ELEIÇÕES 2022: MOVIMENTO 65

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sexta-feira, 3 de junho de 2016

ECONOMIA: Até FMI reconhece: políticas neoliberais aumentaram desigualdade


 
 

Intitulado “Neoliberalism: Oversold?” - algo como “Neoliberalismo: superestimado?” - o artigo resgata um debate que há anos é feito por alguns economistas sobre as experiências fracassadas das políticas neoliberais, que tiveram seu apogeu a partir dos anos 80, nos chamados países em desenvolvimento.

"Os benefícios de algumas políticas que são uma parte importante da agenda neoliberal parecem ter sido um pouco exagerados", reconhecem os economistas.

"Em vez de gerar crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, colocando em risco uma expansão duradoura", constatam.

Os três autores - Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani e Davide Furceri - membros do departamento de pesquisa do FMI, dizem que a abordagem tradicional que a entidade vinha pregando aos países em desenvolvimento - que previa corte de gastos do governo, privatização, livre comércio e abertura de capital - podem ter custos "significativos" em termos de maior desigualdade.

“Os custos em termos de crescente desigualdade são evidentes (...) As políticas de austeridade não só geram custos sociais substanciais, como também prejudicam a demanda e assim agravam o desemprego”, concluem.

De acordo com o texto, o aumento da desigualdade prejudica o nível e a sustentabilidade do crescimento. "Mesmo que o crescimento seja o único ou principal objetivo da agenda neoliberal, os defensores dessa agenda devem prestar atenção nos efeitos de distribuição".

Embora os três economistas reconheçam pontos positivos na agenda neoliberal, eles são categóicos ao apontar a supervalorização do neoliberalismo por parte de seus defensores. 

“No caso da abertura financeira, alguns fluxos de capital, como o investimento estrangeiro direto, parecem ter os benefícios esperados. Mas para outros, particularmente os fluxos de capital de curto prazo, os benefícios em relação ao crescimento são difíceis de verificar, enquanto que os riscos, em termos de maior volatilidade e maior risco de crise se mostram crescentes.”

Segundo os autores, de 150 casos desde a década de 1980 de economias emergentes que tiveram um forte aumento dos fluxos de capital, 20% resultaram em crise financeira. Além disso, a abertura financeira gera um aumento considerável da desigualdade na população do país, alertaram.

Nesta quinta (02), o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Maurice Obstfeld, defendeu que "ninguém quer austeridade desnecessária" e admitiu que a organização está a avaliar a forma como pensa, mas não alterou a sua abordagem.

O fato é que a análise dos pesquisadores do fundo vai de encontro aos que mesmo economistas mais ortodoxos têm percebido ao reavaliarem suas teses e aceitarem o papel do Estado como elemento indutor e regulador da economia. 

O Brasil, contudo, regrediu no debate, o que fica claro nesses pouco mais de 20 dias de governo Temer. O programa do governo provisório, assim como o "pacote de maldades" anunciado pelo novo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, apontam para reduzir gastos sociais - mesmo em áreas como Saúde e Educação -, eliminar direitos trabalhistas, reduzir salários, congelar as despesas primárias do governo, reiniciar um ciclo de privatizações e abrir brecha para entregar o pré-sal às multinacionais.

Significa que, neste momento, o país está diante da uma encruzilhada.  Responsáveis por votar o processo de impeachment, alguns senadores têm nas mãos o poder de decidir que caminho o país tomará. Se optarem por afastar definitivamente a presidenta Dilma Rousseff, não restam dúvidas de que estarão conduzindo o país de volta aos tempos das políticas reconhecidamente fracassadas e de enorme custo social. 


 Do Portal Vermelho, com agências

quinta-feira, 26 de maio de 2016

BRASIL: Nassif: Medidas de Temer e a quitação das contas de campanha


Trata-se de uma disputa histórica em torno do orçamento: os rentistas pretendendo se apossar do orçamento através da dívida pública; e a sociedade, através dos gastos voltados para a melhoria da vida da população.

Se quiser identificar a ideologia de um governo, analise onde se darão os cortes e limites de expansão dos gastos.

