, o uso de um papel com rasuras como prova e confessou que "a perícia técnica não tem como responder se houve ou não intenção fraudulenta nas rasuras". Ora, se a perícia não conseguiu identificar tal condição, o documento não poderia ser considerado elemento de prova.

No entanto, Moro diz que Lula deveria explicar o que a perícia não pode, invertendo o ônus da prova. "Ainda assim, remanesce sem explicação pela Defesa o motivo de tais rasuras, sendo elas mais um dos elementos probatórios que apontam que, desde o início, o intento era de adquirir o apartamento tríplex e não uma unidade simples".

Essa foi uma das perícias apresentadas pelo juiz e que a Globo de demais veículos da grande mídia insistem em dizer que se trata de um "vasto conjunto de provas".

Discurso político

O ex-presidente Lula, em entrevista nesta terça-feira (18), afirmou que a sentença de Moro “foi um julgamento político”. De fato, o juiz segue reforçando essa tese ao dizer no despacho publicado nesta terça que os argumento do ex-presidente Lula se assemelham ao do deputado federal cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que negava ser titular das contas secretas na Suíça.

"Ele [Cunha] também afirmava como álibi que não era o titular das contas no exterior que haviam recebido depósitos de vantagem indevida, mas somente 'usufrutuário em vida'. Em casos de lavagem, o que importa é a realidade dos fatos segundo as provas e não a mera aparência", disse ele.

Com esse discurso, Moro tenta desqualificar a defesa e esconder as provas apresentadas pelo ex-presidente. Diferentemente de Cunha, que era titular de uma conta na Suíça e se beneficiou com os dinheiro nela depositado, Lula nunca teve a posse do tríplex, nem se beneficiou desse bem. 

Visitar o imóvel, dizer que o imóvel precisava de reformas, vontade de adquiri-lo ou reservar o bem para futura aquisição não transfere a propriedade.

Defesa rebate

Em nota, o advogado do ex-presidente, Cristiano Zanin, afirmou que o despacho deixa claro que Moro criou uma acusação própria, diferente daquela apresentada pelo Ministério Público Federal, em setembro do ano passado, com o fatídico powerpoint. 

Segundo o MPF, Lula teria “efetivamente recebido” o apartamento tríplex, comprado com recursos provenientes de 3 contratos firmados entre a Construtora OAS e a Petrobras, acusando Lula de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

No entanto, o juiz Moro contradiz o próprio MPF e diz no despacho que negou o pedido da defesa de fazer uma perícia para rastrear a origem dos recursos para a compra e a reforma do apartamento, afirmando que "não havia correlação".

"Nem a corrupção nem a lavagem exigem ou exigiriam que os valores pagos ou ocultados fossem originários especificamente dos contratos da Petrobras", disse. Mas o MPF não conseguiu provar que os valores tenham sido pagos, repassados e muito menos ocultados.

Jurista comenta

“Como caracterizar lavagem de dinheiro sem dinheiro?”, questiona o penalista Afrânio Silva Jardim, professor de Direito Processual Penal da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), ex-membro do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e um dos mais respeitados criminalistas do país, que analisou a sentença proferida por Moro. “O réu Lula não recebeu “propina” e com ela comprou o imóvel, colocando-o, dissimuladamente, em nome de terceiro”, frisou ele, evidenciando a contradição da sentença.

E reafirma: “Não há nenhuma prova de que o ex-presidente Lula tenha sido autor, coautor ou partícipe dos contratos lesivos à Petrobrás ou das ilicitudes realizadas nas respectivas concorrências”, completou o professor Afrânio.

A defesa de Lula também rebateu: “A decisão hoje proferida, no entanto, afasta qualquer relação de recursos provenientes da Petrobras e afirma que “a corrupção perfectibilizou-se com o abatimento do preço do apartamento e do custo da reforma da conta geral de propinas, não sendo necessário para tanto a transferência da titularidade formal do imóvel”. A falta de correlação entre a sentença e a acusação revela a nulidade da decisão, uma vez que o juiz decidiu algo diferente da versão apresentada pelo órgão acusador, sobre a qual o acusado se defendeu ao longo da ação”, argumentou a defesa de Lula.

