ELEIÇÕES 2022: MOVIMENTO 65

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CAMPANHA MOVIMENTO 65

sexta-feira, 23 de março de 2018

Dia 27 de abril no IFRN de Parelhas-RN,

Dia 27 de abril no IFRN de Parelhas-RN, o Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN com apoio de lideranças sindicais, culturais e instituições educacionais realizará o seu V ENCONTRO ESTADUAL DE LIDERANÇAS CULTURAIS DO CPC/RN, com debates, apresentações culturais, informes, aprovação de propostas e muito mais. AGUARDEM!!!

domingo, 18 de março de 2018

Jandira Feghali: Luto e luta

Foto: Midia Ninja
Vereadora Marielle Franco, que fazia a denúncias das violações contra comunidades pobres, foi assassinada no dia 14 de março no Rio de Janeiro
Vereadora Marielle Franco, que fazia a denúncias das violações contra comunidades pobres, foi assassinada no dia 14 de março no Rio de Janeiro


A trágica execução da qual foram vítimas Marielle e Anderson se abateu sobre nós com uma intensidade que não imaginávamos suportar. Nos fez refletir e, ao mesmo tempo, elevar a revolta e o tom de nossas vozes. A onda de indignação e solidariedade que tomou conta das ruas e das redes, no Brasil e no exterior, nos trouxe mais certeza e gana de lutar. 

Um claro sinal de que a dor se transformará em luta, não só pela cobrança por justiça, mas pelo fim da violência, do assassinato de mulheres, das mulheres pretas, do racismo, da brutalidade, da discriminação, da impunidade aos crimes encomendados e das execuções políticas.

Carregamos conosco nossas histórias e nossas militâncias, ideias e pensamentos variados. O que une as milhares de pessoas que se manifestam desde a noite de quarta-feira é uma certeza: é preciso dar um basta a tanta violência, intolerância e ódio. Os olhares, as lágrimas, os abraços, os cartazes, silêncios alternados com cantos, gritos e discursos, tudo precedido de enorme perplexidade. 

Nenhuma vida é menos ou mais importante, pessoas foram mortas antes e logo depois de Marielle e Anderson. Naquele mesmo dia, nos dias que se seguiram, mais notícias de balas matando mais pretos e pobres nas favelas, como os que ela própria denunciou antes de ser executada. E por isso mesmo a força do simbolismo de sua morte gera tanta comoção e revolta. 

Marielle sintetizava essas opressões de classe, gênero e raça e teve a “ousadia” de ocupar espaço político. Ainda carregava mais algumas audácias. Era simples e generosa com as pessoas e assumia sua identidade LGBT. Ora, representava o povo que nunca saiu da mira do preconceito!

A situação é complexa e se agrava por estarmos em período de profunda restrição democrática. No Estado do Rio de Janeiro, em meio a uma intervenção federal militar, é preciso que se investigue com rigor de onde partiram os tiros e as responsabilidades!

Temos resistido aos retrocessos. É hora de uma tomada maior de consciência, união e maturidade na batalha! Não queremos mais derrotas, nem perdas. Não é momento de protagonismos ou disputas. 

Crime político não se responde individualmente, se responde coletivamente. Nossa força é coletiva! Os inimigos são covardes e frios. Tem dinheiro e mídia. Estejamos atentos para o uso politico deste momento pela direita, através de seus interlocutores e sua comunicação. Buscam uma inflexão, que legitime suas posições e ações.

Precisamos reagir à altura. Recuperar a democracia, combater a exclusão, a guerra aos pobres, o racismo, a violência contra as mulheres.

Nossos corações não serão um pote repleto de mágoa ou desesperança. Multiplicaremos a voz da preta e política de esquerda Marielle. Não deixaremos que suas lutas morram com ela. É preciso garantir uma cultura de paz. Que mais mulheres, mais pretas e pretos, falem por elas e eles mesmos nos espaços políticos.

Marielle, presente. 



Do Portal Vermelho

Fundação Mauricio Grabois rebate calúnias contra Arroyo e Amazonas

Reprodução
 
 


O equívoco de afirmações como essa é flagrado quando se confronta a versão com detalhes à vista de todos com algum conhecimento sobre o conflito no Araguaia.