No caso do presidente interino, a receita é óbvia: limites para expansão de gastos sociais, mudança nas regras de vinculação de despesas para educação e saúde; e nenhum obstáculo ao nível de juros ou ao comprometimento do orçamento com encargos financeiros. As metas de redução da dívida bruta serão seguidas através dos cortes nas despesas primárias. Enquanto se mantém a excrescência herdada do governo Dilma, de uma taxa Selic de 14,25%, para uma inflação que caminha para 7% e um PIB em queda livre.

O arrocho nos gastos sociais

Vamos entender melhor as implicações dessa tentativa de desvinculação das receitas de saúde e educação.

A Constituição de 1988 vinculou à saúde 15% da receita fiscal. Grosso modo, a receita fiscal de um ano corresponde à receita do ano anterior corrigida pela inflação do período, mais um percentual mais ou menos equivalente ao crescimento do PIB.

Havia uma lógica que permitiria ao país gradativamente aumentar os gastos com saúde na medida em que o PIB crescesse. No início, haveria um sub-financiamento. Com o tempo, uma melhoria gradativa da economia, com o aumento do PIB permitindo o financiamento adequado para as novas demandas de um país em que a população envelhece e os avanços da cidadania expandem o atendimento à saúde.

A proposta do presidente interino Michel Temer é uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que pretende fixar o valor atual da receita de saúde e apenas corrigi-la pela inflação anual.

Significará congelar os gastos da saúde no pior patamar da última década.

Em 2015 e 2016 o PIB deverá cair por volta de 7% a 8% e as receitas fiscais por volta de 12%. Pela regra Temer, as despesas de saúde seriam congeladas nesse patamar mínimo. Significará uma queda de pelo menos 12% em termos reais, sobre o nível pré-crise.

Suponha que em 2014 as receitas fiscais estivessem em 100 e as de saúde em 15.

Em 2015 o PIB caiu 3,8% e as receitas fiscais caíram 5,8%. Com isso, os gastos com saúde caíram de 15 para 14,13 em termos reais. Em 2016, é provável que as receitas fiscais caiam mais 6%. Nesse caso, as despesas com saúde cairão para 13,28 em termos reais.

A PEC obrigará então que o valor seja congelado nesses 13,28 e, dali para frente, apenas atualizado anualmente.

Suponha que a partir de 2017 o PIB cresça sucessivamente, 1%, depois 2% e se estabilize em 3% ao ano – e que as receitas fiscais cresçam dois pontos percentuais acima do crescimento do PIB.

Em 2022, a relação gastos de saúde/receitas fiscais, em vez dos 15% previstos atualmente, cairá para 11,5%, congelando o valor real no patamar mais baixo das últimas décadas – como proporção da receita e do PIB.

Para um setor que padece historicamente com problemas de sub-financiamento, será um desastre completo, com o país abdicando da proposta civilizatória de universalização da saúde. É a maior ameaça ao SUS desde a sua criação. O mesmo ocorrerá com a educação pública.

Fonte: Portal Vermelho

Daniel Almeida: A hora mais escura


A hora mais escura. Charge sobre Previdência
A hora mais escura. Charge sobre Previdência

 Ficou claro que o objetivo central dos golpistas é proteger corruptos, contrariando o desejo popular de limpeza nacional. O comandante do impeachment, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, loteou o governo Michel Temer com subordinados na Casa Civil e Advocacia-Geral da União (AGU). O líder do governo na Câmara, André Moura (PSC-SE), é réu em três ações do STF, alvo da Lava Jato e acusado de tentativa de assassinato. Eles representam a essência desta gestão marcada pela ilegitimidade.

O caso de Romero Jucá é ainda mais grave do que o do então senador Delcídio do Amaral em termos de obstrução de justiça. Por essa razão, o mínimo que se espera é isonomia no Supremo. A Corte deve garantir a prisão e o afastamento de Jucá do mandato no Senado.

Outra face do governo Temer, que revela as reais motivações do golpe, é o arrocho em conquistas sociais. Nem mesmo áreas cruciais, como saúde e educação, serão preservadas. Em meio a trapalhadas, idas e vindas de ministros, desmentidos, a única coisa que não muda é a agenda contra o Brasil. Essa pauta de retrocesso, que privilegia banqueiros e rentistas, jamais seria aprovada em eleições populares.

