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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Denúncia contra Temer vai à votação na CCJC. "O POVO TÁ DE OLHO!"

 
Foto: Reprodução da Internet


Eles foram acusados pela Procuradoria-Geral da República de participar de um suposto esquema com objetivo de obter vantagens indevidas em órgãos da administração pública. Na denúncia, a PGR os acusa por obstrução de justiça e organização criminosa. 

No dia 10 de outubro, o deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), recomendou, em seu parecer, a rejeição da denúncia na CCJC. Segundo o tucano, a peça da PGR é um “ataque generalizado aos homens públicos do país” e deslegitimou ainda a gravação da conversa entre Temer e Joesley Batista. Para ele, a gravação da conversa foi realizada “de forma criminosa” e não tem base, o que justificaria a rejeição da denúncia contra Temer e seus ministros. 

Para o deputado Alessandro Molon (Rede-RJ), o parecer de Bonifácio de Andrada, em vez de se debruçar sobre a conduta ilícita e criminosa dos acusados, “se constitui num ataque ao Ministério Público, à Polícia Federal e ao Judiciário, como se fossem eles que estivessem sob suspeita”. “Quem está sob suspeita e precisa ser processado é Temer, ao lado de seus ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco”, destacou. 

Daniel Almeida (PCdoB-BA) também defende a abertura da investigação. Para ele, já passou da hora de a Câmara rever seu posicionamento e permitir a investigação pelo Supremo. “Esta é a decisão mais importante que teremos que tomar neste momento e acredito que todas as denúncias que vão surgindo só corroboram com o fato de que Temer precisa ser investigado. Tenho confiança que o resultado dessa vez será diferente e Temer será afastado para que se investiguem os crimes que ele cometeu”, disse.

A retomada do debate e votação do parecer do tucano na CCJC está prevista para esta terça-feira (17), às 10h. No debate serão usados os mesmos procedimentos da primeira denúncia, com 15 minutos para cada integrante da comissão – são 66 titulares e 66 suplentes – e 10 minutos para não membros contra e a favor do prosseguimento da denúncia, sendo, no máximo, 20 parlamentares em cada grupo. Cada advogado terá 20 minutos para o pronunciamento final. Independentemente do resultado na comissão, o Plenário deverá decidir se autoriza ou não a abertura de processo no STF contra Temer, como determina a Constituição. A previsão é que esta votação aconteça até o dia 24 de outubro.


 Do Portal Vermelho, com agências

Temer envia carta a deputados pedindo para salvar a sua pele

 
Foto:  Evaristo Sa/AFP


No texto, Temer - que conspirou contra a então presidenta Dilma Rousseff, do qual era vice - se diz vítima de "torpezas e vilezas" e diz não ter dúvidas de que se trata de uma "conspiração para me derrubar da Presidência da República".

Ele abre a carta citando o áudio da conversa entre os empresários da JBS, que classifica como "diálogo sujo, imoral, indecente, capaz de fazer envergonhar aqueles que o ouvem". Apesar da indignação de Temer, ele não tem moral para tal, pois também foi flagrado em diálogo com o empresário Joesley Batista, em que ouviu as declarações do empresário sobre a compra do silêncio de Eduardo Cunha e endossou: "Temos que manter isso, viu?".

Aliás, Temer ainda usou a entrevista de seu amigo Eduardo Cunha, concedida à revista Época, para se defender e desqualificar os áudios.

"Em entrevista à revista Época, o ex-deputado Eduardo Cunha disse que a sua delação não foi aceita porque o procurador-geral exigia que ele incriminasse o presidente da República. Esta negativa levou o procurador Janot a buscar alguém disposto a incriminar o Presidente. Que, segundo o ex-deputado, mentiu na sua delação para cumprir com as determinações da PGR. Ressaltando que ele, Funaro, sequer me conhecia", garantiu.

Temer não poupou ataques ao ex-procurador Geral da República, Rodrigo Janot. "Quem o ouviu verificou uma urdidura conspiratória dos que dele participavam demonstrando como se deu a participação do ex-procurador-geral da República, por meio de seu mais próximo colaborador, Dr. Marcello Miller", diz ele na carta. 

“Ele tinha pressa e precisava derrubar o presidente”, disse o procurador. “O Rodrigo (Janot) tinha certeza que derrubaria”, afirmou. A ação, segundo ele, teria dois efeitos: impedir que o presidente nomeasse o novo titular da Procuradoria-Geral da República, e ser, ou indicar, o novo candidato a presidente da República. Veja que trama.

Ele finaliza a carta afirmando que se trata apenas de um "desabafo". "É uma explicação para aqueles que me conhecem e sabem de mim. É uma satisfação àqueles que democraticamente convivem comigo", destaca.

Diz ainda que a agenda de "modernização reformista", citando a reforma trabalhistas, o congelamento dos investimentos por 20 anos, as privatizações e a proposta de reforma da Previdência.;

"Em toda a minha trajetória política a minha pregação foi a de juntar os brasileiros, de promover a pacificação, de conversar, de dialogar. Não acredito na tese do “nós contra eles”. Acredito na união dos brasileiros", completa. 


Do Portal Vermelho, com informações de agências

PAU SÓ NO LULA! Cármen Lúcia Foi “Patética”, Diz Janio De Freitas; CONFIRA!