Provas que não provam

Apesar de negar perícias solicitadas pela defesa e ignorar a mais de 70 testemunhas, Moro disse que não desconsiderou os depoimentos ao decidir pela condenação. "Ora, o juízo fez ampla análise das provas do processo, inclusive dos depoimentos dos acusados e das testemunhas. Mas somente há um conjunto deles que é consistente com a prova documental e que confirmam a acusação". Ou seja, ele usou as provas que não provam nada, para provar as convicções do MPF.

Dentre as provas citados por moro está reportagens do jornal O Globo, em 2010, com a informação de que o apartamento no Guarujá pertenceria à família do ex-presidente. Significa dizer que as provas documentais de que Lula não era proprietário do imóvel nem as testemunhas de defesa conseguiram convencer Moro de que Lula não era proprietário do tríplex. Mas a matéria do O Globo sim. 

Aliás, todas as vezes que a Globo trata sobre a condenação de Lula, os apresentadores engatam o discurso que parece mais uma propaganda: "Moro condenou Lula com um vasto conjunto de provas". Mas o falatório de marketing pró-Moro ignora as lacunas da sentença e a fragilidade dos documentos e tenta legitimar a arbitrariedade da condenação.

Assim como fez na sentença, Moro voltou a atacar a defesa do ex-presidente se colocando como vítima, usando termos como "táticas bastante questionáveis", "de intimidação" ou "diversionismo".

Ele disse que "sim, a Defesa pode ser combativa", mas “deve igualmente manter a urbanidade no tratamento com as demais partes e com o julgador”. 


Do Portal Vermelho

sexta-feira, 14 de julho de 2017

RETROSPECTIVA/REFLEXÃO: Bye, bye, Brasil

Elites se dissociam do destino nacional e consideram Temer de bom tamanho para cuidar da única república que lhes interessa: a taxa real de juro.
por: Saul Leblon


A elite se entediou do Brasil.
 
Economistas de bancos, gente bem sucedida de berço, executivos prestigiados estão se desfazendo de ativos e participações no país e rumam para temporadas sabáticas no exterior.
 
O comboio classe A reedita no ‘formato pessoa física’ o percurso que o patrimônio, o chamado dinheiro grosso, sempre fez e continua a fazer.
 
A explicação para o enfado é a resiliência dos impasses que o golpe tarda a resolver.
 
Nada contra o golpe, a nonchalance é ... com o Brasil.
 
O país secularmente marcado por crises recorrentes, desta vez não parece reunir tônus para superar seus gargalos.
 
Pelo menos não do ponto de vista descortinado do mirante dos que nunca sofreram na carne os efeitos dos reveses pátrios, embora sempre tenham se beneficiado dos ciclos de alta.
 
Persio Arida, o ex-menino prodígio do Plano Real, doutor pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), é um dos que afivela malas em direção ao embarque internacional.
 
Carrega na bagagem a tranquilidade financeira de quem presidiu o BNDES no governo do PSDB.
 
De lá migrou junto com a então esposa, Elena Landau (que dirigiu o plano de privatização tucano no mesmo banco) para o Opportunity, de Daniel Dantas. Ali, o casal de tucanos exerceria a republicana função de orientar o capital estrangeiro na compra de ações de estatais privatizáveis.
 
Arida está se desfazendo também da participação graúda no conselho do BTG-Pactual, o banco que presidiu quando o titular, André Esteves, foi preso por corrupção: compra de emendas no balcão de Eduardo Cunha.



Na juventude nos anos 70, o economista tucano, agora aos 65 anos, militou na resistência armada à ditadura como membro da VAR-Palmares, a mesma organização da ex-presidenta Dilma Rousseff, da qual diverge radicalmente hoje.
 
