ELEIÇÕES 2022: MOVIMENTO 65

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CAMPANHA MOVIMENTO 65

terça-feira, 27 de junho de 2017

BRASIL: Enquanto o povo quer diretas, Fiesp quer manter Temer e fazer reformas

Depois do financiar o impeachment, Fiesp tenta manter Temer e garantir reformas



Nesta segunda (26), Temer disse durante solenidade no Palácio do Planalto que nada nem “ninguém o destruirá”. Já o presidente da Caixa, Gilberto Occhi, endossou o coro afirmando que o Brasil precisa de tranquilidade neste momento, pois para ele, “falta pouco para o governo acabar”.

Ao que tudo indica, essa é a tese que Temer está vendendo aos seus aliados para permanecer no governo. Segundo Occhi, “o Brasil precisa de um pouco de tranquilidade”.

“Tranquilidade da população, do Judiciário, do Ministério Público, de todo mundo”, completou ele. A estratégia dos aliados do governo é dizer que Temer é a única alternativa e, portanto, mesmo sem moral e sem o apoio popular para permanecer no governo, não há outra saída.

Essa é a tese comprada pelo presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, que disse que o empresariado prefere continuar com Michel Temer no Palácio do Planalto, mesmo após as acusações de corrupção levantadas pela delação de Joesley Batista, da JBS.

“O processo de escolha de um novo governo demoraria meses, até o final deste ano, para depois no ano que vem já termos campanha para as eleições”, disse Andrade. A entidade foi uma das responsáveis pela campanha em defesa do impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

Ele disse ainda que os empresários não querem mais “turbulência” e que “é melhor seguir e fazer a transição no país”. Apesar dos 14 milhões e desempregados e do desaquecimento da indústria, Andrade diz que a economia se descolou da crise política.

Enquanto tenta desarmar a campanha pelo Fora Temer e Diretas Já, os empresários – principais fiadores do golpe contra a democracia – tentam armar uma forma de emplacar a reforma política que atende aos seus interesses.

A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), dirigida por Paulo Skaf (PMDB-SP), realizou seminário com a presença dos presidentes do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o senador e relator da reforma política no Senado, Ricardo Ferraço (PSDB-ES), além de especialistas para discutir a reforma política.

Às vésperas do impeachment, a Fiesp lançou a campanha “Não vou pagar o pato”, espalhando pato inflável pelo país sob o falso pretexto de campanha contra o aumento de impostos que serviu apenas para insuflar a campanha de ódio contra Dilma e financiar o golpe.

Efetivado o impeachment, Temer seguiu a cartilha dos setores empresariais mais conservadores e impôs uma agenda de retrocessos com congelamento dos investimentos públicos, entrega do patrimônio nacional – principalmente da Petrobras – e o envio das reformas trabalhista e previdenciária, que retiram direitos dos trabalhadores.

Agora, a Fiesp, que defende o financiamento empresarial de campanhas eleitorais – principal causa da crise no sistema eleitoral que deu origem à Operação Lava Jato –, quer demonstrar o seu descontentamento com o ambiente político e puxa o coro, não pelas eleições diretas para o povo decidir, mas da “Reforma Política Já”.

Os patrões reclamam por mudanças no tamanho e no financiamento de campanhas eleitorais, do custo de manutenção do Congresso e mudanças de processo de eleição, como a cláusula de barreira, o voto obrigatório e as coligações.

“Ninguém mais duvida que o sistema político brasileiro precise mudar profundamente. Esse sistema está na raiz das crises a que temos assistido, indignados, e que têm paralisado o país, atrapalhado a retomada do crescimento e a volta dos empregos”, diz a nota do grupo presidido por Paulo Skaf.


Do Portal Vermelho, Dayane Santos com informações de agências

domingo, 25 de junho de 2017

Dois lançamentos editoriais celebram cem anos da Revolução Russa

LENIN


“Lênin – presença da revolução” e “Lênin, leitor de Marx” são duas novas publicações da Editora Anita Garibaldi celebrando o Centenário da Revolução Russa. O lançamento dos livros ocorrerá na sede nacional do PCdoB, no dia 7 de julho, das 14h30 às 17h. Leia abaixo a apresentação dos dois novos livros.