Há uma vasta bibliografia que revela as circunstâncias em que João Amazonas e Ângelo Arroyo deixaram a região, como a obra Guerrilha do Araguaia: a esquerda em armas do professor Romualdo Pessoa Filho, da Universidade Federal de Goiás (UFG). Embora conhecendo-a, Gaspari prefere ignorar os fatos ali revelados.

Não faz sentido, pelo encadeamento do que se tem de registro sobre o episódio, dizer que Amazonas “fugiu” de um lugar sem o menor vestígio de presença militar para onde voltaria logo depois, agora um local conflagrado. Ele e Maurício Grabois, como principais dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), cumpriam tarefas regulares na cidade de São Paulo. Havia um sistema de revezamento, que circunstancialmente impossibilitou sua volta ao teatro da batalha.

Pelo sistema rotativo de cumprimento das atividades da direção do PCdoB em São Paulo, caberia a Maurício Grabois participar das comemorações do aniversário do Partido com a direção na capital paulista, em 25 de março de 1972. Mas, devido a um problema dentário de Amazonas, houve a troca e ele deixou a região, acompanhado de Elza Monnerat, no começo de março.

Após a reunião do Comitê Central, Elza Monnerat voltou ao Araguaia, com quatro militantes do PCdoB, e Amazonas foi providenciar o tratamento dentário. Ao entrar no Estado do Pará, o ônibus no qual estava Elza foi revistado por dois soldados e um dos militantes foi preso. Bem próximo à região da Guerrilha, ela avistou uma barreira do Exército. Havia outras no trajeto até Marabá, última parada antes da reintegração ao local da Guerrilha, mas os passageiros não foram incomodados. O Exército havia começado a luta contra a Guerrilha.

Elza Monnerat retornou por Anápolis, Goiás, onde por casualidade avistou Amazonas da rodoviária. Naquele mesmo dia, no final da tarde, ela conseguiu alertá-lo, com um sinal de negativo, sobre a ocupação da região por forças militares. Ambos, por caminhos diferentes, retornaram a São Paulo. Amazonas lamentou, mais de uma vez, a impossibilidade de voltar a se integrar à luta no Araguaia, indicando, como reconhecimento da bravura dos guerrilheiros e companheirismo aos seus camaradas, que as cinzas dos seus restos mortais fossem espargidas na região dos combates. 

O comando da Guerrilha fora desarticulado no curso da chamada “terceira campanha” da repressão, iniciada em 7 de outubro de 1973, a fase sinistra da guerra, na definição de um padre da região. A primeira providência foi criar um vazio em volta dos guerrilheiros, com ocupações, prisões e torturas. Quase toda a população masculina da região de atuação da Guerrilha foi presa. Casas, paióis e pontos comerciais foram destruídos.

Os militares montaram bases de operações no meio da mata, apoiadas por helicópteros e aviões, e instalaram um forte aparato de guerra. Em 14 de outubro de 1973, o comandante do destacamento A, André Grabois (filho de Maurício Grabois), e mais dois guerrilheiros morreram numa troca de tiros com agentes da repressão.

Na Comissão Militar, ao saber da morte do filho e dos demais companheiros, Maurício Grabois, sentado num tronco de árvore, começou a assobiar o Hino Nacional e todo o grupo se pôs a cantar — uma forma de homenagear os guerrilheiros mortos. Na reunião da Comissão Militar de meados de novembro, Ângelo Arroyo foi designado para o comando do destacamento A — com a previsão de que os três destacamentos seriam unificados na reunião seguinte, marcada para o dia 20 de dezembro.

Os destacamentos B e C, perseguidos pela repressão, juntaram-se à Comissão Militar, formando uma única força. Esse agrupamento dirigia-se para uma localidade conhecida como Palestina, onde o destacamento B havia deixado alguns depósitos, quando foi atacado pelos militares, e, temeroso de novas investidas, decidiu juntar-se ao destacamento A, que estava refugiado na mata.

Durante o longo e penoso percurso, a Comissão Militar enviou dois guerrilheiros para avisar Ângelo Arroyo que a reunião prevista para o dia 20 de dezembro seria adiada e deveria ocorrer onde estava o destacamento A, e pedir que ele providenciasse alguma comida. No final da manhã do dia 25 de dezembro, Ângelo Arroyo e mais cinco companheiros, com quatro latas de farinha, dirigiam-se ao local onde estavam acampados os demais guerrilheiros e a mais ou menos um quilômetro de distância ouviram um intenso tiroteio.