Depois de planejar reforma da previdência com idade mínima de 65 anos para aposentadoria de homens e mulheres, Temer quer mudar a Constituição para limitar o gasto público com a população. Se for aprovada essa limitação, haverá o congelamento da parcela do orçamento destinada a políticas sociais, não havendo crescimento real, mesmo que as receitas aumentem e a economia melhore. Na prática, limitar valores à correção da inflação impedirá a meta de aplicar 10% do PIB em educação, a melhoria dos serviços de saúde e investimentos em segurança, por exemplo.

Brasileiros que, inocentemente lutaram para tirar a presidenta, estão percebendo o grave engano cometido. Mas ainda há tempo de lutar e impedir o avanço desse governo que leva o país a um passado sombrio. Mais do que nunca, temos de bradar contra essa grande injustiça com Dilma e com o povo. Temos de apostar na consulta popular por meio de plebiscito para escolhermos o melhor rumo a tomar. Juntos, superaremos este momento que representa a hora mais escura da nossa história. Sobreviveremos!


*Daniel Almeida é deputado federal pela Bahia e líder do PCdoB na Câmara.
Fonte: Portal Vermelho

terça-feira, 24 de maio de 2016

"Qual é o esquema de Aécio, sr. Jucá?", pergunta Ricardo Boechat

Após o vazamento da gravação da conversa entre o ministro Romero Jucá e o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, Jucá foi afastado do cargo. Ele voltou à liderança do partido (PMDB) no Senado federal, mas algumas perguntas ficaram no ar.
Uma delas foi feita pelo jornalista Ricardo Boechat, na Band, na segunda-feira (23). “Jucá tem a obrigação de revelar o esquema do Aécio. Qual é o esquema de Aécio, sr. Jucá?”, perguntou o âncora, ao se referir ao trecho da gravação em que Jucá diz que os políticos tradicionais não têm chance nenhuma de ganhar eleição.
Confira o trecho: 
"Sérgio Machado - É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma…
Romero Jucá - Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não.
Sérgio Machado - O Aécio, rapaz… O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe?Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB…
Na conversa, o ex-ministro de Michel Temer, afirma que seria necessária uma ação política para "delimitar", conter a investigação. “Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra. Tem que mudar o governo para estancar essa sangria”, disse Jucá se referindo à Operação Lava-Jato.
 
O senador Aécio Neves não se pronunciou sobre a gravação e os comentário de Jucá a seu respeito. 
Fonte: Portal da CTB Nacional

segunda-feira, 23 de maio de 2016

BRASIL: Quem não conhece o esquema do Aécio?, diz Machado em conversa com Jucá


Preocupado com as investigações, Machado, que é apontado como operador do PMDB no esquema da Lava Jato, manifesta receio com as delações: “Queiroz [Galvão] não sei se vai fazer ou não. A Camargo [Corrêa] vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque eu acho que... O Janot [procurador-geral da República] está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho”, diz.

Jucá concorda e diz que o alvo é todo mundo, inclusive o PSDB. Machado escancara: “O primeiro a ser comido vai ser o Aécio [Neves (PSDB-MG).... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso, porra. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB…”.

Jucá tenta desconversar, mas Machado continua a falar citando um suposto esquema para a eleição de Aécio como presidente da Câmara dos Deputados, entre 2001 e 2002: “O que que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele [Aécio] ser presidente da Câmara?”. 

E completa: “É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma...”. E Jucá responde: “Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não”.

Machado continua a tecer suas considerações sobre Aécio, que também não chegam a ser nenhuma novidade. “O Aécio, rapaz... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB...”



Do Portal Vermelho

BRASIL: Jucá é investigado em seis inquéritos no STF


Agência Brasil
 
 

Jucá é um dos homens de confiança de Temer e foi um dos articuladores do rompimento do PMDB com o governo da presidenta Dilma Rousseff. Nesta segunda-feira (23), a Folha de S. Paulo divulgou a transcrição de uma gravação em que Jucá confirma as manobras pelo impeachment para que Temer ocupasse o poder e buscasse um "pacto" para deter o avanço da operação Lava Jato.

Jucá é investigado oficialmente em dois inquéritos na Lava Jato no Supremo, sob a relatoria do ministro Teori Zavascki, sendo um deles chamado de "quadrilhão" que detalha o crime de formação de quadrilha no esquema de desvio de recursos da Petrobras, em benefício de diversos partidos.