PAU SÓ NO LULA! Cármen Lúcia Foi “Patética”, Diz Janio De Freitas; CONFIRA!
por 
A “última do Supremo” é a mais antidemocrática e intolerável de suas deliberações desde o fim da ditadura. Tanto por seus múltiplos sentidos, como pela maneira de construí-los até os consagrar por um voto. A rigor, não um voto, mas uma confusão de sub-ideias e palavras titubeadas pela própria presidente do tribunal, no papel de política.
Ao Supremo cabe ser, no conjunto dos Poderes, o repositório da racionalidade e do bom senso. Uma pergunta singela denuncia, porém, a falta desse atributo no mais recente e importante julgamento. Nele ficou reconhecida a competência desse tribunal, nos casos de parlamentares denunciados, para sujeitá-los a “medidas cautelares”, ou preventivas. Como o afastamento de Aécio Neves. Mas estabeleceu, também, que tais medidas sejam submetidas à aceitação ou recusa da Câmara e ao Senado, como queria parte dos congressistas. Foi dado aos congressistas, portanto, o poder de revogar as medidas do Supremo. Logo, quem dá a decisão, a palavra que vale, é só o Congresso.
O bom senso indaga: afinal de contas, esses processos ocuparão o Supremo para quê? Nada. Ou nada mais do que fingimento, a encerrar-se, no máximo, com votos reduzidos a meros palpites, sem validade. Melhor farão os magistrados com o nosso dinheirinho, não o queimando com inutilidades e usando-o para os julgamentos e decisões, tão atrasados, a que ainda não se furtam.
Com o editorial sobre a “última do Supremo”, disse a Folha (13.9): “Decisão do Supremo recoloca nas mãos do Legislativo a tarefa de não compactuar com o corporativismo e a desfaçatez de seus membros”. No Senado, por exemplo, 33 dos seus integrantes, ou o equivalente a 40% dos 81, têm problemas na Justiça. É isso, então: os parlamentares portadores de desfaçatez e corporativismo foram incumbidos, pelo Supremo, de julgar os parlamentares portadores de desfaçatez, corporativismo, acusações de corrupção e falcatruas sortidas.
A presidente Cármen Lúcia sabia, no entanto, do que se tratava: “A importância desse julgamento é dar clareza às regras e segurança jurídica”. Resultou no oposto. Os ministros Luís Barroso, Rosa Weber, Luiz Fux, Edson Fachin e Celso de Mello deram votos firmes e bem fundamentados, entendendo que ceder ao Congresso seria dar ainda mais imunidades aos congressistas, violar a separação dos Poderes e de suas respectivas atribuições e, com isso, negar o Estado de Direito Democrático.
Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello, por diferentes vias, apoiaram a revisão pelos congressistas das decisões do Supremo sobre parlamentares. Com o poder de rejeitá-las. Cinco a cinco.
(…)
Da coluna de Janio de Freitas na Folha:
Fonte: http://www.ceilandiaemalerta.com.br

Lava-Jato paga propina milionária à mídia

Lava-Jato paga propina milionária à mídia
Fonte: http://www.ceilandiaemalerta.com.br
A entrevista do consultor Mario Rosa já foi reproduzida em vários sites. Eu tinha que dar um título mais impactante, e ao mesmo tempo mais verdadeiro, porque é disso que se trata. Rosa faz uma denúncia óbvia, que está a vista de todos.
Imagina se o Ministério do Desenvolvimento “vazasse” informações sobre comércio exterior apenas para jornalistas que falassem bem do governo? Não seria um escândalo? Não seria considerado corrupção?
A Lava Jato usa informações públicas para corromper jornalistas. Estes só continuam a receber furos, e um furo é a moeda mais valiosa do jornalismo, caso eles continuem a servir à narrativa do Estado, ou melhor, à narrativa da própria Lava Jato.
Ou seja, é propina.
Uma propina muito maior e muito mais imoral que os milhões que Lucio Funaro diz ter dado a Eduardo Cunha para que este “comprasse” o impeachment.
Mas com o mesmo objetivo: a Lava Jato foi uma operação montada para derrubar o governo Dilma e empossar um outro regime, de ordem neoliberal, servil aos interesses das corporações norte-americanas.
Por isso a operação e, sobretudo, Sergio Moro, recebem tantos prêmios nos Estados Unidos.
Só não entendo porque Donald Trump ainda não recebeu Moro no salão oval da Casa Branca, e ainda não lhe entregou uma medalha de heroi da pátria, depois de tudo que o juiz fez em prol da “terra dos livres e lar dos bravos”.
A Lava Jato girou, desde o início, em volta de propinas.
Todos os prêmios que recebeu, por exemplo, são propina. E os “furos” da Lava Jato idem.
A Lava Jato é a ação judicial mais corruptora e corrompida da história do país.
***
No Conjur
O novo chapa-branca
“A custo zero para a imprensa, cobertura da ‘lava jato’ só reproduz discurso do Estado”
POR MÁRCIO CHAER, MARCOS DE VASCONCELLOS E FERNANDO MARTINES
Tradição dos lares brasileiros, a telenovela ganhou nova forma e horários. Agora, o cenário é bem mais simples: uma bancada com um ou dois apresentadores. E a exibição é de manhã, depois do almoço, às 20h30 e de madrugada. No enredo imutável, âncoras e repórteres mostram como a República está sempre por um fio. Os picos de audiência apontam que a fórmula agrada ao público.
Ganhador do prêmio Esso quando jornalista, o atual consultor de crises Mário Rosa constata que o público não quer mais saber quem matou Odete Roitman. Ele quer ouvir os áudios das conversas privadas do presidente. Ou ver vídeos de parlamentares pegando malas de dinheiro. O ponto alto da adrenalina agora é durante o noticiário.
