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quinta-feira, 6 de agosto de 2020

INTERNACIONAL - 75 anos de Hiroshima-Nagasaki: reforçar a luta contra armas nucleares

A presidenta do Conselho Mundial da Paz, Socorro Gomes, emitiu nesta quinta-feira (6) sua nota de solidariedade com as vítimas e sobreviventes dos bombardeios atômicos dos Estados Unidos contra os japoneses, apelando ao reforço da luta internacional contra as armas nucleares. Leia o texto a seguir:.

Nestes 6 e 9 de agosto, a humanidade rememora uma das maiores tragédias da História, ainda mais nefasta porque causada pela ação humana, a do imperialismo estadunidense. A inauguração do uso das armas nucleares pelos Estados Unidos contra as cidades japonesas Hiroshima e Nagasaki, ao findar a Segunda Guerra Mundial, concluiu o episódio mais horrendo do século 20 com o prenúncio do terror e da ameaça de aniquilação total que acometeria todo o mundo, imputando de imediato e também de forma prolongada inestimável sofrimento aos civis japoneses.

Foram cerca de 200 mil as vítimas fatais dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, que tiveram consequências duradouras. Como se sabe, a potência das bombas A e H pulverizou tudo o que foi atingido e matou de imediato, em Hiroshima, 70 mil pessoas, com mais dezenas de milhares mortas até o final do ano, devido às consequências dos ferimentos. Já a segunda, lançada contra Nagasaki, matou imediatamente entre 35 e 40 mil pessoas e feriu outras tantas. Além de vitimar diretamente o povo japonês, a devastação inédita provocada pelas bombas aterrorizou todas as nações, inaugurando uma nova era assente nas ameaças à própria sobrevivência da humanidade e do planeta pelo imperialismo estadunidense.

Enquanto nos solidarizamos com o povo japonês vítima deste crime hediondo, o Conselho Mundial da Paz mobilizou os resistentes contra a guerra e lançou seu primeiro documento e campanha, o Apelo de Estocolmo, em 1950, que colheu centenas de milhões de assinaturas em todo o mundo. Ficava demonstrado o repúdio contundente da humanidade à eventual repetição daquela tragédia e à consolidação de um sistema internacional baseado na intimidação, na ameaça e no terror como pilares do poderio e da hegemonia militar dos Estados Unidos.

A resistência e resiliência das forças amantes da paz, inclusive de nosso membro o Comitê da Paz do Japão, também inspiram o reforço da nossa oposição irredutível à existência das armas nucleares, cuja abolição exigimos também em compromisso com as vítimas dos bombardeios atômicos, assim como a vida e a construção de uma comunidade internacional baseada na cooperação e no respeito mútuo.

Expressamos uma vez mais nossa sincera homenagem às vítimas e sobreviventes dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki e nossa solidariedade com as forças amantes da paz dedicadas à luta contra as armas nucleares, às quais nos somamos como impulso fundador do nosso próprio Conselho Mundial da Paz. Que este terrível aniversário reforce nossa determinação e o compromisso internacional pela abolição desses instrumentos de terror e destruição.

Pela paz,

Socorro Gomes
Presidenta do Conselho Mundial da Paz

Fonte: Cebrapa

ECONOMIA - Sem resposta à altura de Bolsonaro, desemprego dispara sob a pandemia

Com negligência do governo, 8,9 milhões de brasileiros perderam o trabalho no 2º trimestre

A primeira pesquisa de desemprego do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que pegou três meses completos de pandemia no Brasil trouxe uma sucessão de recordes negativos. Com negligência do governo Jair Bolsonaro, 8,9 milhões de brasileiros perderam o trabalho no período. Sem respostas à altura da crise, o presidente prejudicou os trabalhadores com medidas como a demora em liberar o auxílio emergencial e o abandono das micro e pequenas empresas.

Segundo o IBGE, a perda em empregos é a maior desde que a pesquisa começou a ser realizada no formato atual, em 2012. O País fechou o segundo trimestre com o menor número de pessoas empregadas da série histórica. A taxa de desemprego foi a 13,3%, alta de 1,1 ponto percentual com relação ao trimestre anterior e a maior para um segundo trimestre.