Definindo-se como um liberal completo, ele deixa para trás as pendências materiais produzidas por esse choque de ideias para um retiro em Oxford, na Inglaterra.
 
A partir de setembro ministrará workshops na Blavatnik School of Goverment aproveitando o tempo livre para escrever suas memórias.
 
Outro titã do Plano Real, André Lara Resende, já decolou há mais tempo.
 
Foi viver, pedalar, cavalgar e refletir sobre os impasses brasileiros longe do objeto em transe. Primeiro, como fellow scholar da Universidade de Oxford, na Inglaterra, para onde teria levado seus cavalos de corrida a bordo de aviões fretados; mais recentemente, como morador em Tribeca, nos EUA, e professor visitante da Columbia.
 
Sugestivamente, Lara Resende também recheou o currículo com uma passagem na presidência do BNDES, sob o governo tucano de FHC.
 
Em 1998 teve que deixar o cargo, ejetado pelo escândalo da privatização da telefonia brasileira.
 
Como se recorda, gravações envolvendo Fernando Henrique Cardoso e o então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, vieram à tona, então. Num deles, Lara Resende fala em ‘acionar a bomba atômica’(FHC) para obrigar um fundo ligado ao setor público a apoiar um consórcio privado interessado nas teles.
 
Os diálogos demonstraram que o BNDES e o governo como um todo teriam atingido o ‘limite da responsabilidade’ (frase de Mendonça) nas articulações com grupos de interesses no rateio de um negócio milionário.
 
Apesar das suspeitas de favorecimento e enriquecimento ilícito de tucanos graúdos e seus parentes miúdos, Lara Resende foi absolvido nas investigações.
 
O economista –que já fora sócio de Luiz Carlos Mendonça de Barros na criação do banco Matrix, em 1993, de sucesso meteórico na era tucana-- está no país para lançar seu terceiro livro.
 
 Intelectual respeitado como uma das mentes mais inquietas do conservadorismo, ele inverte a relação convencional que explica a anomalia do juro sideral praticado aqui como consequência e remédio da inflação alta.
 
A tese do tucano, que num primeiro momento assustou seus pares do mercado, é que ‘no Brasil o juro alto virou o indexador de preços do mercado’.
 
Mas calma, não é uma guinada esquerdista.
 
A aparente heterodoxia converge por linhas tortas ao velho ninho seminal da narrativa conservadora.
 
A origem do juro alto --que indexaria a inflação-- é o déficit público.
 
‘O país é viciado no Estado’, diz o quadro tucano mais admirado por FHC.
 
 ‘O país gasta mais do que arrecada’, reiterou em entrevista tranquilizadora para os centuriões competitivos das mesas de operação.
 
A verdadeira inversão causal que seria dizer ‘o país arrecada menos do que gasta’ nunca esteve nas cogitações de Lara Resende.
 
Respiram aliviados os endinheirados que, segundo Estudos do Senado brasileiro, auferiram em 2016 cerca de R$ 334 bilhões em lucros e dividendos livres de qualquer tributação (leia nesta página: http://www.cartamaior.com.br/?/Editorial/Rua-voto-e-politizacao-do-desenvolvimento/38252)
 
A lógica intocada está na origem de uma crise avaliada por outro bico longo, José Serra –um dos responsáveis por ela-- como ‘pior que a de 1964’.
 
Desta vez, no entanto, não são os perseguidos políticos que buscam os saguões do embarque internacional.
 
O movimento, na verdade, tornou-se perceptível porque atingiu, ademais de pavões e tucanos ilustres, justamente círculos bem postos da classe média alta, sem falar dos seus filhos, em eterna jeunesse dourée.
 
Fartos ou indiferentes eles se despedem de uma nação posta de joelhos, para retiros mais acolhedores, ainda que com menor grau acadêmico.
 