Uma patrulha comandada pelo major Curió (Sebastião Rodrigues de Moura) encontrou o grupo de guerrilheiros no final daquela manhã de Natal. No tiroteio contra a Comissão Militar, dos quinze que estavam no grupo dez sobreviveram. Os mortos foram Maurício Grabois, Gilberto Olímpio Maria, Líbero Giancarlo Castiglia, o “Joca” — que possivelmente foi preso ainda com vida —, Paulo Mendes Rodrigues e Guilherme Gomes Lund. Os demais se dispersaram pela mata para se protegerem do inimigo.

Gaspari dissemina informações históricas erradas ao dizer que Ângelo Arroyo é desertor. As condições de combates eram amplamente desfavoráveis aos guerrilheiros, infelizmente e os contatos se tornaram impossíveis pelo cerco que se fez na área do conflito e inexistia comunicações entre eles desde quando foram cercados às vésperas do natal de 1973. Arroyo ficou a vagar pela região do Destacamento A, sem nenhum contato com os demais guerrilheiros, naquele momento dispersos, quando surgiu a oportunidade de deixar o local, àquela altura cercado pelas forças da repressão.

As forças militares mobilizadas para o combate final eram gigantescas e foram ajudadas por aviões e helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira), lanchas da Marinha e equipes especializadas — como a Brigada de Paraquedistas, sediada no Rio de Janeiro, e o Comando de Operações na Selva. Os postos da Polícia Militar instalados nas rodovias da região funcionaram como apoios para as “investigações”.

O conceito de operações foi definido pela repressão como “guerra suja”, pelo qual não havia regras para as perseguições. Valia tudo. Moradores foram expulsos de suas casas, tiveram suas posses destruídas, foram presos e cruelmente torturados. Muitos foram executados. O efetivo mobilizado — de cerca de 20 mil homens — foi o maior movimento de tropas do Exército desde a mobilização da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para a Segunda Guerra Mundial.

As operações abrangeram um imenso território em volta da área de conflito e em alguns pontos foram lançadas bombas Napalm — uma espécie de reagente químico para provocar desfolhamento — na floresta. À estratégia da segunda campanha, formulada pelos generais Antônio Bandeira, Viana Moog e Hugo de Abreu, juntaram-se às colaborações do coronel do Exército português Hermes de Oliveira, veterano das guerras coloniais na África, e possíveis ajudas de militares norte-americanos. A determinação era clara: eliminar todos os guerrilheiros e não deixar vestígio. Sobreviver naquelas condições não pode ser definido como covardia, mas uma estratégia de sobrevivência.

Gaspari recorreu a essas invencionices num texto de contestação à fala despropositada do general Augusto Heleno, que numa palestra na Escola Superior de Guerra teria dito: "A Colômbia ficou 50 anos em guerra civil porque não fizeram o que fizemos no Araguaia." O que foi feito no Araguaia está na bibliografia do caso e na documentação da Comissão Nacional da Verdade. Há nessas fontes comprovações de que crimes bárbaros foram cometidos, como torturas e assassinatos covardes de prisioneiros, crueldade insana contra guerrilheiros e moradores da região e violações dos Acordos de Genebra e dos códigos internacionais que regem os direitos humanos.

*Augusto César Buonicore é diretor de Publicações da Fundação Maurício Grabois

**Osvaldo Bertolino é editor do Portal Grabois e pesquisador da Fundação Maurício Grabois



Fundação Mauricio Grabois

FSM: Assembleia de Mulheres homenageia Marielle e convoca resistência

Reprodução
Manuela D'Àvila fala durante a Assembleia Mundial das Mulheres
Manuela D'Àvila fala durante a Assembleia Mundial das Mulheres


A morte de Marielle, mulher, negra e lésbica, foi apontada como uma ilustração dos desafios enfrentados pelas mulheres no Brasil e no mundo, principalmente em relação à violência. Por outro lado, o crime contra a vereadora deverá intensificar a luta das mulheres, segundo Manuela D’Ávila, pré-candidata à presidência da República do PCdoB, que participou da assembleia.