A taxa de subutilização também foi recorde, assim como o número de pessoas desalentadas – aquelas que gostariam de trabalhar mas desistiram de buscar por uma vaga. Os resultados da pesquisa reforçam ainda a percepção de que a pandemia afetou de maneira mais dura trabalhadores menos qualificados e informais.

De acordo com o IBGE, no trimestre encerrado em junho, 83,3 milhões de brasileiros tinham trabalho – 9,6% a menos do que nos três primeiros meses do ano. Já entre aqueles fora da força de trabalho atingiu o maior contingente da série, com 77,8 milhões de pessoas, ou 10,5 milhões a mais do que no trimestre anterior.

Em maio, a pesquisa indicou pela primeira vez que mais da metade da população em idade de trabalhar estava sem emprego. Em junho, a situação se agravou: apenas 47,9% dos brasileiros tinham alguma ocupação.

O comércio foi o setor mais atingido, com o fechamento de 2,1 milhões de postos de trabalho. Na construção civil, foram 1,1 milhão a menos. Entre os empregados domésticos, houve 1,3 milhão de demissões.

A categoria alojamento e alimentação também teve redução de 1,3 milhão de pessoas. Nesta categoria estão hotéis, restaurantes e os vendedores de comida na rua, por exemplo. O setor de serviços é o único grande setor da economia que ainda não mostrou sinais de retomada.

Em outras crises econômicas, ocupações informais se tornaram alternativas à perda do emprego com carteira assinada. Agora, porém, a taxa de informalidade cai, mesmo com o fechamento de vagas. Em junho, segundo o IBGE, o índice chegou a 36,9%, a menor da série histórica.

“Essa taxa é menor não porque os trabalhadores estão migrando para a formalidade, mas porque eles estão perdendo a ocupação”, disse a analista da pesquisa, Adriana Beringuy. Os dados mostram que a queda no número de trabalhadores foi maior entre aqueles sem vínculo do que entre os com carteira assinada.

No setor privado, por exemplo, os trabalhadores informais recuaram 21,6%, enquanto os formais caíram 8,9%. Entre os trabalhadores domésticos também houve grande diferença. No grupo dos que têm carteira assinada, o número de trabalhadores recuou 13,9%. Entre os informais, o corte foi de 23,7%.

O aumento da renda média do trabalhador, que subiu 4,6% para R$ 2.500, é outro indicador de que os trabalhadores menos qualificados sofrem mais os efeitos da crise, pois indica que os maiores salários estão sendo mais preservados.

“No curto prazo, estamos no breu – estamos no porão do buraco”, diz o economista Otto Nogami, do Insper, para quem a lenta retomada da indústria e do comércio não serão suficientes para reverter o cenário desolador no mercado de trabalho. “A base de comparação está extremamente baixa. A indústria automobilística cresceu 80% [em junho] mas chegou a ter apenas 13% da capacidade. Em vários setores, ainda estamos abaixo do pior momento da história.”

Nogami avalia que o mercado de trabalho seguirá pressionado pelo fechamento de pequenas empresas com dificuldades de caixa para manter as portas abertas e pela baixa confiança do consumidor. “A gente observa nos shoppings que as pessoas estão meio reticentes. Vão por necessidade, mas não para gastar por gastar.”

Com o isolamento social, muitos brasileiros desistiram de ir às ruas atrás de uma vaga, levando o número de desalentados a crescer 19,1%, para 5,7 milhões de pessoas. A população subutilizada chegou a 31,9 milhões de pessoas, 15,7% a mais do que no trimestre anterior.

Pela primeira vez na história, a força de trabalho potencial – que soma as pessoas em idade de trabalhar que não tinham emprego nem estavam em busca de uma vaga – ultrapassou o número de pessoas desempregadas. São 13,5 milhões de pessoas nessa situação.