Miami e Lisboa lideram as preferencias aqui, sendo a capital portuguesa listada nas apreciações conservadoras, paradoxalmente, pelo bom momento econômico, social e cultural propiciado por políticas heterodoxas. Obra da coalizão de esquerda que, sugestivamente, assumiu o poder português depois do fracasso de um governo austericida.
 
Dados da Receita Federal contabilizam 20.469 Declarações de Saída Definitiva do país só em 2016.
 
O salto é graúdo se comparado às estatísticas do início da década: 8.510 saídas definitivas em 2011, por exemplo.
 
Mais que a escala, importa ressaltar aquia qualidade da resposta conservadora a um desmanche que ajudou a semear com afinco, mas de cuja colheita agora prefere manter-se à distância.
 
São tempos interessantes.
 
Na letra miúda do descaso elitista com a sorte da nação define-se, por contraposição, o verdadeiro lastro à pertinência da ideia de Estado, democracia e desenvolvimento em nosso tempo.
 
Quem de fato sustenta essa sobrevivência porque dela necessita como a corrente sanguínea precisa dos músculos cardíacos para não coagular é o povo brasileiro.
 
A maciça, esférica maioria de homens, mulheres, idosos, jovens e crianças do país não pode prescindir desses ‘anacronismos’, no dizer neoliberal, sob pena de se tornarem eles próprios anacrônicos na fila cada vez mais estreita e seletiva do ingresso ao estado das artes da civilização.
 
A indiferença dos de cima complica sobremaneira o acesso dos que dependem da construção uma república de todos nestes 8,5 milhões de kms2 de segregação e riquezas desigualmente auferidas.
 
Se vivo, o coronel Pedro Nunes Tamarindo, protagonista da Guerra dos Canudos (1896-1897), perfilaria ao lado dos Aridas e Resendes que se escafedem, a bradar o famoso bordão: ‘É tempo de murici, que cada um cuide de si’.
 
A evocação à debandada corresponde ao empoçamento do futuro para a grande Canudos cuja sorte está atada à superação progressista dos gargalos do desenvolvimento brasileiro.
 
Da servidão rentista do século XXI ela não se livrará pela lógica de mercado.
 
Pelo menos é o que se pode depreender da estratégia que gestores de fortunas reservam ao pecúlio sob a sua guarda.
 
Luis Stuhlberger, dirigente e estrategista do fundo Verde é um caso ilustrativo de exílio financeiro dentro do próprio país.
 
Ele tem a guarda de algo como R$ 20 bilhões em espécie de ricaços e empresas.
 
Mas não se dispõe a correr nenhum risco com investimentos de longo prazo, desses que o país necessita desesperadamente para sair do pântano recessivo.
 
Sua escolha alinha-se a lógica dos que batem asas de costas para a encruzilhada nacional, reduzindo os laços à frequência e intensidade do hotmoney de estadia curta.
 
 ‘A única coisa que tem no fundo hoje é uma posição grande --metade do fundo-- em NTN-B com ‘duration’ (prazo médio) curta. De Brasil é isso. Tenho CDI com NTN-B. Nem diria que é uma aposta (são papéis de autoproteção)’, explica o estrategista do ‘Verde’, um dos maiores fundos de ‘investimento’ do país.
 
O exílio do dinheiro grosso na dívida pública é um garrote vil.
 
Para garantir a remuneração da riqueza privada, que tem na dívida pública a sua contrapartida de miséria, o mercado, a mídia e a escória política fizeram uma sublevação e derrubaram uma Presidenta honesta.
 
Substituíram- na por um plantel de achacadores profissionais da política.
 
Agora, nem o Estado investe em infraestrutura, nem os gestores privados querem correr o risco, preferindo exortar as tarraxas do arrocho.
 
Câmbio favorável à exportação, previsibilidade fiscal, taxa de juro civilizada incluem-se entre os ingredientes da difícil calibragem macroeconômica de qualquer nação em luta pelo desenvolvimento.
 