Na análise de Rosa, essa dinâmica da produção jornalística tem motivações financeiras. Em um momento de crise econômica e disputa por atenção de um público ávido por smartphones a imprensa se vê tendo acesso a um material com alto potencial de audiência.
A fonte é o Estado, mesmo que as denúncias também sejam contra ele – o Estado são vários. Ministério Público Federal e Polícia Federal gastam milhões de sua verba para produzir áudios, vídeos e fotos comprometedores. Esse material é repassado a algum dos jornalistas que formam o círculo de proximidade. Mas alguém já disse que não existe almoço grátis. E nesse caso, o preço é a lealdade.
O Ibope está garantido. Mas é preciso que a denúncia seja publicada da forma que foi entregue, caso contrário, será exilado do grupo que furos jornalísticos prontos para o consumo a custo zero. Também está no contrato que além do filé, o músculo também deve ser ingerido. Para continuar recebendo notícias de impacto, o jornalista deve também publicar teses e devaneios de vez em quando. Para fortalecer as acusações.
Colocar os jornalistas para realmente investigar os fatos levantados nos processos, fazer o jornalismo que se aprende nos filmes e nas aulas, lembra Rosa, custa caro.
A visão de Mário Rosa vem dos três lados do balcão. Já foi repórter, é consultor de crises e foi alvo de investigações. Com sua experiência junto às engrenagens da imprensa, Mario Rosa ajuda empresários e políticos a navegarem no tumultuoso mar do escracho público. De Léo Pinheiro a Ricardo Teixeira, de Fernando Henrique Cardoso a Lula, passando por Paulo Coelho. Recorre ao consultor quem vê sua imagem ser atacada publicamente.
Em junho de 2016, a visão de Mario Rosa sobre seu próprio trabalho mudou. Ele acordou com a Polícia Federal batendo na sua porta. Busca e apreensão. Era investigado por ter um contrato com a empresa de Carolina Oliveira, mulher do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel. O chefe do Executivo mineiro é investigado na operação apelidada de acrônimo.
Não parou aí. A PF fez busca e apreensão em mais de dez empresas com as quais Rosa tinha contrato. Seu nome apareceu no noticiário. O casamento acabou e muitos negócios foram perdidos.
A tentativa de cura veio pela escrita. Rosa lançou recentemente o livro Entre a Glória e a Vergonha, no qual conta seus 25 anos como consultor das pessoas mais poderosas do país, no momento em que estão mais fragilizadas.
Em visita à redação da ConJur, logo antes do suicídio do reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, o jornalista comentou os efeitos deletérios da escalada do punitivismo no noticiário nacional.
Leia a entrevista:
ConJur – Neste momento, o senhor acredita que seja possível algum veículo grande atuar criticamente com distanciamento em relação ao fenômeno dos escândalos políticos nos noticiários?
Mario Rosa – A questão é que se trata de um monopólio. Tivemos a crise do petróleo duas vezes, nos anos 1970 e nos anos 1980, e quem é que podia atuar criticamente contra a OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo]? Se você era dependente do petróleo, você tinha que aceitar o preço da OPEP. Hoje em dia, falando de informação, a OPEP é o Estado brasileiro. É a instância que detém o monopólio das informações e controla o fluxo de como elas são liberadas e a questão da exclusividade. Alguns veículos com menor relevância no cenário global das comunicações podem se dar ao luxo de remar contra a maré, mas a grande mídia não consegue ficar de fora. Ela tem que entrar nesse jogo e isso significa se submeter à essa regra de disputar a exclusividade de informações de furos, de nomes, da nova acusação, do novo vídeo, do novo áudio, do novo papel — essa gincana é interminável. O monopólio impõe as regras, essa é a característica dos monopólios. E hoje nós temos um monopólio de informações por parte do Estado brasileiro, e uma imprensa dependente. Qual o resultado disso? Uma imprensa que não pode fazer outra coisa a não ser aceitar as regras.
ConJur – Como funciona essa dinâmica que move a imprensa?
Mario Rosa – A imprensa se tornou dependente de uma mecânica de muita adrenalina nas manchetes e nos telejornais. Em um momento de fragilização da audiência e de busca de alternativas para lidar com novos veículos, essa crise de escândalos políticos vem retardando um pouco a perda de influência relativa, que naturalmente seria mais acelerada. Todo dia parece que o fim do mundo vai acontecer e todo dia alguma revelação bombástica vai acontecer. Isso vem obscurecendo a realidade do país que é muito maior, muito mais ampla, muito mais complexa do que o noticiário policial da política. Nós conseguimos uma coisa notável: produzir telejornais mais engenhosos do que as telenovelas.
ConJur – No que se sustenta esse modo de atuar dos veículos jornalísticos?
Mario Rosa – Esse é um tipo de jornalismo que, economicamente, num momento de crise econômica dos veículos de comunicação, oferece uma alternativa que é imbatível. Custa zero para ser feito e atrai uma audiência gigantesca. A emissora não gasta nada para ter acesso a um depoimento de um delator, gasta zero para ter uma foto de R$ 51 milhões escondidos em um apartamento qualquer e não gasta nada para ter acesso a algum tipo de áudio.
ConJur – Mas, isso não foi sempre assim? O que é que tem de diferente agora?