Muitos deles, diz o instituto, deixaram de procurar emprego por causa da pandemia. Quando voltarem ao mercado em busca de vaga, devem pressionar a taxa de desemprego para níveis ainda superiores aos atuais. “Isso vai depender muito de como o mercado vai demandar esses trabalhadores. A oferta de mão de obra vai existir. Mas, se essas pessoas serão alocadas, a gente não sabe”, disse a analista do IBGE.

A expectativa do governo é que, com o fim do auxílio emergencial – que deve ser pago apenas mais este mês –, a taxa dê um repique em setembro, o que demandaria maior atenção a políticas sociais. Nesta quarta (5), porém, o próprio Bolsonaro já afirmou que “não dá para continuar muito” o benefício. Novos recordes negativos virão.

Com informações da Folha de S.Paulo

Fonte: https://vermelho.org.br

Conta da nova CPMF recairá sobre mais pobres, diz Perpétua

Guedes quer tomar 25% da conta do FGTS do trabalhador e aliviar 25% da contribuição patronal para o INSS, diz Perpétua - Foto: Michel Jesus/Agência Câmara.


O ministro da economia, Paulo Guedes, ainda não desistiu da recriação de um tributo nos moldes da extinta Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Agora, para angariar apoio à sua ideia e diminuir resistências no Congresso, Guedes sugeriu uma redução nos encargos pagos por empresas sobre os salários dos funcionários. Hoje, as empresas pagam uma alíquota de 20% sobre os salários como contribuição à Previdência. A ideia é reduzir esse para 10%.

De acordo com o jornal O Estado de S.Paulo, Guedes vai propor a redução de 20% para 15% da alíquota das empresas com um custo de R$ 50 bilhões de perda de arrecadação federal. A redução dos outros cinco pontos percentuais seria obtida, na prática, com duas medidas parafiscais (sem impacto no Orçamento do governo): redução de 8% para 6% do valor dos salários que é depositado pelas empresas nas contas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e corte permanente da metade dos encargos que pagam ao Sistema S.

Além disso, a contribuição das empresas ao INSS do trabalhador que ganha até um salário mínimo (hoje, R$ 1.045) será isenta para o patrão, ao custo de R$ 25 bilhões por ano para os cofres da União. Essa medida integra o novo modelo de Carteira Verde Amarela em gestação pela equipe econômica. Essa desoneração vale só para o trabalhador que recebe um salário mínimo e visa a aumentar as contratações e barrar demissões de quem já tem emprego formal.

Para a líder do PCdoB na Câmara, deputada Perpétua Almeida (AC), “Guedes quer tomar 25% da conta do FGTS do trabalhador e aliviar 25% da contribuição patronal para o INSS para depois extinguir a Previdência pública ‘deficitária’”. Segundo ela, a conta da nova CPMF recairá sobre os mais pobres.

“A transferência desse volume monumental de dinheiro para os mais ricos é para passar a CPMF, que no final será paga pelos mais pobres”, destacou.

Nova Reforma Trabalhista

A medida, na avaliação da legenda, representa uma nova Reforma Trabalhista, visto que a Carteira Verde e Amarela permitirá o registro por hora trabalhada de serviços prestados pelo trabalhador sem a cobrança de encargos trabalhistas, do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e da contribuição previdenciária.

Para o PCdoB, o discurso de Guedes reforça a ideia de que o gargalo da economia está no caráter protetivo dado aos trabalhadores pela legislação, “não permitindo que as empresas cresçam e aumentem a oferta de emprego”.

No entanto, assim como a Reforma Trabalhista encampada por Temer não gerou mais empregos, a nova flexibilização idealizada pelo governo Bolsonaro não impactará positivamente a vida dos 12,9% de brasileiros desempregados.

Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que nos países onde houve maior flexibilização da proteção trabalhista, o nível de desemprego,  a informalidade e a desigualdade social aumentaram.