Lenin – leitor de Marx – dialética e determinismo na história do movimento operário, Gianni Frezu

Lênin leitor de Marx, fruto da tese de doutorado de Gianni Fresu, originalmente publicada na Itália, não apenas resgata o pensamento de Lênin dos porões da propaganda reacionária, mas, a partir da imersão numa complexa teia de conexões teóricas e políticas, lança luz sobre a intrincada história do movimento socialista e sobre a recepção do pensamento de Marx e Engels no final do século XIX e início do século XX. Este quadro histórico e político possui o mérito de mostrar ao leitor, sobretudo, que a tradição marxista e o movimento socialista, longe serem de homogêneos e unívocos como frequentemente leituras vulgarizadas os apresentam, estiveram sempre permeados por grandes disputas teóricas e desafiadores problemas políticos para os quais buscou-se dar respostas a altura de sua importância histórica. Contudo, o fio vermelho que percorre toda a obra diz respeito à dialética hegeliana como divisor de águas, isto é, a contribuição de Hegel e de sua lógica da contradição como elemento fundamental – que aqui encontra em Lênin seu vigoroso intérprete – para distinguir e criticar as leituras mecanicistas, dogmáticas, que vicejaram, nomeadamente, durante os anos da II Internacional. A tese central da obra sustenta, portanto, que Lênin teria chegado a Hegel por meio da leitura do pensamento de K. Marx e de F. Engels e que este percurso teve como consequência a “completa superação do determinismo positivista da II Internacional”.

O professor Marcos Aurélio da Silva (UFSC), prefaciador do livro de Fresu, o livro cumpre um papel importante no combate ideológico. A esquerda nas últimas décadas sofreu uma derrota cultural, em que seus autores mais brilhantes, como Gramsci e Lênin, foram taxados de dogmáticos e messiânicos, para serem escanteados. “Como um homem da estatura intelectual e política do Lênin, é transformado num demônio do Século XX. Há uma grande distorção e o livro cumpre um papel excelente nessa luta de ideias”.

Conforme destaca Marcos, Fresu destaca a força do pensamento dialético de Lênin contrapondo aquele movimento de surgimento da 3a Internacional, em que ele supera as limitações deterministas e gradualistas da 2a Internacional. A força do trabalho de Fresu, segundo ele, é desmanchar a ideia dos círculos liberais que se aproximam de Gramsci, mas buscam passar a ideia de que Gramsci não tem nada a ver com Lênin, nem com a 3a. Internacional ou o movimento comunista.

Para Marcos, outro ponto importante da obra é a elaboração sobre aliança de classes. “Uma vez que Lênin é o precursor da ideia de hegemonia do Gramsci, ao contrário do que muitos buscam sustentar, a questão da aliança de classes, tal como Lênin em vários momentos da história soviética não apenas teorizou, como também experimentou, com a aliança operário-camponesa, este é um ponto que, de alguma forma, toca na realidade atual”, destacou ele.

Com o predomínio do modelo ocidental, após o fracasso do bloco socialista no Leste Europeu, a liquidação da herança teórica de Lenin passa a ser uma tarefa seguida com obstinação por grande parte do mundo político, acadêmico e cultural. Assim, entre a maioria dos historiadores do pensamento político, sociólogos, cientistas políticos, economistas ou simples jornalistas, prevalece a tendência de representar sumariamente Lenin como um “doutrinário” rígido e dogmático, que tinha a obsessão de abrigar a realidade numa camisa de força.

O “drama do comunismo” seria, então, o resultado do fundamentalismo ideológico de Lênin e de sua pretensão de fazer nascer uma nova ordem a fórceps. O século XX tem sido descrito como o século dos horrores, das ditaduras e, nessa leitura apocalíptica, Lenin é representado como a origem do pecado, o diabo responsável pelas desgraças e os lutos de um século ensanguentado, incluído aí o fascismo. Por isso, uma das suas elaborações mais conhecidas, o imperialismo, tem sido combatida com tanta violência.

Fonte: www.brasilcultura.com.b

"O Pará vive um caos fundiário", afirma dirigente do MST




Ele contou que há cerca de 160 acampamentos do MST na Amazônia, região historicamente marcada por massacres como em Eldorado dos Carajás, que há 20 anos vitimou 19 trabalhadores rurais. Ele enfatizou o mais recente, em Pau D'arco, quando, dez pessoas foram brutalmente assassinadas em maio deste ano. As polícias civil e militar foram as responsáveis pela promoção dos assassinatos.

Na região, a atuação da organização se assemelha a de uma guarda dos fazendeiros locais, garantindo a integridade de sua propriedade e promovendo ações violentas contra os acampados.