Mas a verdade, a dura verdade, é que não bastam; sobretudo, não brotam jamais dos ‘impulsos’ do próprio sistema cantado pelos sacerdotes dos ‘mercados racionais’, como mostra o raciocínio dos gestores da riqueza na hora do aperto.
 
Enfim, a crise econômica atual não se explica nem se resolve nela mesma.
 
Atribuir a pasmaceira do país exclusivamente aos ‘erros da Dilma’ – ilusão ruminada inclusive por segmentos à esquerda; ou o cacoete daqueles que transpirando preconceito de classe acusam o ‘voluntarismo lulopopulista’ de responsável pelos gargalos estruturais de um dos sistemas econômicos mais injustos da face da terra, são miragens de quem se recusa a encarar o deserto a transpor e prefere retiros confortáveis enquanto a guerra civil se arma por aqui.
 
Os riscos decorrentes são enormes.
 
Num extremo encontram-se as saídas voluntaristas, de verbalização tão simples quanto falsa.
 
No outro, a ‘rendição dos sensatos’, esses que aparentando responsabilidade descartam irresponsavelmente qualquer alternativa ao armagedon recessivo exigido pelos mercados.
 
A colonização dos partidos de esquerda por essa lente embaçante de dupla película é uma das tragédias do nosso tempo.
 
'O ponto importante’, explica o pensador marxista István Mészàros, ‘é que eles (os mercados capitalistas) vêm praticando orgias financeiras como resultado de uma crise estrutural do sistema produtivo’.
 
Insista-se: a terra em transe resulta de um traço estrutural do sistema capitalista nos dias que correm.
 
Ou, na síntese iluminadora de Mészàros: ‘A acumulação de capital não pode mais funcionar adequadamente no âmbito da economia produtiva’.
 
Seu apetite só se satisfaz na voragem de uma dança financeira descolada da produção.
 
Essa que capturou o Estado brasileiro para ser a negação da alavanca permeável ao interesse popular na luta por desenvolvimento e justiça social.
 
Resulta daí o impasse protagonizado por endinheirados que nem investem, nem permitem a tributação da riqueza para que o Estado possa faze-lo.
 
Como formular e implantar uma política de desenvolvimento focada na construção de uma democracia social nesse ambiente de beligerância constitutiva?
 
Como fazê-lo contra um adversário capacitado a exercer, como de fato exerce pelas prerrogativas midiáticas e financeiras de que dispõe, seu poder de veto sobre as urnas, partidos, governos e o discernimento social?
 
O resultado dos desencontros é a crise.
 
Sobra capital especulativo no fundo Verde atado a títulos de ‘duration’ curta, de um lado.
 
De outro, a sociedade carece de infraestrutura, serviços, emprego e renda.
 
No arremate, a retração da atividade reduz ainda mais a margem de ação fiscal do governo.
 
Não por acaso, o golpe que veio corrigir a ‘gastança’ debate-se em sérias dificuldades para conter o déficit fiscal dentro da meta de R$ 139 bilhões, dependendo para isso de receitas extras que compensem a arrecadação aguada pela retração econômica.
 
Sem consertar o motor do desenvolvimento brasileiro o comboio não sairá do atoleiro.
 
Não se trata de uma falha mecânica, porém, mas de um desastre deliberado.
 
Decorridos 53 anos do golpe militar de 1964, quando tentou pela última vez modelar um país à sua imagem e semelhança, as elites se conformaram em fincar no endividamento público que tanto criticam seu porto seguro histórico.
 
 Essa escolha custa 7% do PIB ao ano.
 
Juros e rolagem pagos em detrimento de outras prioridades cuja postergação gera múltiplos desse custo, conduzindo a espiral do apartheid em curso nas vísceras da nação.
 
A tolerância conservadora com quase uma década de políticas progressistas esgotou o prazo de validade quando ficou claro que a crise de 2008 marcava o crepúsculo da ordem neoliberal no mundo.
 