A legenda também avalia como irresponsável o desmonte do FGTS. “Além de afetar a proteção dos trabalhadores formais, prejudica a área social, pois o fundo, que foi criado para aliviar as empresas de seus passivos trabalhistas e para ser um benefício de poupança aos trabalhadores individualmente, transformou-se, ao longo do tempo, num dos principais instrumentos de poupança interna e de apoio ao desenvolvimento econômico e social do país, presente de modo especial nos setores menos favorecidos da sociedade”, destaca análise da assessoria técnica da bancada do PCdoB na Câmara.

(PL)

Projeto cria programa de prevenção contra a Covid-19 em empresas

Cipa deverá realizar atividades orientadas à detecção da Covid-19 no ambiente de trabalho - Foto: Ione Moreno/Prefeitura de Manaus.

O Projeto de Lei 3946/20 cria o Programa Nacional de Proteção e Controle da Covid-19 nos setores produtivos, comercial e de serviço.

O programa deverá ser promovido pela Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) de cada estabelecimento, que deverá promover campanha de informação entre os trabalhadores, sobre prevenção contra a contaminação pelo novo coronavírus nos locais de trabalho.

“Deve-se estabelecer programas específicos para orientar o segmento dos trabalhadores na indústria, no comércio e serviços e preveni-los a respeito da enfermidade”, diz o deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), autor da proposta. Também assinaram o texto outros seis deputados do PCdoB.

Segundo a justificação do projeto, a Cipa é a “instituição justamente talhada para esse encargo, pois tem o objetivo de preservar a integridade física dos trabalhadores por intermédio de ações que minimizem situações de riscos de acidentes e doenças do trabalho”.

Atribuições

Pela proposta em análise na Câmara dos Deputados, a comissão deverá realizar atividades orientadas à detecção da Covid-19 no ambiente de trabalho; promover cursos de informação e educação; estabelecer protocolos de cuidado nas atividades laborais; divulgar informações epidemiológicas e as estatísticas da Covid-19 no âmbito da atividade produtiva; propor programas de contenção da doença entre grupo de riscos; entre outras atribuições.

O texto autoriza o Poder Público a formar comitê de acompanhamento para assessorar as comissões das empresas e indústrias; implementar e avaliar o programa; e a capacitar os instrutores dos cursos de informação promovidos pelas Cipas.

(PL)

PCdoB lança nota em solidariedade ao povo libanês

Secretaria de Política e Relações Internacionais do PCdoB se solidariza com o Líbano. Foto: reprodução

A secretaria de Relações Internacionais do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) divulgou,nesta quarta-feira (5), uma nota de solidariedade ao povo libanês diante da explosão que atingiu Beirute, causando milhares de vítimas. O PCdoB também enviou à embaixada do Líbano e ao Partido Comunista Libanês, mensagens de condolências dos comunistas brasileiros.

Leia, abaixo, a íntegra da nota:

Solidariedade do PCdoB ao povo libanês

Reconhecemos o grande esforço da população, do governo, da sociedade civil organizada e dos partidos, como o Partido Comunista Libanês, neste momento ao realizar ações para salvar vidas e abrigar as centenas de milhares de desalojados. Assim como os cuidados materiais com a região atingida, no sentido de recolher os escombros e minimizar danos ainda maiores para a população.

Igualmente nos solidarizamos à comunidade libanesa no Brasil pela perda de entes queridos e abalo de suas famílias.

Que as autoridades sejam capazes de rapidamente encontrar os fundamentos desta tragédia, confortar as vítimas e reconstruir a bela Beirute.

A solidariedade humanitária e o internacionalismo fraterno é uma característica dos comunistas que mais uma vez reafirmamos.

Com sinceras saudações,

Walter Sorrentino

Secretário de Relações Internacionais do PCdoB

terça-feira, 28 de julho de 2020

Flávio Dino propõe a Bolsonaro um Pacto Nacional pelo Emprego


Para governador, é necessário reunir, numa mesma mesa, o presidente da República, governadores, empresários e sindicalistas.