Manaças enfatizou que é necessário que a sociedade civil se solidarize e auxilie para que essas violências ganhem visibilidade.

Ele ressaltou ainda que o alto índice de violência na região se deve ao fato de que não há reforma agrária. "O que ampara essas ações de violência no campo é o verdadeiro caos fundiário do local", enfatizou o militante. 

O apelo do dirigente foi o de que a população se engaje na causa da garantia dos direitos dos que estão envolvidos na luta pela reforma agrária. "O movimento social é o olho crítico da sociedade", completou Manaças.

Para ele, o quadro se agravou após a posse do presidente golpista Michel Temer, quando "houve um golpe simultâneo na vida do cidadão brasileiro". Manaças se refere ao congelamento dos gastos públicos e às reformas trabalhista e previdenciária.

Ele finalizou sua fala fazendo um apelo para que a população se mobilize ante esses retrocessos.


 


 Fonte: Brasil de Fato

ECONOMIA: Reter FGTS e multa é confisco, perversidade e assalto, dizem centrais

 


A ideia de reter parte do saque do FGTS e da multa de 40% a que os trabalhadores demitidos sem justa causa têm direito é rechaçada por centrais sindicais. As entidades levar o risco a suas agendas de mobilização contra a retirada de direitos e avaliam também ações judiciais caso o governo leve a intenção adiante. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, confirmou nesta sexta-feira (23), que a medida está sendo estudada pela equipe econômica.

“É uma das maiores perversidades do governo ilegítimo e golpista de Temer. Esse dinheiro não é do governo. É dos trabalhadores. Um país com mais de 14 milhões de desempregados tem de pensar em formas de geração de emprego e renda, de proteção ao trabalhador no momento em que este está mais desesperado e, não, confiscar o FGTS”, afirma a CUT, em nota. “A CUT tomará todas as medidas de mobilização e legais cabíveis para impedir este novo assalto a um direito do trabalhador.”

A Força Sindical também divulgou comunicado em que afirma considerar a medida estudada pela área econômica “um verdadeiro confisco” e que a central pretende entrar com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) “contra esta nefasta medida”. A entidade aponta para “uma clara falta de sensibilidade social por parte dos tecnocratas do Ministério”. 


Fonte: Rede Brasil Atual

sábado, 24 de junho de 2017

MOVIMENTOS: Centrais: Fórum das entidades confirma dia 30 com greve e paralisações



Confira abaixo a nota das centrais sindicais:

23 de junho de 2017, São Paulo, SP

DIA 30 DE JUNHO - VAMOS PARAR O BRASIL CONTRA A REFORMA TRABALHISTA, EM DEFESA DOS DIREITOS E DA APOSENTADORIA

As Centrais Sindicais têm acompanhado cotidianamente os desdobramentos da crise econômica, política e social, bem como a mais ampla e profunda tentativa de retirada dos direitos dos trabalhadores, através da tramitação das Reformas Trabalhista e da Previdência no Congresso Nacional.

A ação unitária das Centrais Sindicais tem resultado em uma grande mobilização em todos os cantos do país, como vimos nos dias 08 de março, 15 de março, na Greve Geral de 28 de abril e no Ocupa Brasília em 24 de maio. Como resultado do amplo debate com a sociedade e das mobilizações, conseguimos frear a tramitação da Reforma da Previdência e tivemos uma primeira vitória na Reforma trabalhista, com a reprovação na CAS (Comissão de Assuntos Econômicos do Senado).

Mas ainda não enterramos essas duas reformas, e por esse motivo, continuamos em luta. Nesse contexto, as Centrais Sindicais reunidas no dia de hoje conclamam todas as entidades de trabalhadores a construir o dia 30 de junho de 2017 e o seguinte calendário de luta:

• 27 de junho: audiência dos Presidentes das Centrais Sindicais no Senado;
• 27 a 29 de junho: atividades nos aeroportos, nas bases dos senadores e no senado federal;
• 30 de junho: Vamos parar o Brasil contra a reforma trabalhista, em defesa dos direitos e da aposentadoria.
• No dia da Votação da Reforma Trabalhista no Senado: mobilização em Brasília

Estamos certos de que a unidade de ação é crucial na luta sindical sobretudo em momentos conturbados como o que atravessamos.