“Nenhuma assembleia de mulheres foi tão importante quanto essa. Neste Fórum Social Mundial, construímos a melhor resposta que podemos dar àqueles que tentaram tirar Marielle da luta da mulher, do povo negro, das comunidades faveladas periféricas. A nossa resposta é de transformar as lágrimas em luta. E muita luta”, afirmou Manuela D’Ávila.

A secretária estadual de Mulheres do PCdoB, deputada federal Alice Portugal, também participou do encontro, e reforçou a necessidade de ampliar a luta pela igualdade, a partir do caso Marielle. “Essa Assembleia nos dá voz para garantir que a luta vale a pena, a luta das Marielles, que morrem na periferia das cidades. O sangue de Marielle fará brilhar a nossa luta. Por isso, mulheres de todo o mundo: rebelem-se contra toda opressão”, defendeu Alice.

A Assembleia também contou com as presenças de Liège Rocha, secretária nacional de Mulheres do PCdoB, Vanja Santos, presidenta da União Brasileira de Mulheres (UBM), e Julieta Palmeira, secretária de Mulheres do governo do Estado. Para Julieta, o nome de Marielle passa a representar o feminismo no país. “Sejamos todos Marielles, e sejamos todas feministas, porque é isso que vai fazer a gente superar essa situação em que a gente se encontra dentro do capitalismo. O patriarcado tem submetido as mulheres a uma situação que não dá mais para aguentar”.     
 
Vanja Santos, presidenta da União Brasileira de Mulheres (UBM), enfatizou que a luta em defesa da democracia precisa vir com força. “O momento é de retomada das ruas e do fortalecimento dos movimentos sociais, das lutas das mulheres que hoje mais do que nunca se colocam no centro da resistência no Brasil e no mundo”. A UBM foi uma das entidades articuladoras da Assembleia assim como dos pontos inegociáveis aprovados ao final da atividade. 

Golpe e misoginia 

Na ocasião, as lideranças comunistas criticaram o golpe contra o mandato da presidenta Dilma Rousseff, a primeira mulher a chegar à presidência da República, em 2016. “Um golpe antidemocrático, antinacional e misógino”, segundo Manuela D’Ávila. Alice Portugal ainda criticou o governo Temer, principalmente em relação às políticas paras as mulheres, e denunciou as violações à democracia.

“Esse regime de exceção instalado por Temer mata, reprime, retrai a democracia e oprime as mulheres. Essa edição do Fórum Social Mundial aqui na primeira capital do Brasil irá reverberar para o mundo que queremos a democracia de volta, queremos os direitos do povo de volta e queremos respeito, liberdade de opinião e os direitos das mulheres, das mulheres negras que estão no subsolo da pirâmide social”, disse a secretária de mulheres do PCdoB-BA.

Mulheres no poder

Manuela D’Ávila também defendeu a necessidade de ampliar a inserção das mulheres nos espaços de decisão, ainda subrepresentadas, como forma de garantir um compromisso real com a igualdade de gênero. “Nós só garantiremos os nossos direitos de mulheres, de negras, de lésbicas, se nós garantirmos países que nos coloquem na construção de seus rumos. A revolução será feminista”, concluiu Manuela, que também é deputada estadual no Rio Grande do Sul.

Agenda Internacionalista

A partir das discussões, a Assembleia Mundial de Mulheres do FSM aprovou um documento, com pontos ‘inegociáveis’ para a construção de uma agenda internacionalista da luta feminina. O documento foi dividido em dez eixos que podem ser lidos abaixo:

1 – Pelo pleno reconhecimento do trabalho produtivo e reprodutivo. Todas somos trabalhadoras, não importa se em casa ou no mercado ou na comunidade. Pela igualdade de oportunidades e igualdade salarial, contra o assédio sexual e moral no trabalho, pelo pleno reconhecimento do trabalho de cuidado remunerado, exigimos políticas públicas para garanti-lo.

2 – Pelo fim dos feminicídios, trans feminicídios e de todas as formas de violência, sejam sexuais, físicas, simbólicas, psicológicas, domésticas, trabalhistas, obstétricas, patrimoniais e epistémica praticadas no âmbito público, privado e no ativismo.