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), enviou nesta segunda-feira (27) um ofício ao presidente Jair Bolsonaro para propor, formalmente, a criação de um Pacto Nacional pelo Emprego, a ser lançado “em caráter de urgência”. Segundo Dino, com a pandemia do novo coronavírus e a escalada do desemprego no País, é necessário reunir, numa mesma mesa, o presidente da República, governadores, empresários e sindicalistas.
A sugestão do governador foi motivada pela confirmação de que as taxas de desocupação devem crescer no Brasil, conforme declarou à Folha de S.Paulo Adolfo Sachsida, secretário de Política Econômica do governo Bolsonaro. “O desemprego já aumentou – os dados é que não mostram isso”, afirmou ele. “Esse problema que vai afligir duramente a sociedade brasileira. Em setembro, os índices de desemprego vão dar um repique grande.”
Diante do que chamou de “cenário desafiador”, Flávio Dino se dirigiu a Bolsonaro. “Gostaria de sugerir uma reunião liderada por V. Exa. com os governadores e os presidentes das confederações empresariais e centrais sindicais para que possamos construir um ‘Pacto Nacional Pelo Emprego’, com medidas emergenciais de geração de emprego e renda”, escreveu o governador. Em sua opinião, é necessário agilizar “a apresentação de propostas para proteção dos pequenos e microempresários, assim como um plano de obras públicas”.
Leia abaixo a íntegra da proposta de Flávio Dino:
Excelentíssimo Senhor Presidente da República,
A pandemia causada pelo novo coronavírus impôs aos governantes desafios de ordem humanitária, sanitária e econômica sem precedentes.
No Brasil, o último boletim Focus divulgado pelo Banco Central aponta uma estimativa de retração do PIB de 5,95% em 2020, a maior queda de nossa história.
O desemprego no país subiu para 12,9%, indicando o fechamento de milhões de postos de trabalho com relação ao trimestre anterior, segundo dados divulgados pelo IBGE no último dia 30 de junho. O mesmo instituto aponta que mais de 700 mil empresas fecharam as portas até a primeira quinzena de junho.
Conforme entrevista publicada hoje, o Sr. Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia antecipa que haverá crescimento da taxa de desemprego no 2º semestre.
Penso que precisamos planejar com urgência medidas para evitar o cenário projetado pela citada autoridade federal.
Considerando este cenário desafiador, gostaria de sugerir uma reunião liderada por V. Exa. com os governadores e os presidentes das confederações empresariais e centrais sindicais para que possamos construir um “Pacto Nacional Pelo Emprego”, com medidas emergenciais de geração de emprego e renda.
Neste encontro, também seria de extrema importância a apresentação de propostas para proteção dos pequenos e microempresários, assim como um plano de obras públicas, indispensável para recolocar o país no rumo do crescimento.