CGTB – Central Geral dos Trabalhadores do Brasil 
CSB – Central dos Sindicatos Brasileiros 
CSP Conlutas – Central Sindical e Popular 
CTB – Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil 
CUT – Central Única dos Trabalhares
Força Sindical 
Intersindical – Central da Classe Trabalhadora 
NCST – Nova Central Sindical de Trabalhadores 
UGT – União Geral dos Trabalhadores 


Do Portal Vermelho

ECONOMIA: Temer quer enfraquecer a Caixa e abrir espaço aos bancos privados

 
Foto: CTB


Instituições com atuação fundamental na economia, os bancos públicos são alvo de uma política que visa desvalorizá-los, desde os primeiros dias do governo Michel Temer. Na Caixa, o desmonte se traduz na redução do número de funcionários, diminuição da rede e saída da instituição de alguns nichos de mercado. 

“O projeto do governo é enfraquecer a Caixa e ir reduzindo seu papel no sistema financeiro nacional, de forma a abrir espaço para os bancos privados. E, uma vez enfraquecida, partir para um processo de privatização”, diz Emanoel Souza, presidente da Federação dos Bancários da Bahia e Sergipe (Feebbase). 

De acordo com ele, por meio de planos de demissão e aposentadoria voluntárias, mais de 10 mil empregados já deixaram a Caixa no último ano, sem que as vagas deixadas por eles fossem preenchidas. 

A redução no quadro funcional, além de inviabilizar o bom funcionamento de algumas agências, tem criado uma sobrecarga de trabalho para aqueles que ficam. “E obviamente há uma redução no padrão de atendimento à clientela, o que acaba afetando a imagem da Caixa perante a população”, afirma Souza. Segundo ele, há ainda um plano de fechamento de 342 agências pelo Brasil.

Além disso, algumas áreas da instituição já começaram a ser entregues à iniciativa privada. Hoje, o setor de seguros – Caixa Seguros – já tem como sócia majoritária a francesa CNP Assurance. E a atual gestão já anunciou a intenção de vender a Lotex, braço de loteria instantânea da Caixa – as conhecidas raspadinhas.

A Caixa também suspendeu novas contratações de crédito imobiliário com recursos do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), a linha Pró-Cotista, que era a linha mais barata depois do Minha Casa, Minha Vida. 

“Do tamanho que a Caixa é hoje, não há como privatizá-la, chegar agora e colocar a Caixa à venda no mercado, porque ninguém tem dinheiro para comprar. O que eles vão fazer é abrir espaços, tirar a Caixa de alguns nichos de mercado - do filé -, para que esses espaços sejam ocupados pelos bancos privados”, aponta o presidente da Feebbase.

Ele compara a gestão atual com aquela da época dos governos do PT. “Se você enfraquece o banco, ele começa a não disputar mercado. Vai começar a dar prejuízo e aí é o velho discurso neoliberal: o que é estatal dá prejuízo. Mas a Caixa, durante os governos Lula e Dilma, ampliou sua rede, aumentou número de funcionários, aplicou as políticas sociais e deu lucro”, defende.

Souza destaca a decisão da ex-presidenta Dilma Rousseff, que no primeiro mandato decidiu utilizar os bancos públicos para diminuir o spread das instituições financeiras. “O Banco do Brasil disse que não podia reduzir por que tem acionistas privados minoritários. Mas a Caixa foi lá e fez e o Banco do Brasil teve que ir atrás, para não perder concorrência. Logo os bancos privados também tiveram que reduzir o spread, ou perderiam clientes. E o crédito ficou mais barato, com efeitos positivos sobre a economia”, recorda. 

Ele sublinha que a importância da Caixa e dos demais bancos públicos. “Eles são fundamentais para que o Estado brasileiro possa ter algum nível de influência no mercado financeiro nacional. O enfraquecimento dessas instituições e consequente privatização libera para o vale-tudo dos bancos privados no mercado”, critica. 

Emanoel Souza lembra ainda que houve movimentações do governo no sentido de abrir o capital da Caixa, resgatando um projeto antigo, algo que foi barrado com uma forte articulação. 

“Nossa reação tem sido intensa. Criamos a Frente em Defesa das Estatais; tivemos este mês o lançamento da Frente Parlamentar em defesa dos Bancos Públicos e há mais de um ano temos a campanha ‘Se é público, é para todos’, com o intuito de ressaltar que Caixa é um banco público, 100% estatal, que precisa se manter com força e competitividade no mercado e ser uma ferramenta para viabilização das políticas sociais do Estado”, diz. 