3 – Pelo nosso direito de decidir sobre nossos corpos, sentimentos e pensamentos, com autonomia sem interferências do Estado, dos fundamentalismos religiosos e do poder econômico.

4 – Por nossa emancipação real e substantiva e acesso ao poder político.

5 – Pelo fim da utilização de nossos corpos como uma arma de guerra, pelo fim da perseguição e assassinatos das defensoras de direitos humanos.

6 – Pelo nosso acesso e de todas as pessoas à educação universal, emancipadora, transformadora, libertária, não racista e não sexista.

7 – Contra o racismo, a xenofobia, o genocídio e o fim do encarceramento das pessoas negras, indígenas, migrantes e pobres.

8 – Pelo reconhecimento de nossa identidade e expressão de gênero auto percebidas. Pela plena garantia de nossos direitos, fim da discriminação e da violência por orientação sexual, identidade e expressão de gênero.

9 – Pelo desmantelamento da estrutura patriarcal dos meios de comunicação, pelo fim da mercantilização e hipersexualização de nossa imagem. Nossa invisibilidade nestes meios contribui para o silenciamento de nossas lutas.

10 – Pela justiça climática. Somos parte da natureza e não donas dela. Contra o capitalismo, o colonialismo e o imperialismo que nos exploram e exploram ao redor do planeta, cujas disputas pelo mercado e fontes geram guerras, destruição, violências e mortes que atentam contra nós. 


PCdoB-BA

quinta-feira, 15 de março de 2018

"Marielle é vítima da barbárie que dedicou a vida a combater"

 
 


“Todas as mortes têm o mesmo valor – a da Marielle a do Anderson e todas as outras que acontecem no país a cada ano. Mas, se a morte de uma pessoa com essa visibilidade ficar impune, o que poderemos esperar de tantas milhares de mortes de anônimos que acontecem no Estado do Rio a cada ano? Se essa morte não for esclarecida, a degradação da confiança no Estado será ainda maior”, alerta, em entrevista ao Portal Vermelho

Mulher negra, cria da Maré, defensora dos Diretos Humanos, socióloga e vereadora pelo PSOL. Assim Marielle Franco se descrevia em seu perfil no Twitter. Nomeada no fim do mês passado como relatora da Comissão da Câmara de Vereadores do Rio, criada para acompanhar a atuação das tropas na intervenção federal, ela foi morta a tiros dentro de um carro, na região central do Rio. O motorista do veículo, Anderson Pedro Gomes, também foi baleado e morreu. 

Segundo a polícia, um outro carro emparelhou com o veículo em que Marielle estava e efetuou ao menos nove disparos em sua direção. Ela encontrava-se no banco de trás, foi atingida por quatro projéteis e faleceu na hora. Uma assessora da vereadora, que também estava no automóvel, teve ferimentos leves. Os criminosos fugiram sem levar nada. O quadro faz com que a polícia trabalhe com a ideia de que se tratou de uma execução.

Representante dos que não têm voz

“Para nós, é um momento muito doloroso, ela era uma companheira de longa data, de muita militância juntos, então esse é um dia devastador”, diz Ignacio Cano. Para ele, contudo, a morte prematura da vereadora é um golpe, especialmente, para uma parcela da população particularmente oprimida, que se via representada por Marielle.

“Ela era negra, favelada, mulher – um grupo que não tem voz pública. E ela deu voz a esse grupo, que agora ficará privado dessa voz da maneira pior possível. Então é um dia de muita tristeza, para o Rio de Janeiro, para os Direitos Humanos e para qualquer um que acredite na democracia e na justiça e que pretenda lutar contra a barbárie”, afirma. 

O sociólogo é cauteloso ao ser questionado sobre indícios de que se tratou de um crime político. “É uma hipótese, não tenho dúvida. Mas temos que aguardar e cobrar as investigações. É preciso que as investigações andem rápido”, defende. “É um contexto anômalo e a responsabilidade agora é federal, então o governo federal tem que apresentar uma resposta logo sobre esse crime”, completou.

A referência é ao fato de que o homicídio ocorreu num momento em que o Estado do Rio passa por uma intervenção militar federal. Ao comentar a morte da vereadora, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, disse que ela não terá impacto na intervenção. “Foi uma tragédia, mais uma tragédia diária no Rio de Janeiro. Lamentável”, declarou.