A Igreja contra Bolsonaro: bispos lançam Carta ao Povo de Deus

Documento, assinado por 152 arcebispos e bispos da Igreja Católica, acusa o presidente de “incapacidade e inabilidade” para enfrentar as múltiplas crises vividas pelo País.
Nada menos que 152 arcebispos e bispos da Igreja Católica assinaram um dos mais fortes ataques ao governo Jair Bolsonaro. O documento, intitulado Carta ao Povo de Deus, acusa o presidente de “incapacidade e inabilidade” para enfrentar as múltiplas crises vividas pelo País – política, econômica, social e sanitária.  
“As reformas trabalhista e previdenciária, tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo”, aponta o texto. “É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população.”
Os bispos também denunciam o viés genocida do governo, agravado pela política ultraliberal do Ministério da Economia, sob a tutela de Paulo Guedes. “O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma ‘economia que mata’ (…), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço”, reforça o texto.
Carta ao Povo de Deus seria publicada na última quarta-feira (22) pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Porém, como não houve consenso sobre o teor do documento, o documento veio a público como uma manifestação coletiva dos 152 arcebispos e bispos – mas não um gesto institucional da CNBB.
Leia abaixo a íntegra:
Carta ao Povo de Deus
Somos bispos da Igreja Católica, de várias regiões do Brasil, em profunda comunhão com o Papa Francisco e seu magistério e em comunhão plena com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que no exercício de sua missão evangelizadora, sempre se coloca na defesa dos pequeninos, da justiça e da paz. Escrevemos esta Carta ao Povo de Deus, interpelados pela gravidade do momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas incertezas e tanto sofrimento do povo.
Evangelizar é a missão própria da Igreja, herdada de Jesus. Ela tem consciência de que “evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (Alegria do Evangelho, 176). Temos clareza de que “a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. A nossa reposta de amor não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados […], uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus […] (Lc 4,43 e Mt 6,33)” (Alegria do Evangelho, 180). Nasce daí a compreensão de que o Reino de Deus é dom, compromisso e meta.
É neste horizonte que nos posicionamos frente à realidade atual do Brasil. Não temos interesses político-partidários, econômicos, ideológicos ou de qualquer outra natureza. Nosso único interesse é o Reino de Deus, presente em nossa história, na medida em que avançamos na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma civilização do amor.
O Brasil atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história, comparado a uma “tempestade perfeita” que, dolorosamente, precisa ser atravessada. A causa dessa tempestade é a combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República, provocada em grande medida pelo Presidente da República e outros setores da sociedade, resultando numa profunda crise política e de governança.
Este cenário de perigosos impasses, que colocam nosso País à prova, exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais diálogo do que discursos ideológicos fechados. Somos convocados a apresentar propostas e pactos objetivos, com vistas à superação dos grandes desafios, em favor da vida, principalmente dos segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta. Essa realidade não comporta indiferença.
É dever de quem se coloca na defesa da vida posicionar-se, claramente, em relação a esse cenário. As escolhas políticas que nos trouxeram até aqui e a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal, não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo brasileiro. Mazelas que se abatem também sobre a Casa Comum, ameaçada constantemente pela ação inescrupulosa de madeireiros, garimpeiros, mineradores, latifundiários e outros defensores de um desenvolvimento que despreza os direitos humanos e os da mãe terra. “Não podemos pretender ser saudáveis num mundo que está doente. As feridas causadas à nossa mãe terra sangram também a nós” (Papa Francisco, Carta ao Presidente da Colômbia por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, 05/06/2020).
Todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador. Assistimos, sistematicamente, a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela COVID-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconômico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam à manutenção do poder a qualquer preço. Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Analisando o cenário político, sem paixões, percebemos claramente a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar essas crises. As reformas trabalhista e previdenciária, tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo. É verdade que o Brasil necessita de medidas e reformas sérias, mas não como as que foram feitas, cujos resultados pioraram a vida dos pobres, desprotegeram vulneráveis, liberaram o uso de agrotóxicos antes proibidos, afrouxaram o controle de desmatamentos e, por isso, não favoreceram o bem comum e a paz social. É insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população.