O sindicalista explica que o papel da Frente Parlamentar em Defesa dos Bancos Públicos é colocar em discussão a importância de manter os bancos públicos com capacidade de influência no sistema financeiro nacional. “Sem os bancos públicos não é possível um projeto de nação”, defende.

“O principal é que o conjunto dos bancos públicos permite fazer o crédito dirigido – seja para a habitação, para a agricultura familiar ou para políticas industriais – ou seja, é a ferramenta que o Estado tem para intervir na economia. Se a ideia é fornecer crédito para a indústria de placas solares com juros menores, o Bradesco vai querer fazer? Não. Mas quando a Caixa começa a fazer, o Bradesco vai ter que fazer também, é a concorrência. Então é um instrumento importante”, exemplifica. 


Por Joana Rozowykwiat, do Portal Vermelho

"Temer é uma catástrofe diplomática", diz professor da UFRJ



A recente viagem do presidente Michel Temer à Rússia e à Noruega evidenciou os problemas do Brasil no cenário internacional. O mal-estar diplomático teve início com um considerável erro, antes mesmo do embarque do peemedebista, quando o Palácio do Planalto anunciou, na agenda presidencial, a viagem para a "República Socialista Federativa Soviética da Rússia".

Na sequência, gerou estranheza na imprensa mundial a recepção a Temer pelo vice-presidente da Rússia, e não por Vladimir Putin. Para o professor de Relações Internacionais e Geopolítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Leonardo Valente, o desembarque de Temer, sem as pompas de um chefe de Estado, não chega a ser uma gafe, mas "cada gesto nas relações diplomáticas quer dizer alguma coisa", afirma, acrescentando que o governo brasileiro errou ao tirar o país de um foco importante no Brics (bloco político e econômico composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), mas que os líderes e chefes de Estado preferem acreditar que a importância geopolítica do Brasil é de longo prazo, enquanto Temer é um caso "conjuntural" que poderá ser superado nas eleições de 2018.

"A situação é reversível não por conta do Temer, que é irreversível. Michel Temer é conjuntural, uma infeliz conjuntura, mas o Brasil tem um papel muito relevante e é estrategicamente interessante que ele retome o que estava em andamento antes de Temer", avalia Valente, lembrando que nem mesmo o presidente norte-americano Donald Trump provocou reação tão forte em Cuba quanto o Brasil, que, sob o comando de José Serra no Ministério de Relações Exteriores, deu as costas a países da América Latina e assistiu à retirada do embaixador cubano em Brasília por determinação do presidente Raúl Castro.

Na entrevista abaixo, o professor da UFRJ analisa, ainda, o papel da imprensa internacional e das redes sociais no ânimo nacional e no cenário internacional, além do episódio no qual o Palácio do Planalto identificou inadvertidamente um "chefe do posto da CIA em Brasília", o serviço secreto dos EUA, e anunciou encontro entre o espião e o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Sérgio Etchegoyen.

"É inadmissível o governo brasileiro receber um agente da inteligência dos EUA, a menos que houvesse um objetivo comum entre as partes. Ninguém tem que proteger agente que está agindo de forma ilegal, nenhum general deveria receber esse agente. Mas parece que aqui nada mais choca", critica Leonardo Valente.

Jornal do Brasil - Qual é a imagem do Brasil no exterior hoje e o quão ela mudou nesse último ano e meio? Daria pra exemplificar em etapas?

Leonardo Valente - É possível olhar para alguns aspectos, sim. O Brasil é um país de envergadura, vocacionado para ter relevância, por conta de sua dimensão, economia, posicionamento e que lá fora é mais visto com esse papel do que aqui dentro mesmo. Pelo menos desde os anos 2000, o Brasil vinha num crescente de protagonismo por uma série de motivos e despertava desconfiança das grandes potências sobre seu papel. O que aconteceu desde a chegada do Temer na Presidência da República é muito grave: a política internacional de um país, para ser respeitada, precisa manter suas linhas e seus objetivos. Mas o que aconteceu no Brasil, que é um transatlântico, é que ele deu uma guinada drástica. Para entendermos a gravidade disso, podemos olhar, por exemplo, para os Estados Unidos: por mais que existam grandes diferenças entre Republicanos e Democratas nos Estados Unidos, Donald Trump manteve, de certo modo, as linhas de Barack Obama na política internacional.