Mario Rosa – Agora é uma produção industrializada. Nós estamos vendo uma pandemia de escândalos. Prova disso é que metade dos telejornais hoje é mostrando as denúncias e a outra metade é lendo as notas dos acusados. Virou um rádio. Só que é importante entender que o conteúdo é gratuito para os disseminadores, mas a sociedade paga isso.
ConJur – Então o tom do noticiário tem motivação econômica?
Mario Rosa – Se a cobertura da “lava jato” custasse R$ 5 milhões por dia, ela não seria feita. Alguns anos atrás, para produzir uma grande reportagem, era necessário deslocar um repórter, gastar com recursos, combustível passagem aérea, diárias para o cinegrafista, transmissão dos dados. Hoje tudo é dado de graça. Basta gravar uma passagem em um lugar próximo da emissora e editar. Está feito um VT de altíssimo impacto e talvez exclusivo, sem gastar nada. Como é que substitui um VT que pode ser bombástico e que não gasta nada por um outro que tem que gastar muito e que pode ter menos audiência? Então, os detentores desses conteúdos passaram a deter um monopólio de uma informação subsidiada ou praticamente gratuita, que pode ter impacto sobre a audiência das televisões e as manchetes dos jornais e num momento de fragilidade econômica, torna os veículos dependentes e quase que suseranos.
ConJur – A imprensa brasileira já atuou de forma diferente?
Mario Rosa – A imprensa dos anos 1970, que combateu a ditadura no Brasil, desconfiava do Estado. Fez um grande capítulo da história do jornalismo brasileiro justamente no enfrentamento e no questionamento, buscando as frestas. Inclusive grandes capítulos foram feitos naquele momento, com a publicação de receitas de bolo e toda aquela história que quem é do jornalismo conhece. Justamente nos pequenos enfrentamentos silenciosos, no dia a dia das redações em relação aos poderosos, vinha à tona aquela velha frase que “o jornalismo é feito para afligir os poderosos e dar poder aos aflitos”. Agora, em nome de combater a corrupção na política, a cobertura é absolutamente chapa branca. O jornalismo basicamente tem feito uma cobertura oficialista com base em documentos oficiais, gravações oficiais, vazamentos oficiais, offs oficiais.
ConJur – Não há mais investigação no jornalismo?
Mario Rosa – O jornalismo da “lava jato” é um jornalismo protocolado, com carimbo. Não podia ser mais lusitano, é um jornalismo cartorial, que vem com número de protocolo, que reproduz o discurso do Estado. Só que como a imprensa se preparou a duvidar do Estado quando o Estado era o Executivo, sobretudo durante a ditadura, ela parece que nunca desconfiou do Estado em sua face de Judiciário ou de Ministério Público.
ConJur – Qual o risco para a sociedade de um jornalismo feito dessa forma?
Mario Rosa – Amadurecer é sempre mais triste. Descobre-se que o Papai Noel não existe… Tem uma série de perdas, mas há outras recompensas. Esse jornalismo chapa branca que nós estamos vivendo, se tivesse sido praticado na época do delegado [Sérgio] Fleury [torturador da ditadura militar], teria conseguido vilanizar uma série de inocentes. Ele tentava emplacar que as mortes tinham ocorrido em trocas de tiros, mas as redações reagiam. Nós agora estamos vendo serem publicados os releases do delegado Fleury.
ConJur – Muito do noticiário é sobre delitos que realmente aconteceram. Mas também é noticiada muita cortina de fumaça, coisas que, de crime, não têm nada. Esse erro é consciente ou inconsciente?
Mario Rosa – Aqui temos que voltar ao monopólio. Quando todos querem comprar um determinado carro, a distribuidora fecha acordos de mandar 30 carros do modelo desejado para a concessionária, mas desde que o pacote inclua também quatro outros modelos que têm pouca saída. As reportagens vindas das fontes oficiais têm a mesma lógica. Como tem 30 matérias que são muito desejadas, isso abre margem para que seis fantasias, seis elucubrações, seis hipóteses, seis depravações, seis ilusões, sejam repassadas também. A imprensa, muitas vezes, ou não sabe distinguir uma coisa da outra, ou simplesmente entuba, porque não está fazendo jornalismo, mas agindo como mera distribuidora.
ConJur – Então a imprensa se fez refém?
Mario Rosa – O poder de barganha da concessionária com a indústria é muito pequeno. Na nossa conversa, a indústria são aqueles que produzem o conteúdo original, que são as gravações e os áudios e tudo. Então a imprensa tem que aceitar as regras da indústria e daí em diante tem que distribuir do jeito que ela pode. É nesse espaço que a cidadania vai ser afetada.
ConJur – E essa visão será sempre a predominante?
Mario Rosa – Acho que no futuro vai haver uma revisão. Se você chegasse em 1973 e começasse a falar para as pessoas que estavam acontecendo muitos abusos, que havia muita tortura, e que muita gente estava sofrendo, muitos estranhariam, mesmo sendo a visão que temos hoje daquele tempo. Tivemos o milagre econômico, mas novelas e filmes sempre retratam o período de uma forma tensa e triste, com as perseguições. Talvez a novela, daqui a 30 anos, não retrate esse ufanismo denuncista, mas sim as vidas destruídas por ele.
ConJur – Mas é uma fórmula de sucesso colocar na “força tarefa” a Polícia, o Ministério Público, o juiz e o jornalista. Acha que isso se esgota tão cedo?
Mario Rosa – Não, porque um quer a permanência do outro. Por isso que tem esse tabu de que não se pode mexer com a “lava jato”. Com todo o respeito aos membros da “lava jato”, que são pessoas admiráveis em todos os aspectos, mas se houver um terremoto em Curitiba, o Brasil vai voltar ao padrão africano de miséria moral? Nós dependemos de 20 pessoas? Temos muita gente no Ministério Público e muitos magistrados que estão prontos para assumir qualquer função e partir do ponto em que está e aprofundar.
ConJur – O protagonismo do Judiciário é um problema?
Mario Rosa – Acho que tem dois extremos. Têm profissões em que a fama revela muito. O jogador de futebol, quando não é famoso, é porque certamente não está fazendo alguma coisa direito. E o juiz, quando é famoso demais, certamente não está fazendo alguma coisa direito. O jogador é para ser muito famoso e juiz é para ser pouquíssimo famoso. Nós já tivemos um tempo em que os ministros da Fazenda eram muito famosos, já tivemos um tempo em que os ministros do Exército eram muito famosos. Hoje, ninguém sabe nem como é o rosto do ministro do Exército [Cafezinho: Rosa queria dizer ministro da Defesa], graças a Deus, e isso não é porque o ministro do Exército hoje seja ruim, é porque a democracia está boa. Então, quando nós começamos a ver juízes muito famosos, é porque nós estamos com algum tipo de falha no nosso sistema.
ConJur – O senhor tem como clientes pessoas que fizeram delações. Como é para o empresário esse processo de delatar?
Mario Rosa – Antes da “lava jato”, ele se reunia com autoridades do Estado para obter vantagens pessoais e empresariais em um ambiente onde não havia exatamente muita transparência e as regras não eram muito claras. Esse era o ambiente onde ele negociava com autoridades. No caso, pagando propina. Hoje, quando ele vai fazer uma colaboração, ele se senta com autoridades do Estado para obter vantagens pessoais e empresariais em um ambiente onde não há muita transparência e as regras não são muito claras. É a mesma coisa, só que agora, em vez de ele pagar propina, é exigido que faça gravações de vídeo e declarações. “Uns que pedem dinheiro, outros pedem vídeo”, eles pensam.
ConJur – A falta de critérios é um problema?
Mario Rosa – Não consigo — e acho que ninguém consegue — entender por que um fulano consegue tal benefício, com tal colaboração, pagando determinada multa. É tudo muito subjetivo. Não foi essa subjetividade que levou aos preços superfaturados, a contratos, a formação de cartéis, a tudo isso?
ConJur – Qual é a margem de manobra de uma pessoa que é pendurada nesse pau de arara da opinião pública, e que não encontra socorro nem no Judiciário e nem na imprensa?
Mario Rosa – A professora Lilia Moritz Schwarcz fez um livro maravilhoso chamado A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis. É sobre o esforço muito grande no meio da fuga de Lisboa, em 1808, para trazer a biblioteca real, que era um símbolo do conhecimento. Mas, ela começa o livro num determinado momento mostrando que no ano de 1750 Portugal foi o último país a abolir a inquisição. Narra os episódios de como, na época, em geral aos domingos, as pessoas iam com suas melhores roupas para a praça ver as pessoas serem queimadas. Somos herdeiros dessa espetacularização da destruição do alheio, e de uma sensação mista de prazer e de depuração, nós viemos disso, isso nos antecedeu.
ConJur – O prazer pela humilhação pública está maior do que a vontade de corrigir os problemas?
Mario Rosa – É importante notar que toda vez que houve uma mudança na tecnologia, houve uma mudança na ética. A agricultura acabou com o canibalismo, pois não era mais necessário devorar pessoas para se alimentar. Foi uma revolução na moral, pois se podia preservar o valor ético da vida, como consequência de um avanço tecnológico. Depois veio o James Watt [que inovou a máquina a vapor], que foi o verdadeiro libertador dos escravos. Começou a Revolução Industrial e foi criada a necessidade de pessoas livres para consumir. A Inglaterra começa então a coibir o tráfico negreiro. Então, a Revolução Industrial criou um ambiente propício à valorização do valor ético da liberdade. Neste momento, estamos vivendo uma revolução, que tem no seu epicentro a própria tecnologia. É evidente que estamos vivendo uma mudança de comportamento e de ética. Uma parte dessa pandemia de escândalos é que uma grande parte dos nossos líderes continuou se comportando, vamos dizer assim, com os condicionamentos analógicos. Somos a primeira geração a sair do analógico para o digital, não tivemos uma que nos antecedeu. As próximas vão aprender com os nossos erros. Os dados digitais nunca são privados e ainda estamos vendo qual ética se desenvolverá a partir disso.
ConJur – Por conta dessa guinada ética da opinião pública, os seus clientes passaram a chegar mais fragilizados?