O sistema do atual governo não coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos, mas a defesa intransigente dos interesses de uma “economia que mata” (Alegria do Evangelho, 53), centrada no mercado e no lucro a qualquer preço. Convivemos, assim, com a incapacidade e a incompetência do Governo Federal, para coordenar suas ações, agravadas pelo fato de ele se colocar contra a ciência, contra estados e municípios, contra poderes da República; por se aproximar do totalitarismo e utilizar de expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo pela população, e das leis do trânsito e o recurso à prática de suspeitas ações de comunicação, como as notícias falsas, que mobilizam uma massa de seguidores radicais.
O desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia também nos estarrece. Esse desprezo é visível nas demonstrações de raiva pela educação pública; no apelo a ideias obscurantistas; na escolha da educação como inimiga; nos sucessivos e grosseiros erros na escolha dos ministros da educação e do meio ambiente e do secretário da cultura; no desconhecimento e depreciação de processos pedagógicos e de importantes pensadores do Brasil; na repugnância pela consciência crítica e pela liberdade de pensamento e de imprensa; na desqualificação das relações diplomáticas com vários países; na indiferença pelo fato de o Brasil ocupar um dos primeiros lugares em número de infectados e mortos pela pandemia sem, sequer, ter um ministro titular no Ministério da Saúde; na desnecessária tensão com os outros entes da República na coordenação do enfrentamento da pandemia; na falta de sensibilidade para com os familiares dos mortos pelo novo coronavírus e pelos profissionais da saúde, que estão adoecendo nos esforços para salvar vidas.
No plano econômico, o ministro da economia desdenha dos pequenos empresários, responsáveis pela maioria dos empregos no País, privilegiando apenas grandes grupos econômicos, concentradores de renda e os grupos financeiros que nada produzem. A recessão que nos assombra pode fazer o número de desempregados ultrapassar 20 milhões de brasileiros. Há uma brutal descontinuidade da destinação de recursos para as políticas públicas no campo da alimentação, educação, moradia e geração de renda.
Fechando os olhos aos apelos de entidades nacionais e internacionais, o Governo Federal demonstra omissão, apatia e rechaço pelos mais pobres e vulneráveis da sociedade, quais sejam: as comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, as populações das periferias urbanas, dos cortiços e o povo que vive nas ruas, aos milhares, em todo o Brasil. Estes são os mais atingidos pela pandemia do novo coronavírus e, lamentavelmente, não vislumbram medida efetiva que os levem a ter esperança de superar as crises sanitária e econômica que lhes são impostas de forma cruel. O Presidente da República, há poucos dias, no Plano Emergencial para Enfrentamento à COVID-19, aprovado no legislativo federal, sob o argumento de não haver previsão orçamentária, dentre outros pontos, vetou o acesso a água potável, material de higiene, oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea, nos territórios indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais (Cf. Presidência da CNBB, Carta Aberta ao Congresso Nacional, 13/07/2020).
Até a religião é utilizada para manipular sentimentos e crenças, provocar divisões, difundir o ódio, criar tensões entre igrejas e seus líderes. Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente a associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário. Como não ficarmos indignados diante do uso do nome de Deus e de sua Santa Palavra, misturados a falas e posturas preconceituosas, que incitam ao ódio, ao invés de pregar o amor, para legitimar práticas que não condizem com o Reino de Deus e sua justiça?
O momento é de unidade no respeito à pluralidade! Por isso, propomos um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade, para que seja restabelecido o respeito à Constituição Federal e ao Estado Democrático de Direito, com ética na política, com transparência das informações e dos gastos públicos, com uma economia que vise ao bem comum, com justiça socioambiental, com “terra, teto e trabalho”, com alegria e proteção da família, com educação e saúde integrais e de qualidade para todos. Estamos comprometidos com o recente “Pacto pela vida e pelo Brasil”, da CNBB e entidades da sociedade civil brasileira, e em sintonia com o Papa Francisco, que convoca a humanidade para pensar um novo “Pacto Educativo Global” e a nova “Economia de Francisco e Clara”, bem como, unimo-nos aos movimentos eclesiais e populares que buscam novas e urgentes alternativas para o Brasil.
Neste tempo da pandemia que nos obriga ao distanciamento social e nos ensina um “novo normal”, estamos redescobrindo nossas casas e famílias como nossa Igreja doméstica, um espaço do encontro com Deus e com os irmãos e irmãs. É sobretudo nesse ambiente que deve brilhar a luz do Evangelho que nos faz compreender que este tempo não é para a indiferença, para egoísmos, para divisões nem para o esquecimento (cf. Papa Francisco, Mensagem Urbi et Orbi, 12/4/20).
Despertemo-nos, portanto, do sono que nos imobiliza e nos faz meros espectadores da realidade de milhares de mortes e da violência que nos assolam. Com o apóstolo São Paulo, alertamos que “a noite vai avançada e o dia se aproxima; rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz” (Rm 13,12).
O Senhor vos abençoe e vos guarde. Ele vos mostre a sua face e se compadeça de vós.
O Senhor volte para vós o seu olhar e vos dê a sua paz! (Nm 6,24-26).
Fonte:  https://vermelho.org.br