O que fez o Brasil?

O governo brasileiro pegou o Itamaraty e deu uma guinada violenta, e isso foi percebido pela América do Sul, pelos Brics, pelos Estados Unidos. Depois de todas essas mudanças, nada mais foi feito em sentido algum e o que se vê hoje é uma anomia. O Brasil tem hoje diplomacia, faz contatos protocolares, mas o que chamamos de diretrizes de Estado, isso está suspenso, não existe. E é claro que as outras nações percebem isso e associam ainda ao fato de que o presidente não tem a legitimidade do voto, não tem sequer popularidade, está envolvido até o pescoço em escândalos de corrupção e seu mandato caminha no fio da navalha até não se sabe quando. Neste momento, os chefes de Estado estão desconfiados, mas eles sabem que o Brasil vinha com uma política externa muito estável, concorde-se ou não com ela, e que no ano que vem, quando temos eleições presidenciais, o cenário pode ser completamente diferente. Então, por enquanto, pensam: "Não vamos nos movimentar de forma brusca para esperar o que vai acontecer mais adiante".

Nem Trump provocou a reação que o Brasil provocou na América Latina [com a política externa de Serra]

A manutenção desse mínimo, do que você chamou de "contatos protocolares", não impediu, porém, que o embaixador de Cuba fosse chamado de volta ao seu país.

Leonardo Valente - Sim. Do ponto de vista regional, a política externa tem sido catastrófica, sobretudo no início do governo Temer [com José Serra à frente do Ministério de Relações Internacionais]. Aquela postura radical gerou em nossos vizinhos, uma indisposição imediata. Veja Donald Trump, que anunciou mudanças em relação a Cuba, e não provocou a reação que o Brasil provocou. Isso, porque ele é um radical. Trump fez apenas um jogo retórico de posicionamento, ele não reverteu nada do que aconteceu [no governo Obama] e as representações diplomáticas [entre os EUA e Cuba] continuaram embaixadas. Já o Brasil, com Serra e sua retórica estridente, querendo ser mais papista do que o próprio Papa, lembrou mais a Venezuela dos anos 1960, que decidiu se isolar da América do Sul inteira, porque se dizia democrática e não se relacionava com ditaduras, apesar de ironicamente se relacionar com a Arábia Saudita. Vai entender... A política externa deve priorizar objetivos de Estado e, diante disso, há que se ter parcimônia, cálculo, progressão e diálogo nas iniciativas. O Brasil fez o extremo oposto de tudo isso.

Como você avaliou a viagem de Temer à Rússia? Falou-se muito do fato de ele ter sido recebido pelo vice daquele país, e não por Vladimir Putin.

Cada gesto, cada sinal nas relações diplomáticas quer dizer alguma coisa. Do ponto de vista protocolar, Temer ter sido recebido pelo vice não foi errado, não foi uma gafe, até porque ele próprio é um vice no comando do país. Agora, se fossem outras as conjunturas o governo russo teria optado por colocar mais calor humano e político nesse encontro, o próprio Putin o receberia com honras de chefe de Estado. O que aconteceu ali foi: "Respeitamos você e ponto, você está aqui porque é membro dos Brics". Aliás, a própria participação do Brasil nos Brics foi mudada ao longo desse governo, porque Temer viu uma chance de se salvar ali, e foi aceito porque os Brics não sabe o que vem por aí no ano que vem. É claro que o governo Temer tirou o Brasil de um foco importante, mas o país está na geladeira, em stand-by, porque poderá ser útil num futuro próximo.

A situação do Brasil é reversível, então?

Reversível não por conta do Temer, que é irreversível. Michel Temer é conjuntural, uma infeliz conjuntura, mas o Brasil tem um papel muito relevante e é estrategicamente interessante que ele retome o que estava em andamento antes de Temer. A mudança da política externa do atual governo foi tão brusca, que ela soa com grau de provisória. Não me parece que um futuro governo legitimamente eleito, tanto à esquerda quanto à direita, vá tomar medidas dessa envergadura com tamanha voracidade. Se for progressista, a tendência é retomar o que estava sendo feito anteriormente. Se for de direita, ainda assim a tendência é que seja uma política menos brusca que a de Temer, mais pragmático, acendendo uma vela para deus e outra para o diabo.

O que mais pesa contra o Brasil no cenário internacional? Deterioração econômica, crise política e institucional ou a Operação Lava Jato expondo os nomes do governo? 