 O comércio internacional cuja expansão feérica, duas vezes maior que a do PIB global, funcionou como força acomodatícia dos conflitos de classe secou seu poder lubrificante.
 
A consequente atrofia da receita fiscal deixou três opções ao passo seguinte do desenvolvimento brasileiro: I) endividamento público desestabilizador; II) reformas progressistas com taxação adicional da riqueza, ou III) um arrocho fiscal drástico.
 
‘O Brasil gasta mais do que arrecada’ tornou-se o bordão da opção que partiu para inviabilizar a ação do governo petista, declarando guerra aberta à Presidenta Dilma Rousseff já na metade final de seu primeiro governo.
 
 O estopim foi a decisão presidencial, em 2012, de contornar a saturação do gasto público impondo ao mercado financeiro uma queda expressiva do juro e do crédito, a partir dos bancos estatais.
 
A manchete garrafal do jornal O Globo do dia sete de maio de 2012 trazia como resposta uma declaração de guerra ao governo: ‘Bancos reagem a Dilma e não garantem crédito maior’.
 
Em pronunciamento em horário nobre seis dias antes, no 1º de Maio, a Presidenta criticara o que chamou de ‘lógica perversa’ do sistema financeiro.
 
Foi além: qualificou de ‘roubo’ as tarifas cobradas para administrar fundos de investimento e pediu queda urgente das taxas de juros.
 
Ato contínuo, o Banco do Brasil anunciaria o seu terceiro corte indutor nas linhas de empréstimo.
 
A resposta do sindicato dos banqueiros (a Febraban) desaguava na insolência: não garantiria a oferta de crédito pedida pelo governo para assegurar o crescimento econômico. E espicaçava: ‘Você pode levar um cavalo até a beira do rio, mas não conseguirá obrigá-lo a beber a água’.
 
Era a ordem unida à greve branca do capital, contra o projeto de desenvolvimento com cidadania para todos.
 
Uma parte da adesão ao lockout explica-se pela existência efetiva desequilíbrios macroeconômicos acumulados desde os anos 90.
 
Um exemplo: o câmbio valorizado.
 
Ademais de incentivar importações baratas, ele atrofiou a exportação, subtraiu demanda à indústria local, levou a uma integração desintegradora com as cadeias globais de suprimento e tecnologia.
 
Em vez de investir, fabricantes trocaram máquinas por guias de importação. E se tornaram sócios do endividamento público, aplicando sobras de capital em títulos, não em capacidade produtiva, empregos ou inovação.
 
As distorções explicam em parte os impasses da industrialização e do desenvolvimento nos dias que correm.
 
Mas não explicam tudo.
 
Quem vê no capitalismo apenas um sistema econômico, e não a dominação política intrínseca ao seu funcionamento derrapa no economicismo.
 
Ele subestima aspectos cruciais da encruzilhada atual.
 
Destravar um novo ciclo de investimento no país envolve –ademais da retificação de distorções desindustrializantes-- uma disputa para mudar o comando do sistema financeiro na economia.
 
Que se completa com uma nova relação fiscal do Estado com a riqueza da plutocracia.
 
Essa que aderiu à ciranda rentista e dela não abdicará espontaneamente, necessitando ser tangida por instrumentos fiscais e de controle da conta de capitais --para evitar fuga de recursos e queima de reservas.
 
O que se instalou com o golpe de agosto de 2016 foi o oposto disso.
 
Uma democracia garroteada, humilhada e tutelada, de um lado, por juízes e mídia partidarizada; de outro, por uma escória parlamentar a serviço do mercado, que transformou o Congresso em uma assembleia permanente contra o povo.
 
O arrocho contido na PEC do Teto, que congela em termos reais orçamentos de serviços públicos subfinanciados, como é o caso da saúde, ilustra essa deriva programada do futuro da sociedade.
 