Mario Rosa – Sim, pois a prisão muda tudo. Eu tive clientes que foram presos, já tive situações de assinar o contrato em um dia e o cliente ser preso dois dias depois. Tive situações também de conversões morais súbitas que me chamaram a atenção. Eu senti que meu primeiro cliente a fazer delação tinha “se convertido” quando ele falou: “Mário, a minha família ajudou a construir o Brasil durante 50 anos e, agora, nós vamos ajudar a construir por outros meios”. Pronto, estava totalmente coerente a incoerência que ele estava fazendo. Conseguiu uma justificativa moral e construiu a coerência da incoerência dele numa frase.
ConJur – E sua experiência de ter virado alvo de alguma ira da opinião pública?
Mario Rosa – Graças a Deus eu pude passar por um escândalo e ser vítima de uma execraçãozinha para poder também ter um pouco menos de arrogância e petulância que eu tinha no passado. Eu agradeço muito ao destino de eu ter podido ter tido esta oportunidade, para conseguir sintonizar essa frequência.

sábado, 14 de outubro de 2017

Jandira Feghali: O planejado bonde da insensatez

 
Foto: Francisco Proner


Grupos neofascistas, os mesmos que foram às ruas pedir o impeachment sem crime de Dilma e hoje apoiadores do presidente Temer, criaram um rendez-vous na tentativa de fazer os olhos da sociedade se distanciarem dos crimes do mandatário ilegítimo. Com a segunda denúncia batendo às portas do plenário da Câmara dos Deputados, os 14 milhões de desempregados e cortes brutais no orçamento de políticas sociais, o país todo se envolve numa discussão sobre censura.

Os que atacam a liberdade artística o fazem com argumentos distorcidos, moralistas e atrasados. Ao mesmo tempo em que defendem fervorosamente a moral e os bons costumes e chamam exposições de verdadeiros cultos à pedofilia, projetam líderes oportunistas e abraçam às escondidas o presidente mais rejeitado do Brasil. Chegam a compartilhar das ideias preconceituosas de um ex-ator pornô, que se gabou em plena rede aberta de televisão de violentar sexualmente uma mãe-de-santo. As contradições do bonde da insensatez não têm fim pois o oportunismo reina entre os paladinos da Justiça.

É cada vez mais comum ouvir pedidos de censura artística daqueles que se insurgem contra essas exposições. Na ótica desta minoria política míope, artistas que construíram novas óticas e reflexões sobre o mundo, não mais teriam lugar nos espaços culturais. Nus, imagens distorcidas e até a retratação fiel de uma realidade violenta não cabem na mentalidade daqueles que só enxergam o que lhes interessa politicamente.

Lutar em prol dos direitos das crianças, adolescentes e mulheres nada tem a ver com o que tem sido feito por estes grupos. A dignidade é reafirmada na liberdade. A pluralidade de valores da humanidade e da sua cultura precisam da liberdade de criação, da liberdade artística. Até porque defender a liberdade tem a ver com a defesa da educação crítica, de um mundo em que as crianças podem debater e discutir o que está a sua volta, sem tabus ou preconceitos. É desta forma que se constrói uma sociedade mais forte e potencialmente inovadora.

Daqui a pouco, a persistirem os brados inconsequentes, veremos uma turba raivosa queimar livros em praça pública, assistiremos teatros e palcos invadidos, artistas impedidos de se apresentarem, e até mesmo cinemas queimados, por colocarem em cartaz filmes que tratem de temas polêmicos e não condizentes com o Brasil submisso e alienado que pretendem alcançar. Em que momento nosso país, que já celebrou sua diversidade e riqueza cultural, se transformou em terra do preconceito e da hipocrisia? A resposta vem fácil. A onda de intolerância ganhou força a partir do momento em que nossa democracia foi ferida de morte. Vivemos mais uma etapa nefasta do golpe que parece não ter fim.

É hora de termos consciência dos efeitos do golpe e de como eles atingem de forma dramática o desenvolvimento pleno de toda uma geração. Crianças e adolescentes sem acesso à cultura e à educação. Um Brasil congelado e condenado a reviver um passado que nunca esperávamos ver ressuscitado. O horizonte só se abrirá e devolverá essas ideias ao esquecimento que merecem a partir do fortalecimento da democracia. E isso só acontecerá com a luta diária de todos nós para devolver ao povo o direito de escolher seu governante maior. Atravessemos, com coragem, a cortina de fumaça e expurguemos do poder, unidos, o ilegítimo grupo que lá está. Sem armadilhas e sem máscaras moralistas, o Brasil precisa avançar na defesa de sua liberdade.


*Jandira Feghali é édica, deputada federal (PCdoB/RJ) e vice-líder da Oposição
Fonte: Portal Vermelho

Moro dá 48 horas para defesa de Lula entregar recibos originais

 



“Os recibos deverão ser entregues na Secretaria deste Juízo e que os acautelará para submetê-los a perícia caso seja de fato deferida”, diz o juiz. 

A defesa de Lula tinha solicitado uma audiência formal para entregar os recibos, com a presença de um perito. O juiz, contudo, escreveu que é "desnecessária audiência formal para entrega ou a presença de perito".

O advogado do ex-presidente, Cristiano Zanin Martins, se disse surpreso com a decisão de Moro. "Surpreende a defesa o fato de o juiz não aceitar a realização de uma audiência para a entrega das vias originais dos recibos, atestando o estado em que os documentos serão apresentados para dar total transparência ao ato", disse o advogado em nota. 

"Temos interesse no reconhecimento de que os documentos são autênticos, como sempre afirmamos, e atendem a recomendação de entrega feita pelo próprio juiz na audiência de 13/09. Assim que formos intimados faremos a entrega dos recibos no prazo assinalado e com as cautelas cabíveis", completou Zanin.

O apartamento faz parte da denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF), que acusa Lula de receber propina da Odebrecht em decorrência de contratos entre a empresa e a Petrobras. 

Para os procuradores, o imóvel foi comprado por Glaucos da Costamarques, a pedido do pecuarista José Carlos Bumlai, também investigados na operação. O ex-presidente nega a acusação do MPF.


Fonte: JB e Brasil 247
C/ Portal Vermelho

Justiça tributária e maior gasto público são armas contra desigualdade

 



Entretanto, adverte, a discussão pública sobre tributação no Brasil está “enviesada para o lado errado”. Segundo ele, em geral os brasileiros veem o imposto como um vilão e resistem a discutir uma reforma. “Nós não deveríamos vilanizar o imposto, mas discutir a qualidade do gasto público e quem realmente paga a conta”, argumenta.