As notícias sobre o Brasil chegam lá fora basicamente de duas formas: pelas agências internacionais e pelos grandes veículos de imprensa que têm seus correspondentes aqui. O trabalho desses profissionais é realizado a partir da nossa imprensa. A gente não tem muita noção disso, mas o que respalda aqui é o que eles vão ecoar lá fora, o que eles vão assimilar, interpretar e traduzir para eles próprios em seus respectivos países. A nossa autoestima, que sempre foi baixa, anda destroçada. Toda a nossa mídia faz um trabalho de autodestruição e autoavacalhação, e a amplificação dos nossos problemas é algo terrível. A corrupção no Brasil sempre foi notícia no mundo afora, isso não é novidade. O que, de fato, está chocando no exterior é o impasse político, a incapacidade de o Brasil resolver suas questões políticas, um presidente que não está fazendo nada, os Três Poderes em guerra. Essa imagem do impasse é mais relevante que a crise econômica.

Em que medida as redes sociais reverberam esse negativismo lá fora e entre os próprios brasileiros?

Há pesquisadores que afirmam que o fator é limitado, enquanto outros garantem que ele não é mais restrito, dado o fato de termos praticamente um celular com acesso à internet por habitante. Além disso, temos os robôs nas redes sociais, que só nas eleições de 2014 eram 300 mil contra os então candidatos Dilma Rousseff e Aécio Neves. As redes sociais têm dois fatores que eu julgo cruciais: um deles é a multiplicação de notícias falsas e o outro é a amplificação do ânimo das pessoas, num movimento retroalimentar de pessimismo. Seria imprecisão minha tentar cravar os efeitos disso, mas me parece que, sim, o impacto é enorme.

Temer enfrentou protestos na Noruega na última sexta-feira (23) e ainda cometeu algumas gafes diante da primeira-ministra, ao afirmar que teria um encontro com o parlamento brasileiro e com o rei da Suécia, quando, na verdade, a reunião era com representantes políticos noruegueses. Como esses fatores repercutem?

O comportamento de Temer é outro componente, é da diplomacia presidencial, e a nossa é catastrófica. Ele mostrou não estar preparado, e essas gafes que ele comete são terríveis. É preciso lembrar que não víamos o ex-presidente Lula ter esses deslizes. Quando você tem interesse na questão, você dificilmente incorre nesse tipo de erro. Mas Temer não tinha a cabeça nessa viagem. O resultado de fatores como as declarações atrapalhadas e os protestos encontram uma explicação na convergência da política com os estudos de mídia: contágio. Por isso, você não vai ver nenhum líder ou chefe de Estado abraçando Temer. Porque esse contágio é ruim politicamente para quem demonstrar afinidade com o presidente brasileiro.

Para além dos deslizes na Rússia, existe algum fator ideológico que distancie Temer de Putin e provoque consequências na relação daquele país com o Brasil?

A imprensa confunde muito isso, não sei se por desconhecimento ou de propósito, a ideologia com os objetivos de Estado. Lula e Putin são tão diferentes quanto água e óleo, não tinham nenhuma afinidade ideológica, mas tinham afinidade estratégica, que era a de criar um ambiente internacional de multipolaridade no qual os Estados Unidos seria apenas mais uma potência, e não a potência. As potências dos Brics estavam alinhadas, mas isso não pode ser considerado alinhamento ideológico. Lula, Putin e Xi Jinping são completamente diferentes e não convergem ideologicamente.

Como você avalia o fato de o governo ter divulgado, às vésperas da viagem de Temer à Rússia, o nome de um agente da CIA (serviço secreto dos EUA) alocado em Brasília e um encontro de agenda deste com o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Sérgio Etchegoyen?

Isso é uma comprovação documental do que todo mundo já sabia: somos os alvos preferenciais do sistema de inteligência norte-americano. Os Estados Unidos dão mais importância ao Brasil do que o Brasil dá a si mesmo. Eles sabem da importância do Brasil na América, no hemisfério, no mundo e nos objetivos norte-americanos. E claro que eles trabalham com informação. Para além disso, é inadmissível o governo brasileiro receber um agente da inteligência dos EUA, a menos que houvesse um objetivo comum entre as partes. Ninguém tem que proteger agente que está agindo de forma ilegal, nenhum general deveria receber esse agente. Mas parece que aqui nada mais choca. 


 Fonte: Jornal do Brasil