O banqueiro Roberto Setúbal explicitou a dissociação elitista com as consequências dessa engrenagem ao declarar ao jornal Valor Econômico no último sábado (24/06): ‘O momento é difícil, complexo, bem atrapalhado. Mas a economia está funcionando; as políticas são corretas, mantendo mais ou menos as coisas bem equilibradas. Houvesse políticas confusas, o problema seria maior’.
 
Às favas o fato de o país rastejar no fundo do precipício com um governo composto de achacadores, abrigar uma bomba social de 14 milhões de desempregados, ter R$55 bilhões em obras públicas paralisadas e um presidente aprovado por apenas 7% da sociedade.
 
 Dá para levar, diz o dono do maior banco do país: ‘Houvesse políticas confusas, o problema seria maior’.
 
É tempo de murici, grita igualmente o sujeito oculto do golpe de 2016, o ex-presidente tucano, Fernando Henrique Cardoso.
 
Diante de um Brasil em ponto de desmanche, ele atualiza a teoria da dependência que defendeu como sociólogo nos anos 60 e personificou como presidente da República nos 90.
 
Agora, dando ao entreguismo uma dimensão salvacionista.
 
‘“O que puder privatizar, privatiza, porque não tem outro jeito. Essa não é minha formação cultural, mas não tem mais jeito, ou você realmente aumenta a dose de privatização, ou você vai ter de novo um assalto ao Estado pelos setores políticos e corporativos’, disse em declaração oportunista à imprensa dia 22/06.
 
É esse Brasil mantido em um formol de iniquidade, congelado fiscalmente pelo custo de uma dívida contraída junto a quem deveria ser taxado, decepado de ferramentas estatais indutoras do desenvolvimento que explica o descrédito popular na política e no futuro, emulado pela panaceia de um combate à corrupção cuja finalidade principal –que nem Moro disfarça mais-- consiste em excluir o nome de Lula da cédula de 2018.
 
Titãs do mercado financeiro, competitivos estrategistas de fundos e bancos são assertivos em dizer que o futuro vai demorar muito para visitar de novo os trópicos.
 
 A estagnação secular do mundo ricos, prevista por Larry Summers, ex-conselheiro econômico de Obama, como resultado de mudanças estruturais na economia e na sociedade coaguladas pela desordem neoliberal, chegou antes.
 
E durará tanto quanto seu cicerone político quiser um conservadorismo que se protege entre a dívida pública –em títulos de ‘duration’ curta-- e o aeroporto.
 
Deixa aos da terra o emprego instável, informal e mal remunerado, característico da recuperação atual na Europa e nos EUA –aqui replicada a ferro e fogo pela reforma trabalhista que pretende implodir a CLT.
 
O engessamento de um Estados endividado e sem espaço para promover investimentos contracíclicos é outro garrote, cuja cristalização local representa a própria razão de ser do golpe.
 
A existência de elevada capacidade ociosa na indústria mundial e chinesa desautoriza, ao mesmo tempo, expectativas de expansão pela alavanca das exportações.
 
Sobra o quê?
 
O saldo desse capitalismo deixado à própria sorte – livre mercado- é o ‘murchamento’ produtivo, coroado por desigualdade crescente, uma regressão ordinária do trabalho e a tensão social permanente, embebida em nitroglicerina de marcas variadas: ódio de classe, xenofobia, guerra de tráfico, racismo, intolerâncias de gênero e outras ressurgências nazistas.
 
Mas pode ser diferente.
 
O Brasil tem trunfos com escala e densidade suficientes para ocuparem o motor de um novo ciclo de expansão industrializante, em sintonia com a revolução 4.0 que combina biotecnologia, informatização e robótica.
 
A reciclagem de seu sistema agrícola em práticas e manejos agro-sustentáveis é um exemplo; outro, o potencial de inovação e de transição para uma matriz verde contido no desenvolvimento da cadeia do pre-sal.
 
 O requisito capaz de interligar esse potencial a um novo ciclo de desenvolvimento é a soberania na condução de suas possibilidades industrializantes.
 