Ainda segundo vazamento da grande imprensa, outra investigação em andamento está avançando. Na sexta o ministro Marco Aurélio Mello teria autorizado a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Jucá para colher informações sobre as transações realizadas entre 1998 e 2002, período do governo FHC. O inquérito investiga suposto desvio de verbas federais em obras municipais. O caso tramita no STF desde 2004.

Jucá é ainda investigado em inquérito que tramita no STF desde 2010, o qual apura “possível existência de crime de falsidade ideológica, desvio de contribuições previdenciárias e contra a ordem tributária”, relatado pelo ministro Gilmar Mendes.

Em outro inquérito relatado por Teori Zavascki, ele é alvo de uma investigação que tramita no Supremo em sigilo desde 2011.

Jucá também é investigado num suposto esquema de compra de medidas provisórias da Operação Zelotes, que tem a ministra Cármen Lúcia como relatora.

Na semana passada, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao STF a abertura de mais um inquérito contra integrantes da cúpula do PMDB para apurar o suposto pagamento de propina na construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Nesse caso, além de Jucá, também são alvos o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e os senadores Valdir Raupp (PMDB-RO) e Jader Barbalho (PMDB-PA). Se o inquérito for aberto, será o sétimo envolvendo Jucá. 


Com informações do Valor Econômico

domingo, 22 de maio de 2016

A História africana pode resgatar a autoestima dos afrodescendentes

A História africana pode resgatar a autoestima dos afrodescendentes

Por: Durval Arantes 
Em psicologia, autoestima é definida como a característica de uma pessoa que valoriza a si mesma, dando-lhe a possibilidade de agir, pensar e exprimir opiniões de maneira confiante. Autoestima também pressupõe uma avaliação objetiva e subjetiva que uma pessoa faz de si mesma como sendo intrinsecamente positiva ou negativa em algum grau. Ou ainda, a autoestima envolve tanto crenças quanto emoções autoassociativas.
Trata-se, portanto, de uma emoção ou de um sentimento que reflete a apreciação que uma pessoa faz de si mesma em relação à sua autoconfiança e seu autorrespeito. Através dessas percepções, podemos enfrentar desafios diversos e defender nossos interesses ante as mais variadas instâncias de nossas vidas. A autoestima é formada ainda na infância, utilizando o tratamento que se dá à uma criança como peça chave, ou seja, se uma determinada criança for sempre oprimida em relação às suas atitudes, muito provavelmente esta criança desenvolverá a “baixa autoestima” como um entendimento de si mesma. Por outro lado, se uma criança for sempre apoiada em relação à suas atitudes, dentro de parâmetros justos e edificantes de avaliação, também muito provavelmente terá a sua autoestima elevada em seu processo de amadurecimento pessoal.

Foto: Coletivo Expressão

Reflexão: Qual a importância da autoestima nas estratégias e tratativas da comunidade afro-brasileira na legitimidade de suas demandas históricas de cidadania de primeira classe?
De um histórico, onde toda a grandiosidade das tradições e estruturas Africanas foi dizimada e violentada pela colonização euro-cristã (período este massacrante e eficaz no sentido de oprimir e desvirtuar toda a essência e autoavaliação que outrora os povos da Diáspora Africana anteriormente faziam de si), o sentimento de autoestima para os afrodescendentes, notadamente os sequestrados para o Novo Continente, transformou-se profundamente, a partir do flagelo do comércio escravocrata, não obstante às muitas e honrosas páginas de resistência, ao longo do tempo.
Tornou-se, pois, em um paradigma quase que épico, na medida em que a dinâmica de vida dos Africanos e de seus descendentes na terra nova passou a “obedecer” a um modelo (ou padrão) opressivo em todos os seus aspectos e o qual viria a servir de parâmetro ou exemplo a ser seguido nesta ou naquela situação, fosse qual fosse a relação entre opressor e oprimido. As vidas dos pretos e pretas passaram a ser regidas por “normas orientadoras” de um grupo hegemônico que estabeleceu limites, a partir de preceitos, teses e doutrinas falaciosas e tendenciosas , que determinariam como um indivíduo de descendência Africana deveria agir dentro desses limites.
E, dentro desses limites, as pessoas habitantes e oriundas dos navios tumbeiros, das senzalas, dos engenhos de açúcar, das plantações agrícolas, das minas de exploração mineral, das periferias, dos morros, das favelas, dos cortiços e das comunidades passaram a ser estigmatizadas pelas elites de forma depreciadora e pejorativa.