“Para eles, é mais uma tragédia, para nós, que convivíamos com ela, não é mais uma tragédia. De qualquer forma, o Estado tem a obrigação de esclarecer todos os homicídios. A gente quer passar de uma taxa de esclarecimento que hoje é inferior a 8% dos casos, para uma taxa civilizada, em que você consiga esclarecer pelo menos mais da metade dos crimes de homicídios. Há países que conseguem isso. A nossa realidade é complexa, mas é uma cobrança legítima e necessária exigir que o Estado consiga identificar e processar a maioria dos assassinos. Sem isso, a esperança de acabar com a barbárie será remota”, diz Cano.
Os vulneráveis de sempre

A morte de Marielle reforça o que dizem os números da violência no Brasil. De acordo com o Atlas da Violência 2017, por exemplo, de cada 100 pessoas assassinadas, 71 são negras. E, segundo a Anistia Internacional, o Brasil é um dos países com o maior registro de mortes de ativistas dos direitos humanos. “É um retrato muito perturbador”, avalia o sociólogo. 

No caso de Marielle, nem sua posição de destaque lhe afastou das estatísticas: “Era uma mulher, negra, favelada, que a princípio tinha muitas dificuldades para atingir um lugar de visibilidade, uma expressão pública. Mas, quando ela consegue chegar lá, nós esperávamos que ela estivesse protegida, justamente pelo cargo que exercia. Mas descobrimos que não era bem assim, que ela continuava com a vulnerabilidade de sempre. Isso é uma tragédia e temos que nos mobilizar para que isso não continue assim. Para que pessoas que tenham essa origem não continuem tendo uma probabilidade de morte superior à das pessoas que têm origem social mais favorecida”, afirma.

Intervenção, uma operação político-eleitoral

Segundo o professor da Uerj, que é crítico da presença do Exército nas ruas do Rio, a morte da vereadora do PSOL mostra que o Estado precisa de investigação, não de tanques. Na sua avaliação, a intervenção é “claramente uma operação política”. 

“A gente chama de autointervenção, porque é o PMDB do Rio, com o PMDB de Brasília, tentando arrumar uma bandeira eleitoral para esse ano. Então, num momento em que tinham dificuldades para abraçar a bandeira da Reforma da Previdência, optaram por içar a bandeira da segurança como uma bandeira política”, opina.

De acordo com ele, se o governo federal realmente tivesse vontade de melhorar a segurança do Rio, havia outras medidas a serem tomadas, que não envolvem o Exército. “Podia criar uma força-tarefa de investigação, por exemplo. A morte da Marielle mostra, como tantas outras, que o que a gente precisa é de investigação. A gente não precisa de soldados nas ruas, de tanques na frente das comunidades. A gente precisa de investigação para identificar os responsáveis pelos crimes violentos”, aponta.

Cano prevê que a ação militar provavelmente não vai ter nenhum impacto positivo. Ele destaca que operação anteriores do Exército não surtiram efeito, além de que tiveram custos muito elevados. “Mas é essa aposta numa recepção popular favorável do Exército como um poder moderador, um braço forte, que faz com que os governantes, vira e mexe, recorram a esse expediente”, lamenta.

O sociólogo sublinha ainda que o problema da violência não está localizado no Rio, pelo contrário. “Basta lembrar que o Rio é o 11º estado do Brasil em taxa de homicídio e mortes violentas. Ou seja, tem dez estados em situação mais dramática. Se eles quisessem ajudar, há outros mecanismos que não colocar o Exército numa função que não é dele”. 

Uma agenda agressiva de segurança

Ignacio Cano se diz muito preocupado com falas e sinalizações vindas de altas autoridades federais. Ele mencionou como exemplo o fato de o comandante Eduardo Villas Bôas ter defendido mudanças nas regras de engajamento do Exército, permitindo a um militar matar pessoas que estejam armadas nas ruas do Rio. O sociólogo também se referiu à mudança na legislação que faz com que crimes de homicídio cometidos por militares em operações de segurança pública sejam julgados pela justiça militar e não mais pela justiça comum.