Além disso, pontua, um empecilho que tem dificultado o debate sobre a reforma tributária diz respeito aos confrontos de interesses dos governos estaduais. “Existem vencedores na guerra fiscal e eles não querem largar a ideia de terem controle sobre as alíquotas. (...) Então, esse conflito entre os diferentes agentes empurra o debate para um outro nível, o de rever o pacto federativo, ou seja, rever como se arrecadam e se redistribuem recursos no país para os entes da federação”, sugere na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line.

Na avaliação de Georges, uma reforma tributária que criasse novas alíquotas com base na arrecadação do imposto de renda seria fundamental para reduzir as desigualdades no país. “Essa perda de progressividade tem que ser corrigida e algumas saídas poderiam ser adotadas para isso, como tributar lucros e dividendos”. 

Somado a essa medida, frisa, “é necessário expandir o gasto social, mas essa discussão precisa se modernizar: o gasto tem que ser expandido, mas sua progressividade e sua qualidade devem aumentar. Também é necessário estabelecer mecanismos de transparência, de prestação de contas e de avaliação e, nesse sentido, tem que ser feito um debate sobre gestão pública, porque só colocar mais dinheiro no pote não resolve o problema”, conclui.

Rafael Georges é graduado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP, mestre em Ciência Política pela Universidade de Brasília - UnB, onde atualmente cursa o doutorado em Ciência Política. Foi coordenador de campanhas no Greenpeace, assessor parlamentar na Câmara Federal, assessor político na Oxfam Internacional. Atualmente é coordenador de campanhas da Oxfam Brasil.

Confira a entrevista:

IHU On-Line - Como foi feito o relatório da Oxfam intitulado “A distância que nos une. Um retrato das desigualdades brasileiras”, segundo o qual 5% das pessoas mais ricas do Brasil possuem a mesma fatia de renda que 95% da população? Como chegaram a esses dados?

Rafael Georges – A Oxfam fez um levantamento razoavelmente amplo de pesquisas que tratavam das desigualdades e definiu três campos para aprofundar a análise do relatório: desigualdade de renda, desigualdade de patrimônio e desigualdade ao acesso a serviços essenciais. Em relação ao primeiro campo, existem muito mais dados disponíveis e, por isso, exploramos mais o aspecto das desigualdades em relação à renda, lançando um olhar sobre como elas recaem de modo mais pesado sobre as mulheres e os negros. Essa abordagem resume a primeira parte do relatório. A segunda parte diz respeito a um olhar que lançamos sobre as políticas públicas e as desigualdades, ou seja, sobre quais são as políticas que aumentaram ou diminuíram as desigualdades ao longo das últimas décadas. Depois fizemos uma reflexão que conseguiu abordar temas chaves que fazem parte de um debate sobre soluções para tratar as desigualdades no país daqui para frente.

IHU On-Line – Considerando esses três indicadores analisados, em quais as desigualdades são mais expressivas?

Rafael Georges – A desigualdade é um fenômeno complexo e multifacetado. Selecionamos esses três indicadores para medir as desigualdades porque esses são comumente utilizados, mas existem outros que poderiam ser medidos. Existem desigualdades que não são ligadas somente à renda, ao patrimônio ou ao acesso a serviços essenciais. Existem desigualdades em relação à oferta de infraestrutura urbana, de acesso à cultura, de acesso ao lazer.

Globalmente costumamos fazer um informe anual na época do Fórum Econômico Mundial, em Davos, no qual fazemos um exercício de reflexão sobre as desigualdades econômicas, sobretudo as desigualdades de patrimônio, que são apresentadas pelos famosos dados de que oito pessoas no mundo têm o mesmo patrimônio da metade da população mundial. No Brasil, achamos prudente fazer a mesma análise.

IHU On-Line - Por que as desigualdades recaem mais sobre estes dois grupos - mulheres e negros? A que fatores associam isso?

Rafael Georges – Os dados mostram que tanto a população negra quanto as mulheres ao longo das últimas décadas aumentaram sua inserção na economia, seja porque entraram na economia formal, seja porque a renda geral deles aumentou, ou ainda por outros fatores. O fato é que esses grupos estão mais presentes na economia e houve uma redução das desigualdades nesse aspecto.

Entretanto, o ritmo de inserção deles na economia ainda é muito baixo, e os negros e mulheres têm enfrentado barreiras muito difíceis. As mulheres, individualmente, enfrentam desafios pessoais, e quando consideramos o coletivo, observamos que existem barreiras sociais para o crescimento das mulheres. O fato de elas serem empurradas para o trabalho reprodutivo é um deles. A mulher em geral é a pessoa que cuida dos filhos, da casa, dos idosos, e esse tipo de trabalho ocupa espaço na agenda dela. Esse papel social que é dado à mulher faz com que ela tenha limites no seu crescimento profissional. Um dos efeitos disso é o não crescimento da renda das mulheres.

A situação da população negra está relacionada a esse tipo de barreira, mas também existem outras, como o racismo, que é praticado no dia a dia. Isso aparece no momento em que se selecionam pessoas para trabalhar em empresas, nas dificuldades que elas têm para chegar a cargos de lideranças. A outra barreira que recai sobre os negros é o acesso à educação geral. Como existe uma correlação entre baixa renda e a população negra, existe uma massa de pessoas que não consegue ter acesso à educação e isso impacta na renda. Então, a desigualdade recai mais sobre esses grupos, porque eles estão na base da distribuição de renda.

IHU On-Line - Nos últimos anos se comemorou a redução da pobreza e das desigualdades no país, principalmente ao se considerar dados como o aumento do salário mínimo, o aumento do emprego formal e o ingresso de mais pessoas nas universidades. Entretanto, recentemente alguns pesquisadores que utilizam como base de dados as informações do Imposto de Renda afirmaram que as desigualdades sociais não foram reduzidas nos últimos 15 anos. Analisando em retrospectiva, que avaliação você faz das políticas públicas adotadas no país nos últimos anos para enfrentar as desigualdades? Quais foram os pontos positivos das políticas e quais seus limites para tratar essa questão?

Rafael Georges – Nós incorporamos alguns dados desse estudo do Marc Morgan no nosso relatório. Esses estudos que utilizam dados tributários para analisar as desigualdades são muito interessantes. Os dados apresentados não são novos, porque quando o estudo foi publicado, alguns pesquisadores do Ipea já haviam feito análises e demonstrado que existia uma espécie de estabilidade nas desigualdades de renda no Brasil. De todo modo, esses estudos são um passo largo para entender as desigualdades no país. Entretanto, não podemos comprar o discurso fácil de que nada mudou, porque muita coisa mudou. Se uma pessoa se teletransportasse para o final dos anos 90 e para o final dos anos 2000, ela perceberia uma mudança grande no país. Então, os números sozinhos não dizem tudo.