Foto do projeto “Cansei” de Larissa Isis

Some-se a isso, especificamente no Brasil, a degradação humana e os baixíssimos índices de cidadania nos quais esses contingentes humanos certamente se inseriam, principalmente nos períodos pré e pós-abolicionistas: desconhecimento e distanciamento de sua própria História, abuso de gênero contra as mulheres, desemprego entre os homens, proibição de voto, baixa expectativa de vida, ociosidade, desamparo republicano, etc…
Sem dúvida, um ambiente histórico pouco propício para qualquer projeto de cultivo sistemático de um sentimento de orgulho e amor próprio, em um povo.
Não sem surpresa, portanto, muitos dos antepassados das gerações atuais de afro-brasileiros e afro-brasileiras introjetaram uma percepção enviesada sobre si, passando a rejeitar e subestimar a sua autoimagem e o que ela representava ante a sociedade da época.
E essa “visão equivocada de si” foi sendo passada de geração a geração, causando efeitos danosos e de longo alcance na formação e no legado psicossocial das pessoas de pele escura habitantes deste lado do oceano.
Isto posto, a autoestima das pessoas afrodescendentes precisa ser construída sobre os pilares da verdade Histórica de seu passado:
Os povos africanos são a primeira e a mais antiga etnia a caminhar sobre o planeta terra (TODAS as demais civilizações terrestres surgiram DEPOIS e A PARTIR dos contingentes humanos saídos da África), os povos Africanos inauguraram os conhecimentos de transformação de metais, estudaram e mapearam as estrelas, os ciclos da água; lançaram os fundamentos da Zoologia e da Botânica, através da observação sistemática da rica fauna verificada na imensidão do território Africano… desenvolveram técnicas de caça e pesca que são utilizadas até os dias de hoje, independentemente do uso de quaisquer tecnologias, fundaram reinos… formataram regras de linguagens e construíram pirâmides cujos níveis de sofisticação e complexidades são ainda um mistério até para o conhecimento científico contemporâneo… cobriram distâncias continentais e venceram obstáculos topogeográficos e climáticos inimagináveis… desbravaram e povoaram territórios outrora inóspitos… lançaram as bases para o aparecimento e a continuidade histórica das civilizações aborígenes, persas, gregas, romanas, ibéricas e do sudoeste asiático, todas tendo a África como ponto de origem!!!

Todo este patrimônio afro-antropológico, no entanto, foi suprimido e “desapropriado” pela dita historiografia eurocêntrica, que deslocou o eixo de entendimento do mundo para o foco de uma visão branca, capitalista e cristã. Somado a isto (ou até mesmo EM RAZÃO DISTO), acrescentem-se todas as influências filosóficas, econômicas, artísticas, acadêmicas, burocráticas e generalistas de conteúdos tendenciosos e protecionistas que visaram (e visam!) à manutenção de privilégios infundados que fundamentaram o controle dos feudos, da burguesia, das castas eclesiásticas, das forças militares, dos conglomerados e das ditaduras que cruzam o processo civilizatório do mundo, desde a Idade Média. E todos estes fatores citados, sem exceção, tornaram-se fatores de desfacelamento e prejuízo da autoestima dos povos representantes da Diáspora Africana.
O século 21 escancarou, via tecnologia virtual, o acesso e a massificação das diversas fontes de informação que oportunizam o contato dos afrodescendentes ao conhecimento real de fatos históricos. Acervo este que, antes da disseminação do mergulho à rede mundial de computadores, só estava disponível em círculos acadêmicos restritos e elitizados. De POSSE desta informação (como fator de revisão, retratação e reparação dos privilégios verificados), os movimentos representantes das demandas das populações afro-diaspóricas podem, também, fazer uso dos conteúdos resgatados via internet como plataformas de resgate e difusão da relevância histórica, social, filosófica, científica e sobretudo humanitária da África e dos seus filhos e filhas para o entendimento da existência da espécie humana sobre a face da Terra. Isso, seguramente, iniciaria um processo altruísta e revigorante no resgate da autoestima étnica de homens e mulheres de pele escura ao redor do planeta.
Após o holocausto que foi a intervenção e colonização europeia no continente Africano (cujos efeitos nefastos se fazem sentir até hoje na região), três indicadores históricos podem ser apontados como responsáveis pelos impactos corrosivos no senso de autoestima dos povos locais e de uma expressiva parte de seus descendentes ao redor do mundo, já a partir da dinâmica do ciclo escravocrata: 
1) A arma de fogo: Instrumento que abatia um foco de resistência de forma imediata: rebelou-se, fuzilava-se e encerrava-se o embate. Aqui o efeito é instantâneo e opressor pela via rápida, inclusive para o amedrontamento de outros eventuais focos de resistências próximos e imediatos.