 Sem isso o futuro se esfarela nas remessas imediatistas das grandes corporações
 
 Como está planejado para acontecer, graças ao projeto de liberação de terras aos estrangeiros, por exemplo; e do desmonte do modelo soberano de partilha do pre-sal.
 
 Retomar os espaços de soberania e planejamento democrático constitui, assim, o requisito de vida ou morte diante desse cerco.
 
Para retirar essa chance do reino das ideias é vital reconhecer que os ciclos históricos tem um começo e tem um fim.
 
Vivemos essa intersecção típica em que o novo ainda não emergiu e o velho já não tem o que propor ao futuro.
 
O golpe é a manifestação mórbida mais explícita dessa encruzilhada.
 
Sacrificar 90% da sociedade para gerar riqueza em benefício de 1% é o que os donos do dinheiro tem a oferecer ao século XXI brasileiro. Alguns o fazem da forma mais cínica acenando da escada do avião.
 
 Não há nada mais importante nesse momento do que organizar a capacitação do campo progressista para enfrentar a severidade dessa quadra histórica.
 
Ela requer o desassombro político para enxergar na debandada dos ‘entediados’ mais que um traço pitoreco da crise.
 
O auto-exílio financeiro aqui dentro mostra que é muito mais grave que isso.
 
Políticas de congelamento fiscal da nação em nitrogênio de arrocho por décadas informam a dimensão totalizante da revoada dos bacanas para remansos sabáticos no exterior.
 
Definitivamente, as elites abdicaram das responsabilidades e valores compartilhados que distinguem um ajuntamento demográfico de uma nação democrática e inclusiva.
 
Aquilo que nos devora, que nos faz girar em círculos até a prostração, é a hesitação diante da tarefa incontornável que essa abdicação cobra.
 
Em 12 anos de governos de centro esquerda foram dados passos efetivos na construção da nova fronteira de soberania por aqui: aquela calcada na justiça social e em alianças internacionais progressistas.
 
Descuidou-se, porém, do indispensável: a contrapartida da organização popular para sustentar e adicionar avanços a esse percurso.
 
O armagedon penetrou por essa fresta.
 
O Brasil só retomará seu desenvolvimento se esse erro for retificado sem hesitação, nem sectarismos, por uma frente democrática e popular que se proponha, claramente, a assumir a frente da nação e o comando do seu desenvolvimento.
 
Inclua-se nisso a disposição de negociar uma repactuação do desenvolvimento com todos os segmentos empresariais locais e estrangeiros; mas a partir dessa condição hegemônica organizada e programática.
 
Dotada dos instrumentos democráticos de Estado necessários ao exercício dessa hegemonia.
 
Portanto, não é obra que se possa atribuir a uma liderança ou a um partido isolado.
 
O Brasil necessita urgentemente viabilizar um novo braço coletivo.
 
Que seja maior do que a soma das partes, capaz de sacudir o torpor da esquerda, afrontar a soberba da direita, abrir espaço à organização popular e assim preencher o vácuo de futuro e esperança no qual a elite pretende asfixiar o destino de mais de 200 milhões de pessoas na oitava maior economia do planeta.
 
A travessia requer a força e o consentimento que só podem ser obtidos se a tendência à fragmentação for substituída pela construção urgente de um amplo palanque presidencial progressista.
 
Trata-se de reunir desde já todos os potenciais candidatos das forças democráticas, populares, socialistas, comunistas e nacionalistas.
 
Para fazer da campanha contra o golpe não o subtexto de uma gincana fratricida.
 
Mas a definição de uma nova referência de credibilidade histórica na vida da sociedade.
 
 Na qual a nação se reconheça.
 
Porque reúne projeto e densidade organizativa para conduzir a reconciliação de todos os segmentos sociais interessados no sonho irresistível que é desfrutar uma verdadeira democracia social em seu próprio lugar e em sua própria vida.

Carta Maior