Agora, existe um dado pessimista e um dado otimista vindo, particularmente, desse estudo mais recente. O dado otimista é que houve uma certa redistribuição de renda dentro da massa dos brasileiros da classe média e da classe baixa. Então, houve redução das desigualdades em relação à renda do trabalho e isso é bom. Por outro lado, existe uma elite que continuou ganhando as maiores parcelas da renda nacional, e isso ocorreu, segundo as análises que tratam das desigualdades, porque o nível educacional ainda está concentrado numa elite muito pequena. 

Além disso, trabalha-se com a hipótese de que patrimônio gera renda, então, como o patrimônio no país é muito concentrado, há uma elite que detém a maior parte do patrimônio e que consegue gerar renda a partir desse patrimônio, sem gerar renda a partir do trabalho. Por fim, e talvez esta seja a hipótese mais importante, existe uma elite da elite que ganha uma renda não tributada, que é a renda do capital, como os grandes empresários. Trata-se de uma minoria no país, a qual detém uma renda que é muito maior do que a renda vinda do trabalho.

O que deu certo é que o Brasil reduziu a pobreza drasticamente nas duas últimas décadas e houve também uma expansão do gasto público. Essa sempre foi uma bandeira que todos defenderam e não temos que ter vergonha de defendê-la, porque o Estado tem que ter capacidade de investir em saúde, educação, creche, assistência social. O gasto público no país aumentou significativamente por conta do aumento do investimento em assistência social e o programa Bolsa Família se expandiu na década de 2000 e atingiu em cheio a pobreza. 

Além disso, houve um crescimento da previdência pública no país, e um pouco de investimento na educação, mas a saúde ficou estagnada. No caso da previdência, ela é progressiva e redistribui renda, apesar de que ela poderia distribuir muito mais. Existe um regime próprio da previdência para servidores que é concentrador de renda, porque há poucas pessoas que concentram a maior parte dos benefícios previdenciários. Mas o regime geral do INSS, que atinge os trabalhadores em geral, é progressivo e chega mais em quem mais precisa.

De outro lado, o que não deu certo na tentativa de reduzir as desigualdades foi a política tributária, porque ela é regressiva, ou seja, concentra renda ao invés de distribuí-la, e cobra mais dos mais pobres e menos dos mais ricos. No Brasil, quem financia o Estado são a classe média e os mais pobres, que são justamente os maiores interessados em se beneficiar do Estado, mas não há redistribuição. Então, como os mais pobres são os mais penalizados, há um aumento das desigualdades.

Além disso, o sistema político precisa ser repensado não sob a ótica que tem sido colocada hoje, mas sob a ótica de fazer a democracia reconquistar corações e mentes no Brasil e fazer com que as pessoas confiem de novo nas instituições. Esse é um debate fundamental, porque o modo como a corrupção vem aparecendo no noticiário, em ritmo diário, fez as pessoas perderem a confiança de que o Estado e a democracia são instituições capazes de reduzir as desigualdades. Mas essas são as únicas esperanças, porque a experiência histórica mostra que se não tivermos um Estado forte, participativo, transparente, não conseguiremos redistribuir renda e reduzir as desigualdades.

IHU On-Line - Um dos tópicos do relatório da Oxfam trata justamente sobre a importância do gasto social para reduzir as desigualdades. Acerca disso, quais devem ser as implicações da PEC do teto do gasto no enfrentamento das desigualdades?

O Brasil não se encontra num estágio em que os gastos sociais estejam em um nível altíssimo
Rafael Georges – Existem projeções que foram feitas por pesquisadores em relação a quanto o Estado deve deixar de arrecadar. A Oxfam ainda não fez nenhuma projeção sobre isso, mas vemos com preocupação o fato de que o Brasil não se encontra num estágio em que os gastos sociais estejam em um nível altíssimo. Talvez, comparativamente aos demais países da América Latina, sim, mas se compararmos com os países nos quais gostaríamos de nos espelhar, que têm um estado de bem–estar funcional, nossos gastos sociais estão bastante abaixo do esperado. O gasto em saúde, por exemplo, se manteve estagnado nos últimos anos.

É necessário expandir o gasto social, mas essa discussão precisa se modernizar: o gasto tem que ser expandido, mas sua progressividade e sua qualidade devem aumentar. Também é necessário estabelecer mecanismos de transparência, de prestação de contas e de avaliação e, nesse sentido, tem que ser feito um debate sobre gestão pública, porque só colocar mais dinheiro no pote não resolve o problema.

IHU On-Line - Qual é o peso do mercado de trabalho na superação das desigualdades? No Brasil o mercado de trabalho cresceu nos últimos anos, mas isso ocorreu especialmente no setor de serviços, que tem os piores salários.

Rafael Georges – Nas duas últimas décadas, o Brasil aumentou a formalização do trabalho e também o salário mínimo, e hoje muitos empregos formais são atrelados ao salário mínimo. Então, quando se aumenta o salário mínimo se aumenta a renda geral de quem ganha pouco, que é a maioria da população. Essas políticas, junto com o combate ao desemprego e o controle da inflação, tiveram um papel decisivo para explicar a queda das desigualdades de renda do trabalho ao longo dos anos 2000. Realmente, o mercado de trabalho tem um peso enorme na redistribuição de renda.

Um cálculo da ONU, que mencionamos no relatório da Oxfam, mostra que o mercado de trabalho resolve muito mais as questões de desigualdade do que os programas de transferência de renda. Esse certamente já é um ponto pacífico. Os problemas sociais resolvem muito mais as questões relacionadas à pobreza do que as relacionadas às desigualdades. O problema é que num contexto de crise, se dependermos somente do mercado de trabalho e do nível de emprego de um país, as variações possíveis no mercado podem jogar muitas pessoas na pobreza. Então, quando há uma crise e um Estado forte, é possível estabelecer uma proteção para não arremessar as pessoas de volta para a linha da pobreza. Isso é importante no combate às desigualdades de modo mais estrutural. Por isso, é importante ter políticas de mercado, políticas trabalhistas fortes, garantir direitos, garantir ofertas de trabalho decentes.

Se tivermos políticas sociais fortes, é possível rapidamente reduzir as desigualdades. Mas, junto com as políticas trabalhistas, precisam ser desenvolvidos outros tipos de políticas, mais estruturantes do ponto de vista das desigualdades.

IHU On-Line - Alguns teóricos têm sugerido novamente a instituição de uma renda mínima para enfrentar possíveis problemas futuros em relação ao mercado de trabalho e às desigualdades. Como vê esse tipo de proposta para o Brasil?