2) O açoite físico: Mecanismo que minava um foco de rebeldia ou de resistência de forma gradual e lenta. Indiscutivelmente abusivo (e exclusivamente do ponto de vista da mão no chicote), o açoite tinha um caráter “educador”. Durante a “Grande Travessia”, no desembarque em terra firme, nos leilões de venda, na quebra e violação de vínculos familiares, no estupro sistemático e bestialização das mulheres e crianças pretas, no trabalho assalariado e implacável, na Abolição (mais imposta do que conquistada), no abandono do Estado, na perseguição das forças policiais, desde a fundação da República… o abuso físico foi um fator de implosão e deterioramento do amor próprio dos povos afro-diaspóricos.
3) A conversão às religiões monoteístas: As populações afrodiaspóricas inseridas no contexto escravocrata foram forçadas ou seduzidas a abrirem mão de suas doutrinas teo-espirituais seculares, mormente reverenciadoras da flora e das forças da natureza, para abraçarem uma outra doutrina cuja liturgia e retórica são calcadas na reverência a um poder único, no pecado, na punição, na seletividade e na penitência. A conversão religiosa de pessoas afrodescendentes às doutrinas eurocêntricas tem um efeito fisicamente menos traumático do que a arma de fogo e o açoite, mas produz resultados cataclísmicos na auto-percepção de pessoas de descendência Africana, uma vez que este fenômeno se apropria da “alma” e do discurso dessas pessoas, com a vantagem adicional de este “efeito doutrinador” ser repassado de geração para geração de uma mesma família. Um domínio e controle que se estende pelo tempo, pelo espaço e em escala geométrica. Talvez não seja de toda absurda a lógica de se afirmar que, ao defender o seu direito intrínseco (sobretudo legítimo) de defender a fé monoteísta que prega e acredita, uma pessoa afrodescendente está paradoxalmente fazendo a defesa da autoestima de uma tradição sufocante, que tira a África do centro do entendimento do que é, como é, e do “porquê é” o mundo. Em todas estas 3 instâncias do fenômeno afrodiaspórico (arma de fogo, açoite e conversão doutrinária) a autoestima ORIGINAL de pessoas Africanas e de sua descendência foi meticulosamente pisoteada, subestimada, corrompida, oprimida e relativizada.
Agora, ainda às portas do século 21, é chegado o momento de as pessoas herdeiras das tradições Africanas seculares promoverem um resgate da grandeza e da “maravilhosidade” de sua importância como pessoas e, assim, promover o revigoramento de sua autoestima.
Temos, sim, que manter o foco nas mazelas, ameaças e desigualdades que assolam a nossa gente todos os dias e em todas as facetas da sociedade moderna.
Mas temos, também, que pegar a nossa própria História pelas mãos e fazer dela um motivo de orgulho, exaltação, auto-satisfação, glória e honra.
Essa História, a nossa, rica e que abraça todo o mundo, não se inicia com a chegada dos colonizadores na Europa.
Nós NÃO SOMOS descendentes de escravos. Somos descendentes de seres humanos Africanos que foram ludibriados, manipulados e sequestrados em suas terras.

Imagem: FlinkSampa – Google Images

A nossa autoestima já reside dentro de nós. Se estava adormecida, já passou da hora de acordá-la. E que seja cedo, logo de manhã. Ao levantarmos, que cada um e uma de nós que vá para a frente de um espelho. E que só saia de lá quando amar e respeitar a imagem refletida diante de si.
Nós, filhos e filhas da Diáspora Africana, viemos ao mundo com o direito de ter sonhos e sermos felizes.
Com todo o respeito às opiniões em contrário.
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Fonte: Mundo Negro