“Há todo um projeto político para transferir uma responsabilidade crescente da segurança pública para as mãos do Exército e de uma forma cada vez mais violenta. Não à toa há deputados promovendo o que chamam de Lei do Abate, para poder matar pessoas só porque estejam armadas, mesmo que nesse momento não estejam ameaçando ninguém. Tem também a tentativa de conseguir um mandado de busca coletivo, colocando sob suspeição todas as comunidades”, enumera.

Para Cano, este é um projeto “extremamente perturbador”, que lembra a ele, inclusive, o cenário vivido na Venezuela, antes do Caracazo. Na ocasião, um protesto popular contra o pacote neoliberal do governo foi duramente reprimido pelo Exército e pela polícia, em 27 de fevereiro de 1989, com um saldo de centenas de mortos. 

“Até agora, isso tem ficado na retórica, e esperamos que continue lá. Mas há um grupo que tem uma agenda extremamente agressiva de segurança e essa agenda seria terrível para os moradores do Rio de Janeiro. Vamos torcer e nos mobilizar contra isso”, encerra. 


Do Portal Vermelho

terça-feira, 13 de março de 2018

Manuela: Democracia, liberdades e as consequências da prisão de Lula


A resultante dessa arbitrariedade será uma fratura na sociedade brasileira, cuja responsabilidade inicial é daqueles que retiraram da Presidência uma mulher democraticamente eleita para implementarem o desmonte da Nação e dos direitos do povo. Ao promoverem essa ruptura, ultrapassaram uma faixa muito perigosa, rompendo com um princípio básico do regime democrático, que é a aceitação dos resultados eleitorais pelos grupos vencidos nas urnas.

O ambiente fratricida criado por este ato tem se desdobrado em uma ofensiva que inclui perseguições à liberdade artística, religiosa e de pensamento em uma escala assustadora. Quem seria capaz de imaginar, pouco tempo atrás, professores universitários tendo de depor na polícia em função de suas pesquisas?

Em um tempo tão desafiador como o que vivemos, no qual a crise internacional tem levado as nações a defenderem com cada vez maior denodo seus interesses, enfraqueceremos o país escancarando um verdadeiro abismo entre os brasileiros. Um país que prende injustamente um homem como Lula se torna mais fraco economicamente, porque será permanentemente instável. Será mais violento, porque muitos dos que sofrem com a atual situação perderão as esperanças em um sistema capaz de encarcerar um líder popular dessa importância através de um processo de exceção. Será um país enfraquecido internacionalmente, por manter encarcerado o preso político mais importante e popular do mundo.

O processo contra Lula, nunca é demais reafirmar, foi de exceção, porque levou a cabo procedimentos que contrariaram os princípios mais básicos das garantias penais. Isso foi denunciado por grande número de juristas, das mais diferentes correntes de opinião, no Brasil e no mundo. A prisão, se confirmada, levará essa perseguição ao paroxismo e abrirá espaço para outras arbitrariedades.

Em muitos momentos da história líderes populares sofreram perseguições análogas. Como a violência contra Lula acontece nas proximidades de um abril, podemos pensar em Tiradentes, que foi preso, julgado injustamente, enforcado, esquartejado e teve seu corpo espalhado pela cidade. Ou em Frei Caneca, que, condenado à forca, teve de ser fuzilado, porque não houve carrasco em Pernambuco disposto a entrar para história como autor daquele ato indigno. Tempos depois venceram a Independência, sonho de Tiradentes, e a República, quimera de Caneca. A história mostra que a luta de Lula também vencerá, cedo ou tarde, com ele livre ou encarcerado. Mostra também que o Judiciário brasileiro terá a chance de decidir, nos próximos dias, como vai entrar para a história.

A ofensiva contra a democracia e as liberdades pode ser derrotada se seguirmos o exemplo imperecível de líderes como Leonel Brizola na luta pela legalidade. Vamos, como ele, levar a cabo a resistência — pacífica e firme —, em defesa da liberdade, da democracia, do Estado de direito, da população pobre e da realização de eleições livres em 2018.


*Manuela D’Ávila é deputada estadual pelo PCdoB no Rio Grande do Sul e pré-candidata do partido à Presidência da República

De onde virá a reação à entrega do país ao capital estrangeiro?