Rafael Georges – Eu me pergunto se renda mínima, num país que tem tanta concentração, resolve o problema das desigualdades. Certamente pode resolver a situação de não ter pessoas mergulhadas na pobreza e mantém uma sociedade com capacidade de compra, porque do contrário, se mata o poder de consumo das sociedades. Mas a discussão da redução das desigualdades não pode ser reduzida a isso; a renda mínima é um conceito excelente, mas temos que ampliar os horizontes do debate, pensando numa sociedade mais solidária e redistributiva.

IHU On-Line - Muitos sociólogos e economistas afirmam que uma reforma tributária poderia resolver parte dos problemas brasileiros relacionados às desigualdades. Que modelo tributário deveria ser adotado tendo em vista a realidade brasileira?

Rafael Georges – Não vou dar conta de todos os pontos, mas no nosso relatório apontamos algumas mudanças que seriam bem-vindas no sistema tributário brasileiro. A primeira delas seria aquela relacionada ao aumento da progressividade do imposto de renda, porque o imposto de renda hoje cobra mais de quem ganha até determinado patamar, mas a partir da linha dos 20 salários mínimos, começa uma trajetória de queda de quanto efetivamente se paga de imposto. Então, de 20 salários mínimos em diante, menos imposto se paga. 

Além disso, quem ganha 80 salários recebe uma isenção média de 66% de tudo que ganha de renda. Essa perda de progressividade tem que ser corrigida e algumas saídas poderiam ser adotadas para isso, como tributar lucros e dividendos. Essa medida seria uma equiparação com o que se pratica em outros lugares do mundo. O Brasil é um dos poucos países que praticam esse tipo de isenção sobre lucros e dividendos.

O segundo ponto poderia ser endereçado – e esse governo até tentou fazer isso, mas depois recuou – ao aumento da alíquota máxima do imposto de renda, mas criando novas bandas. Ou seja, uma pessoa que ganha a partir de 4.600 reais paga 27,5% de imposto, independentemente de ela ter um salário de 4.600 reais ou rendimentos mensais de até 400 mil reais. Então, seria importante criar novas faixas de tributação e aumentar a faixa para quem recebe salários maiores. Essa seria uma medida importante para corrigir uma distorção que joga contra a capacidade redistributiva do sistema tributário.

Outras medidas que defendemos estão relacionadas à redistribuição da carga tributária, aumentando os impostos diretos e reduzindo os indiretos, ou seja, os que recaem sobre os produtos e serviços e são repassados para a população, como o imposto que está embutido em qualquer produto que compramos. Ricos, classe média e pobres compram refrigerantes, medicamentos e outros produtos, e todos pagam o mesmo imposto, mas ele recai de maneira diferente no bolso do mais rico, da classe média e do mais pobre. As pessoas mais pobres gastam mais a sua renda com impostos, então é preciso reduzir a carga tributária dos mais pobres e da classe média. A classe média paga muito imposto no Brasil; isso é algo que temos que sublinhar, e ela tem razão de estar insatisfeita.

IHU On-Line - Quais são as dificuldades e empecilhos de discutir um novo tipo de tributação no país?

Rafael Georges – Existe uma discussão pública que está enviesada para o lado errado: no Brasil se vilaniza imposto e esse não é um privilégio nosso, mas no país existe uma resistência a se discutir imposto, como se ele em si fosse algo ruim. O imposto é simplesmente a forma que financia o Estado que está aí para oferecer serviços. Nós não deveríamos vilanizar o imposto, mas discutir a qualidade do gasto público e quem realmente paga a conta. No Brasil, como existe uma resistência grande sobre tributos em geral, não conseguimos entrar nessa discussão.

Um dos maiores empecilhos para que se emplaquem reformas tributárias justas é o fato de que as pessoas não querem falar de tributos. Claro que em alguma medida elas não estão erradas, porque em geral as camadas mais baixas e a classe média – e falo de uma classe média larga, que são os 91% que têm renda de até 15 mil reais per capita – pagam muito imposto, seja na renda ou nos serviços, e existe um topo no país que concentra quase 1/3, ou seja, 1% concentra 28% da renda nacional, que praticamente não paga impostos.

Outro empecilho está no fato de que o sistema tributário é altamente complexo, com vários atores que têm interesses que se confrontam. Por exemplo, historicamente, qual é o papel que os governos estaduais têm tido nessas discussões? São papéis difusos e que não se encontram na tentativa de se unificar em torno da reforma de um grande imposto de valor agregado, porque muitos se beneficiam de incentivos que eles têm poder de gerar reduzindo o ICMS nos estados. 

Existem vencedores na guerra fiscal e eles não querem largar a ideia de terem controle sobre as alíquotas. Os municípios também se apoiam muito no ISS. Então, esse conflito entre os diferentes agentes empurra o debate para um outro nível, o de rever o pacto federativo, ou seja, rever como se arrecadam e se redistribuem recursos no país para os entes da federação. Por ser uma discussão muito grande, em geral ela não tem logrado passar por grandes mudanças, mas se quisermos dar um salto, é preciso encarar o tema da reforma tributária e destrinchar o emaranhado de interesses conflitantes para podermos gerar um sistema justo, porque hoje o sistema prejudica mais gente do que beneficia.

IHU On-Line - Como esse debate sobre as desigualdades e tributação tem sido feito no cenário político? Alguma proposta em tramitação no Congresso tem lhe chamado atenção? Algum partido tem levantado essa questão com propostas efetivas?

Rafael Georges – Existem vários projetos de lei sobre tributação e políticas fiscais em geral tramitando na Câmara, mas precisamos tirar essa discussão do âmbito técnico e jogá-la para a sociedade. Claro que o sistema tributário não é simples e precisa de especialistas para fazer a engenharia necessária para que se possa ter um sistema funcional. Mas a discussão é essencialmente política, é uma discussão sobre quem paga a conta do Estado e sobre quem se beneficia dos gastos públicos. Essa discussão tem que ser traduzida.

A Oxfam não tem a pretensão de ser o grande porta-voz desse debate, mas estamos contribuindo e tentando publicizar um tema que precisa chegar à casa das famílias. Essa discussão é mais comum em outros países, mas no Brasil as pessoas precisam perder o medo de discutir tributação, porque enquanto elas tiverem medo, quem ganha são os super-ricos.

Diferentes governos de diferentes partidos tentaram reformas tributárias e não conseguiram. Acho que, para além da eleição, temos que trazer esse debate para o dia a dia, porque essa tem que ser uma agenda de debate público constante. A reforma tributária no Brasil será um grande desafio, tal como a reforma política, que são as mais importantes que temos para fazer.


 Fonte: IHU