 
 Fonte> vermelho.org.b



Desde o estabelecimento das primeiras bases do projeto nacional de desenvolvimento voltado à industrialização nacional, a partir da Revolução de 1930, se estruturou, em oposição, a visão e ação político-ideológica do entreguismo. Seu objetivo fundamental sempre foi o de manter o estilo de reprodução da sociedade elitista associada aos interesses internacionais e em oposição aos interesses do conjunto dos brasileiros.

Logo na década de 1940, por exemplo, o entreguismo se viabilizou na vertente do liberalismo de Eugênio Gudin em defesa do modelo primitivo de sociedade agrarista instalado pelos portugueses desde 1500. Resgatava, assim, o espírito atrasado que se impôs ao país, tanto no reinado de D. Pedro II, ao sufocar a emergência industrialista do Barão de Mauá entre as décadas de 1850 e 1870, como na República Velha (1889-1930) conduzida pelas elites agraristas a enterrarem o projeto positivista de modernização nacional. 

Diante da campanha do “o petróleo é nosso”, logo no início da década de 1950, o movimento em defesa da desnacionalização sistemática do sistema produtivo em prol do protagonismo dos capitais estrangeiros (de empresas multinacionais às corporações transnacionais) estabeleceu sua dimensão nacional. Dessa forma, promovia o constrangimento crescente às forças do desenvolvimento brasileiro e a prevalência do status quo das elites e dos governos de natureza entreguista.

Atualmente, pelo governo Temer, a entrega ao capital internacional para domínio e exploração tanto das riquezas como dos empreendimentos e projetos nacionais retomou com força inegável. O Brasil joga fora, por exemplo, toda a estratégia da soberania e do protagonismo fundados em novas bases desde o início dos anos 2000.

A começar pela desestruturação do sistema nacional de defesa, com o desmonte do programa nuclear brasileiro, a entrega da base espacial de Alcântara, no Maranhão, enquanto melhor local de lançamento de satélites, e o fim do projeto de produção, com tecnologia compartilhada, do avião militar de caça no Brasil. A venda da Embraer, o terceiro maior conglomerado aeroespacial do mundo, para a Boeing tornou-se mais um prego no caixão que enterra a soberania nacional.

No mesmo sentido, o processo de privatização da Petrobras e a imediata entrega da exploração das reservas de petróleo na camada do pré-sal, avaliadas em um trilhão de dólares, por apenas 20 bilhões de reais, para as empresas estrangeiras (Chevron e Shell). Em consequência, a pá de cal na indústria naval que havia sido reconstituída recentemente pela demanda de estaleiros através da Petrobras na inédita e ousada exploração do petróleo na camada do pré-sal.

O anúncio da legalização ao uso do herbicida Glifosato, proibido na Europa, para a Monsanto e toda a migração do sistema de informática assentado em código aberto no governo federal desde 2003 para somente produtos da Microsoft eleva os gastos públicos em 140 milhões ao ano e destrói a segurança nacional das informações do governo brasileiro. Na mesma toada, o movimento de entrega da Eletrobrás por 20 bilhões de reais, ainda que possa valer R$ 370 bilhões, a desconstituição das maiores empresas privadas de engenharia nacional e o ataque às grandes empresas brasileiras produtoras de proteína animal.

A asfixia no financiamento do Estado pela Emenda Constitucional 95, o desmonte das políticas de desenvolvimento nacional e das políticas sociais e trabalhistas, patrocinadas por tantas reformas, como a trabalhista e a ainda em pauta previdenciária, indicam o quanto o condomínio de interesses que dirige o país não produziu o golpe de 2016 apenas para sustentar o moribundo governo Temer.

Precisa, ainda, inviabilizar a candidatura Lula e desconstruir a viabilidade de o Partido dos Trabalhadores, pelo regime democrático, interromper o êxito entreguista.

Dessa forma, talvez, possam estar fomentando, contraditoriamente, o renascimento do mesmo espírito varguista de 1930 que ao perceber a impossibilidade da disputa pela via democrática, não aceitou o resultado e liderou a revolução que libertou o Brasil do entreguismo da República Velha. Seria essa uma possibilidade de pôr fim ao golpe de 2016 que interrompeu o ciclo da República Nova?

Com a palavra as personalidades que dirigem as instituições da República, uma vez que possuem a responsabilidade histórica de, neste momento, garantir ou não a continuidade da tenra democracia brasileira.

*Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas. 



 Fonte: RBA